Blue Jasmine: Triste Anomia provocada pela Queda Social

Cate BlanchettWoody Allen é um diretor excepcional — e a cada filme tende a se aperfeiçoar mais. Sob sua direção muitos atores e atrizes ganharam o Oscar: Diane Keaton, Dianne Wiest, Mira Sorvino, Penélope Cruz, Michael Caine. Desta vez, Cate Blanchett, atriz extraordinária, tem atuação digna de receber esse prêmio. Sua transformação dramática em plena cena é notável. É a protagonista que “rouba a cena” durante quase todo o filme Blue Jasmine (2013).

Mas Allen é também o roteirista genial, criador de diálogos irônicos, mordazes, enfim, que respeitam a inteligência do expectador. Na fase atual do cinema norte-americano, isso é totalmente “fora-da-série” de filmes infanto-juvenis cheio de efeitos especiais (e violência) ou das comédias debiloides. Ele não cria mundos imaginários, mas trata com agudeza o mundo real que nos observamos no dia-a-dia de maneira inteiramente verossímil.  Apresenta-nos a comédia de costumes da vida cotidiana de maneira perspicaz e sutil.

Desta vez, ele teve um insight em relação aos anos após Grande Crise de 2008, quando muitos milionários norte-americanos perderam suas fortunas aplicadas em produtos financeiros “exóticos” — derivativos que não faziam a menor ideia do que se tratava. Ele imaginou o que seria o contrário da grande ambição social contemporânea de enriquecimento: o empobrecimento.

A mobilidade social invertida de cima para baixo propicia reencontro da ex-socialite da Park-Avenue de New York com sua irmã adotiva de “genes diferentes”. Ela busca refúgio na casa da irmã, em San Francisco – California, a cidade “neohippie” contrastante com os yuppies sofisticados de NY. Porém, outrora louvados, passaram a ser vistos como trambiqueiros, pilantras e todos os piores adjetivos dirigidos a quem perdeu em jogatina financeira fraudulenta o prêmio de loteria (US$ 200 mil) — metáfora da “pequena poupança” –, que permitiria alguma ascensão social, “abrindo o próprio negócio”. Sua estória vai sendo exposta, gradativamente, ao longo do filme, em excelente montagem de flashbacks.

A irmã – Ginger – é interpretada pela ótima atriz britânica Sally Hawkins, que atuou em O Sonho de Cassandra do próprio Woody Allen e também no filme Made in Dagenham sobre as operárias da indústria têxtil decadente. Ginger é simplória, trabalha como empacotadora em supermercado e só namora e casa com “perdedores” aos olhos de Jasmine.

Winners & Losers não é só título de uma série de TV norte-americana, mas é a própria classificação binária que os “vencedores” fazem a respeito de si e dos demais — os “perdedores”.  Essa visão esnobe vem de longe e espalhou-se por todas as Américas. Talvez, no ex-Império Britânico, a segregação simbólica tenha alcançado o mais alto grau. Na Inglaterra aristocrática, demarcava-se o lugar social de cada cidadão à primeira vista (vestimenta, cabelo, epiderme, etc.), ou melhor, à primeira audição, já na dicção ou sotaque do sujeito. Essa discriminação social se generalizou até hoje na Civilização Ocidental.

Não se trata apenas de questões de marcas do consumo conspícuo de luxo, como a protagonista alardeia. Logo na abertura do filme, em impagável sequência do voo de “Primeira Classe” da Costa Leste para a Oeste e na separação das suas “malas Louis Vuitton”, já fica caracterizado o seu estranhamento com o retorno à origem social, depois do fracasso do casamento com um ultra milionário nova-iorquino.

A anomia é o conceito adequado para caracterizar o estado de falta de objetivos e perda de identidade, provocado pelas intensas transformações ocorrentes no mundo social moderno. A origem histórica desse fenômeno social relaciona-se com o surgimento do Capitalismo, quando o Iluminismo assume que a Razão é a forma de explicar o mundo. Há, então, um brusco rompimento com valores tradicionais, fortemente ligados à concepção religiosa. Em Teologia, anomia significa a desobediência à lei divina.

Pior, a Modernidade, com seus intensos processos de mudança, não fornece novos valores que preencham os anteriores demolidos, ocasionando uma espécie de vazio de significado no cotidiano de muitos indivíduos. Há um sentimento de se “estar à deriva”, participando inconscientemente dos processos coletivos ou sociais com perda quase total da atuação consciente e da identidade.

Socialmente, a anomia representa a ausência de lei ou de regra, espécie de desvio das leis naturais com a desorganização da vida cotidiana. Na neurociência, refere-se à impossibilidade de nomear ou recordar os nomes dos objetos, embora o paciente os perceba e os compreenda.

No filme, a anomia destacada é o estado da sociedade em que desaparecem os padrões normativos de conduta e de crença. O indivíduo, em conflito íntimo, encontra dificuldade para conformar-se às contraditórias exigências das normas sociais. A Psicologia Social contemporânea expõe a desorganização pessoal que resulta em uma individualidade desorientada, desvinculada do padrão do seu grupo social.

Jasmine sofre uma brutal tristeza – blue destacado pela sempre primorosa trilha sonora dos filmes do Woody Allen (veja abaixo) – com a queda da Classe A para a Classe C. Mas sofre também com o assédio sexual do patrão-dentista da Classe B…

A etimologia grega de anomia – “violação da lei, ilegalidade; ausência de leis, anarquia, desordem” – vem de ánomos — “sem lei, ilegítimo, criminal” –, ou de a(n)nómos — “o que se atribui em partilha, o que se possui, ou aquilo de que se faz uso, costume, opinião geral, máxima, regra de conduta, o costume que tem força de Lei, Direito”.  No caso do filme, a ameaça de perda da fortuna foi muito pior (e decisivo) para a denúncia da sonegação fiscal e o aprisionamento do marido ricaço do que a descoberta de suas amantes. Acaba a sensação de impunidade dos ricos e poderosos.

Este termo anomia foi cunhado por Émile Durkheim em seu livro O Suicídio. Ele o emprega para mostrar que algo na sociedade não funciona de forma harmônica. Algo desse corpo está funcionando de forma patológica ou “anomicamente”. Em seu famoso estudo sobre o suicídio, Durkheim mostra que os fatores sociais, especialmente da sociedade moderna, exercem profunda influência sobre a vida dos indivíduos com comportamento suicida, tal como no caso do marido da Jasmine.

Jasmine também enlouquece com a decadência social. Não só fala sozinha, mas quando fala para ouvintes quaisquer, por exemplo, seus sobrinhos garotos (cena antológica), transborda todos os seus sentimentos e pensamentos sem nenhuma cautela e censura. O filme retrata muito bem a falta de privacidade, ou melhor, a publicitação da vida íntima em todas as camadas sociais. Simplesmente, não se respeita os problemas privados alheios.

Segundo Robert King Merton, anomia significa uma incapacidade de atingir os fins culturais. Para ele, ocorre quando o insucesso em atingir metas culturais, devido à insuficiência dos meios institucionalizados, gera conduta desviante. Esse pensamento popularizou-se graças ao seu livro: Estrutura Social e Anomia (1949).

A Teoria da Anomia de Merton busca explicar porque os membros das classes menos favorecidas cometem a maioria das infrações penais. Desde crimes de motivação política, como atos terroristas, saques, ocupações, vandalismo, etc., que decorrem de uma conduta de rebeliões, bem como comportamentos de evasão como o alcoolismo e a toxicodependência. Jasmine adota essa mesma conduta em seu mergulho social.

Ninguém se enxerga socialmente. Os emergentes não observam os hábitos corteses, a conduta adequada, a educação necessária, a sofisticação requisitada, a vestimenta apropriada, a linguagem exigida, a escrita correta, e tudo mais que são pré-condições para o alpinismo social. Os decadentes… vice-versa.

O filme pode ser visto como uma verdadeira (e divertida) aula de Sociologia.

Blue Jasmine (2013) Motion Picture Soundtrack

Blue Jasmine
Tracklist:

1. Back O' Town Blues, Louis Armstrong and The All Stars (5:06)
2. Blues My Naughty Sweetie Gives To Me, Jimmie Noone (3:02)
3. Blue Moon, Conal Fowkes (3:12)
4. Speakeasy Blues, King Oliver (2:45)
5. A Good Man Is Hard To Find, Lizzie Miles And Sharkey's Kings Of Dixieland (2:47)
6. Great White Way, Julius Block (2:41)
7. Aunt Hagaru2019s Blues, Louis Armstrong (4:58)
8. The Vision, DJ Aljaro (3:44)
9. House Party, Mezzrow-Bechet Septet (2:38)
10. Yacht Club, Julius Block (3:01)
11. Out On the Town, Kully B (2:53)
12. Average Joe, Stephen Emil Dudas (3:23)
13. Human Static, Bob Bradley (2:59)
14. Miami Sunset Bar, Meriya Medina & Raul Medina (3:45)
15. Ipanema Breeze, Paul Abler (2:19)
16. Welcome To the Night, Andrew Bojanic (3:29)
17. My Baby Sends Me (aka My Daddy Rocks Me), Trixie Smith (5:50)
18. Love Theme, David Chesky (3:21)
19. West End Blues, King Oliver (3:02)
20. Black Snake Blues, King Oliver (2:55)

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