Ciências Afins: Política

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O pensamento político ocidental mais moderno originou-se na chamada Idade da Razão (1517-1770), que se seguiu à Idade Média (475-1517) na Europa. O fim do primeiro Império ocidental – o Império Romano –, próximo de 500 d.C., significou 1000 anos de domínio de Civilização Oriental, tanto sob o Império Otomano quanto sob o Chinês, até se alcançar os 500 anos de hegemonia da Civilização Ocidental.

A invenção da imprensa, a ascensão dos Estados-Nação e a conquista das Américas foram alguns dos fatores que influenciaram a transição entre essas eras. O questionamento da ortodoxia religiosa, através da publicação das 95 Teses de Martinho Lutero, em 1517, demarca não só a Reforma Protestante (à qual se seguiu a Contrarreforma Católica), como o início da Era do Racionalismo e do Iluminismo.

A disputa pelo Poder entre autoridade (religiosa ou mundana) e governança estatal, na Europa em transição, levou às batalhas inter e intra grupos religiosos e civis. Questionando a doutrina religiosa até então dominante, buscava-se uma nova forma de organizar e legitimar a ordem política.

Dois conceitos tornaram-se fundamentais para defender um Estado absolutista:

  1. o direito divino dos monarcas para governar, e
  2. a Lei Natural, que analisava o comportamento humano, buscando princípios morais válidos.

Na França, Jean Bodin (1530-1596) defendeu um poder central forte com soberania absoluta, para evitar a luta de facções que acompanhou o declínio da autoridade papal na Europa. Thomas Hobbes (1588-1679), escrevendo durante a Guerra Civil na Inglaterra (1642-1649), concordou com Bodin quanto à necessidade de um soberano forte, mas não sobre o direito divino dos reis, o qual a obra de Bodin foi usada para legitimar.

Para Hobbes, o poder de governar era garantido não por Deus (Igreja), mas pelo Contrato Social com os governados. A ideia de que o poder para governar era dado pelo Povo por meio de um contrato implícito ou explícito – e que os governantes podiam ser legitimamente destituídos do Poder caso quebrassem esse Contrato Social – se mantém central no entendimento moderno dos sistemas políticos.

Outras percepções vieram de Johannes Althusius (1563-1638), que via a Política como a arte de unir as pessoas em associações para garantir interesses coletivos como a paz e a prosperidade, e de Montesquieu (1689-1755), que enfatizava que o governo deveria ser baseado no Princípio da Separação dos Poderes Legislativo e Executivo. Todos esses pensadores escreviam contra um Estado forte e centralizado.

Teólogos espanhóis começaram a interpretar a Bíblia usando argumentos baseados na racionalidade, chegando até a criticar as conquistas coloniais feitas pela Igreja. Distinguiu-se as leis feitas pelos homens das leis naturais e das leis de orientação divina. Daí decorreu a crítica ao direito divino dos reis como uma mescla confusa dessas três fontes de leis.

Depois, eruditos do período baseariam suas análises não na Teologia, mas sim na Razão Pura. Aproximaram-se dos ideais iluministas. Immanuel Kant (1724-1804) cunhou o termo Iluminismo, em 1784, para descrever a capacidade e liberdade de se usar a própria inteligência sem a orientação de outros.

Enquanto acadêmicos como Bodin e Hobbes focavam na estabilidade política e usavam o conceito de Lei Natural para defender o Absolutismo, os escritores iluministas usavam a Lei Natural como alicerce das teorias liberais e do direito internacional, dizendo que os humanos tinham direitos que excediam as leis feitas pelos homens.

Hugo Grócio (1583-1645), considerado o fundador do Direito Internacional, colocou a liberdade e os direitos como posses exclusivas dos indivíduos, em oposição à ideia de os direitos serem qualidades concedidas por Deus (Igreja). Essa ideia era essencial para o desenvolvimento do liberalismo e a separação conceitual dos direitos e deveres em questões jurídicas.

John Locke (1632-1704) defendeu os direitos e a liberdade individuais. Ele argumentou que o propósito do governo e das leis era preservar e ampliar a liberdade humana. Assim como Hobbes, ele acreditava no Contrato Social, mas sua visão humanista o levou a concluir que o governo deveria ser limitado e protetor, não autoridade absoluta.

O Iluminismo norte-americano não apenas delineou a Declaração de Independência dos Estados Unidos, em 1776, como também a aproximou dos ideais da Revolução Francesa, em 1789, a qual costuma ser vista como o apogeu do Iluminismo europeu. Benjamin Franklin (1706-1790) foi uma figura central desse período. Suas visões sobre o empreendedorismo como uma virtude cívica tiveram uma forte influência no desenvolvimento do capitalismo.

Nesse contexto intelectual, por volta de 1750, Adam Smith (1723-1790),  professor de Lógica e Filosofia Moral na Universidade de Glasgow, conheceu o filósofo David Hume, que se tornou um dos seus mais próximos amigos. Em 1759, publicou a Teoria dos Sentimentos Morais, incorporando algumas das suas aulas de Glasgow, que cobriam os campos da ética, retórica, jurisprudência, e política econômica ou “política e rendimento”.

Esse trabalho, que estabeleceu a reputação de Smith durante a sua própria vida, refere-se à explicação da aprovação ou desaprovação moral. Ele baseia a sua explicação não em um “sentido moral”, nem como David Hume, com base em utilidade, mas sim na empatia e simpatia com os mais ricos. Estes que são “felizes”, então, trata-se de imitá-los, mesmo que falsamente, para aparentar ter a atraente “felicidade”.

Há controvérsia se há ou não uma contradição entre a ênfase de Smith na empatia como motivação humana fundamental em “Teoria dos Sentimentos Morais”, e o papel essencial do auto-interesse na “Riqueza das Nações”. Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações, é a obra mais famosa de Adam Smith, publicada pela primeira vez em Londres em março de 1776.

Smith parece colocar mais ênfase na harmonia geral dos motivos e atividades humanas sob uma providência benigna no primeiro livro (Teoria dos Sentimentos Morais). No segundo livro (A Riqueza das Nações), apesar do tema geral da “mão invisível de O Mercado”, promovendo a harmonia de interesses, Smith encontra mais ocasiões para apontar causas de conflitos e o egoísmo estreito da motivação humana.

Fonte: O Livro da Política. São Paulo; Globo; 2013.

4 thoughts on “Ciências Afins: Política

  1. Caro Fernando,

    No livro de Giovanni Arrighi, Adam Smith in Beijing (2007), ele argumenta – estou usando da memória, não chequei (li em 2007) – que Adam Smith nunca disse o termo “mão invisível do Mercado”, ou seja, que não há registros sobre o fato.
    Sds,

    • Prezado Oswaldo,
      minha “memória periférica” já era… Minha “memória sistêmica” leva-me a crer que Smith escreveu: “cada indivíduo procura apenas seu próprio ganho. Porém, é como se fosse levado por uma mão invisível para produzir um resultado que não fazia parte de sua intenção… Perseguindo seus próprios interesses, freqüentemente promove os interesses da própria sociedade, com mais eficiência do que se realmente tivesse a intenção de fazê-lo”. Página? Não me lembro…
      Ele mencionou a “mão invisível” apenas uma vez em sua obra, mas a presença dela é uma onipresença divina.
      sds

  2. Caro Fernando,
    O site Edge (http://www.edge.org/), começou hoje uma série nova, toda segunda, são dez programas. HeadCon ’13: WHAT’S NEW IN SOCIAL SCIENCE?
    Entre os debatedores, estava Daniel Kahneman e Daniel C. Dennett.
    Vídeo disponível com Sendhil Mullainathan: “WHAT BIG DATA MEANS FOR SOCIAL SCIENCE”
    (At the top of the EDGE home page: http://www.edge.org)

    We are pleased to present the first of ten talks from this summer’s EDGE conference, “HeadCon ’13: WHAT’S NEW IN SOCIAL SCIENCE?”,
    which we are rolling out one talk at a time on consecutive Mondays (with a holiday break), beginning today with Harvard behavioral economist Sendhil Mullainathan. Working with film director Jason Wishnow, Director of Film and Video at TED from 2006- 20012 (co-creator of TED Talks), we filmed the talks in split-screen with five cameras, presenting each speaker and the surrounding participants from multiple simultaneous camera perspectives. HeadCon ’13 is very much an experiment in creating and presenting something new in online video designed to capture the dynamic of an EDGE event, focusing on the interaction of ideas, and of people.

    November 11th Sendhil Mullainathan: “What Big Data Means For Social Science”
    November 18th June Gruber: “The Scientific Study of Positive Emotion”
    November 25th Fiery Cushman: “The Paradox of Automatic Planning”
    December 2nd Rob Kurzban: “P-Hacking and the Replication Crisis”
    December 9th Nicholas Christakis: “The Science of Social Connections”
    January 20th Joshua Greene: “The Role of Brain Imaging In Social Science”
    January 27th Laurie Santos: “What Makes Humans Unique”
    February 3rd Joshua Knobe: “Experimental Philosophy and the Notion of the Self”
    February 10th David Pizarro: “The Failure of Social and Moral Intuitions”
    February 17th Daniel C. Dennett: “The De-Darwinizing of Cultural Change”

    Also participating: Jennifer Jacquet, Daniel Kahneman, Anne Treisman.

    [EDITOR’S NOTE: The HeadCon ’13 multi-panel videos are designed to be viewed in full-page mode. To enable, click on the full-screen icon on the lower-right of the video image.]

    – John Brockman, Editor
    Russell Weinberger, Associate Publisher

    “WHAT BIG DATA MEANS FOR SOCIAL SCIENCE”

    [SENDHIL MULLAINATHAN:] “I’m going to talk to you today about a project that I’ve started in the last year or two. This type of thinking, this type of work, is going to be one of the challenges social science faces in the coming three, four, five, ten years. It’s work exclusively with Jon Kleinberg. For those of you who don’t know him, Jon is a computer scientist, one of the preeminent computer scientists. He’s probably the smart one of the two of us, but I’m the pretty one so it’s better that I’m being taped.

    “This is work that starts with the following observation that lots of people have had, so it will be trite to start with but we just have to live with that. The observation is that data sets are getting bigger, and bigger, and bigger in a fundamental way. As the size of data grows, what does this imply for social science? For how we conduct the business of science?

    “We’ve known big data has had big impacts in business, and in lots of prediction tasks. I want to understand, what does big data mean for what we do for science? Specifically, I want to think about the following context: You have a scientist who has a hypothesis that they would like to test, and I want to think about how the testing of that hypothesis might change as data gets bigger and bigger. So that’s going to be the rule of the game. Scientists start with a hypothesis and they want to test it; what’s going to happen? …”

    SENDHIL MULLAINATHAN is Professor of Economics, Harvard; Assistant Director for Research, The Consumer Financial Protection Bureau (CFPB), U.S. Treasury Department; Coauthor, “Scarcity: Why Having Too Little Means So Much”.


    Next: JUNE GRUBER: “The Scientific Study of Positive Emotion” – Monday, Nov 18, 2013–
    Part II of the conversation from HeadCon ’13: WHAT’S NEW IN SOCIAL SCIENCE?

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    Edge Foundation, Inc. is a nonprofit private operating foundation under
    Section 501(c)(3) of the Internal Revenue Code.

    “The World’s Smartest Website” THE GUARDIAN

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