Segunda Regra do Método Sociológico: Holismo

CuatrocuadrantesHOLISMO

Na segunda parte do prefácio à segunda edição de As Regras do Método Sociológico (1895), Émile Durkheim comenta uma outra proposição: a que apresenta os fenômenos sociais como exteriores aos indivíduos. O argumento inicial é que os fatos da vida individual e os fatos da vida coletiva são em certa medida heterogêneos. A partir desse ponto de partida, quase não havia sociólogos que negassem à sociologia qualquer tipo de especificidade. Mas, porque a sociedade não é composta senão de indivíduos, parece ao senso comum que a vida social não pode ter outro substrato senão a consciência individual. Em outras palavras, a Sociologia parece ficar no ar e planar no vazio.

Exemplo desse senso comum seria a seguinte boutade do escritor argentino Jorge Luís Borges. “Existem somente os indivíduos: tudo o mais – as nacionalidades e as classes sociais – é mera comodidade intelectual”.

Sempre que quaisquer elementos, ao combinarem-se, provocam, pelo fato de se combinarem, fenômenos novos, é preciso conceber que esses fenômenos se situam não nos elementos, mas no todo formado pela sua união.

A vida social não pode decompor-se em átomos. Os sociólogos não adotam, como os economistas do mainstream, o atomismo. A vida social é una e, consequentemente, só pode ter por abrigo a substância viva na sua totalidade. Está no todo e não nas partes. E o que Durkheim diz da vida social poderia repetir-se de todas as sínteses possíveis.

Aplica este princípio à Sociologia. Se essa síntese sui generis que constitui qualquer sociedade dá origem a fenômenos novos, diferentes dos que ocorrem nas consciências solitárias, é necessário admitir que esses factos específicos residem na própria sociedade que os produz e não nas suas partes, quer dizer, nos seus membros. São, portanto, neste sentido, exteriores às consciências individuais consideradas como tais.

Assim se justifica, por uma nova razão, a separação que Durkheim estabeleceu entre a Psicologia propriamente dita, ou ciência do indivíduo mental, e a Sociologia. Os fatos sociais não diferem apenas qualitativamente dos fatos psíquicos. Eles têm um outro substrato, não evoluem no mesmo meio, não dependem das mesmas condições.

Isto não significa que não sejam também, de certo modo, psíquicos, visto consistirem todos em maneiras de pensar ou de agir. Mas os estados da consciência coletiva são de uma natureza diferente da dos estados da consciência individual. São representações de outro tipo. A mentalidade dos grupos não é a mentalidade dos particulares; tem as suas leis próprias. As duas ciências são, pois, tão nitidamente distintas quanto duas ciências o podem ser, quaisquer que sejam as relações que, de resto, possam existir entre elas.

Que a matéria da vida social não possa explicar-se por fatores puramente psicológicos, quer dizer, por estados da consciência individual, parece a Durkheim de todo evidente. Com efeito, o que as representações coletivas traduzem é a maneira como o grupo se pensa nas suas relações com os objetos que o afetam. Ora, o grupo não é constituído do mesmo modo que o indivíduo e as coisas que o afetam são de outra natureza.

Representações que não exprimem nem os mesmos sujeitos nem os mesmos objetos não podem depender das mesmas causas. Para compreender a maneira como a sociedade se representa a si própria e ao mundo que a rodeia, é a natureza da sociedade, e não a natureza dos particulares, que devemos considerar.

Os símbolos com que a sociedade se pensa mudam de acordo com o que ela é. Mesmo que a Psicologia individual não tivesse já segredos para nós, não poderia dar-nos a solução de nenhum dos problemas sociais, tais como os clãs e as divindades locais, uma vez que eles se referem a categorias de fatos que ela ignora.

Os mitos, as lendas populares, as concepções religiosas de toda a espécie, as crenças morais, etc., exprimem uma outra realidade que não a individual. Mas poderia acontecer que o modo como se atraem ou repelem, se agregam ou desagregam, fosse independente do seu conteúdo e apenas dissesse respeito à sua qualidade geral de representações. Mesmo sendo feitas de uma matéria diferente, comportar-se-iam nas suas relações mútuas como as sensações, as imagens ou as ideias no indivíduo.

Não se poderá pensar, por exemplo, que a contiguidade e a semelhança, os contrastes e os antagonismos lógicos, atuam da mesma maneira quaisquer que sejam as coisas representadas? Daí o conceber-se a possibilidade de uma Psicologia inteiramente formal que seria uma espécie de terreno comum à Psicologia individual e à Sociologia. Isso é talvez o que causa o escrúpulo de certos espíritos em distinguir de forma perfeitamente nítida estas duas ciências.

No estado dos conhecimentos existentes no final do século XIX, a pergunta assim feita não podia ter solução categórica. Efetivamente, por um lado, tudo o que se sabia sobre o modo como se combinam as ideias individuais se reduzia a escassas proposições, muito gerais e muito vagas, a que se chama vulgarmente leis da associação das ideias. E, quanto às leis da ideação coletiva, eram ainda mais completamente ignoradas.

A Psicologia Social, que deveria ter por tarefa determiná-las, não passava de uma palavra que designava toda a espécie de generalidades, variadas e imprecisas, sem objeto definido. O necessário, seria procurar, pela comparação dos temas míticos, das lendas e das tradições populares, das línguas, de que modo as representações sociais se atraem ou se excluem, se fundem umas nas outras ou se distinguem, etc.

É certo que os psicólogos falam às vezes das leis da associação das ideias como se elas fossem as mesmas para todas as espécies de representações individuais. Mas nada é menos verosímil: as imagens não se com põem entre si como as sensações, nem os conceitos como as imagens. Se a Psicologia estivesse mais avançada, comprovaria, certamente, que cada categoria de estados mentais tem as suas leis formais que lhe são próprias. Se assim é, devemos a fortiori esperar que as leis correspondentes do pensamento social sejam específicas, como esse mesmo pensamento.

Durkheim conclui que em caso algum a Sociologia pode ir buscar pura e simplesmente à Psicologia esta ou aquela proposição e aplicá-la tal e qual aos fatos sociais. Antes, todo o pensamento coletivo, tanto na forma como na matéria, deve ser estudado em si mesmo, por si mesmo, com o sentimento do que tem de especial. Alertava que “devemos deixar ao futuro o cuidado de procurar em que medida ele [o pensamento coletivo] se parece com o pensamento dos particulares. É mesmo um problema que pertence mais à Filosofia Geral e à Lógica Abstrata que ao estudo científico dos fatos sociais”.

PS:

Holismo

O prefixo grego holos significa todo, inteiro, integral, totalidade, realidade. Ele integra o paradigma holístico, que representa uma resposta à crise de fragmentação dos saberes, que embasa a dissociação dos componentes da realidade. Estes saberes dispersos impõem a ignorância do todo à humanidade, ameaçando a própria evolução científica.

O modelo holístico leva em conta o movimento dinâmico entre o todo e as partes, reconstituindo a dialética real da verdade de todas as coisas sustentadas com base em leis da mecânica do universo relativo. Nele, a realidade, a totalidade, a verdade, se configuram sobre o substrato da complementaridade.

A lógica antropocêntrica fragmentou “a verdade”, isto é, “o todo”, resultando em dificuldade na leitura reconstituinte dessa “verdade” totalizante. Na prática social, possibilitou o aparecimento das inúmeras religiões, partidos políticos, ordens, seitas, etc. Tornou-se um credo a impossibilidade dessa reconstituição.

Em vez de se obter um conhecimento integrado, o conhecimento humano fragmentou-se em disciplinas estanques, fragmentando a inteireza da vida. O ego hipertrofiado ampliou os conflitos internos e externos, função das fronteiras artificiais gestadas pela ação antropocêntrica.

holismo1A abordagem holística é inclusiva, integrativa, ao considerar a interdependência dinâmica entre as partes e o todo. A educação holística permitiria extirpar todos elementos antropocêntricos que esfacelam o conhecimento e a vivência humana. Combateria o caráter fragmentado do ser humano, reintegrando o ente humano à percepção e vivência do todo. Dirigiria cada um dos educandos para o desenvolvimento do seu equilíbrio pessoal e harmonia consigo e com o universo vivo.

O objetivo dessa educação holística seria levar o educando a um novo modo de ser, de perceber, de pensar, de sentir e de agir, de perceber totalidade a partir dos seus diversos aspectos. O processo do despertar da consciência holística e da integração individual, levaria o ente humano a se relacionar melhor com a natureza, com os seus semelhantes e consigo mesmo. Não se trata de ser totalitário, não admitindo nenhuma divisão do trabalho de conhecimento, mas se trata sim de não se alienar em relação aos resultados diversos desse trabalho.

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