Crise europeia (2007-2013) e Implicações da Moeda Única para a Periferia da Zona do Euro

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Já tenho uma recomendação de Monografia de Graduação para concorrer (e com alta chance de ganhar) a algum prêmio no próximo ano! Trata-se da monografia de meu ex-aluno, Osvaldo Antonio Dadico Filho. A crise europeia (2007-2013) e as implicações da moeda única para a periferia da zona do euro. Seu trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) no Instituto de Economia – Universidade Estadual de Campinas foi defendido no dia 10 de dezembro de 2013. Foi a primeira (e ótima) orientação do jovem e promissor Prof. Dr. Bruno Martarello De Conti, colega da nova geração do IE-UNICAMP. Fiz parte da banca de julgamento. Concedemos, consensualmente, um 10 (dez).

Recomendo, fortemente, a leitura dessa “quase-dissertação de Mestrado” (153 páginas) sobre tema tão fascinante: a experiência histórica, em sua etapa final, de transformar um território originário de feudos (e senhoriagem) em um Estado federativo, tipo Estados Unidos da Europa, com moeda única, símbolo de soberania nacional. O desafio multicultural é que lá tem 23 linguas oficiais, monarquias e repúblicas, assimetrias nacionais, choques religiosos, etc. Caso desenvolva sua unificação,  a União Europeia terá a chance de ter competitividade internacional frente aos EUA, aos países exportadores da Ásia e, especialmente, ao BRIC. Caso ocorra um retrocesso na União Europeia, vejam a reação da população pró-Europa da Ucrânia…

Esta monografia tem como objetivo principal analisar as consequências da criação da União Monetária Europeia (UME) para as nações “periféricas” da eurozona (PIIGS), notadamente no que diz respeito às possibilidades de manejo de política econômica. Assim, busca-se analisar de que maneira a adoção de uma moeda única afetou a periferia da zona do euro e sua capacidade de enfrentar a crise atual.

O início deste trabalho remete à construção teórica feita por Robert Mundell, em 1961, acerca das Áreas Monetárias Ótimas (AMO’s). Nesse sentido, são explicitadas as vertentes desenvolvidos pela primeira (Mundell (1961), McKinnon (1963) & Kenen (1969)) e segunda (Krugman (1991), Tavlas (1993), Frankel (1998), de Grauwe (2003)) gerações teóricas acerca das AMO’s. Em seguida são destacadas as vantagens e desvantagens incorridas por uma determinada nação, ao aderir à moeda comum.

No segundo capítulo, relata-se um breve histórico da União Europeia, desde a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA) em 1951 até a conformação da UME. Nesse trajeto, explicitam-se os critérios de convergência descritos pelo Tratado de Maastricht (1992), no auge da era neoliberal. A criação da UME foi pautada pelo princípio de que todos os países do bloco convergiriam a um patamar semelhante, podendo receber o mesmo tratamento e contar com as mesmas armas, de acordo com modelo descrito por WALTERS (1986) como “one size fits all”.

Foi mais uma experiência desastrosa mitificada por uma visão neowalrasiana de idealização de um Modelo de Equilíbrio Geral. Uma real motivação geo-econômica e política, configurar um forte bloco regional de comércio livre intra-zona europeia e uma barreira estratégica face a novas aventuras bélicas, recebeu falsa legitimidade teórica por parte de economistas neoliberais, pré-estabelecendo supostos “critérios de convergência” para países com fortes assimetrias estruturais (veja quadros acima), insuperáveis em um horizonte de tempo geracional. Ai, que saudade da velha e boa abordagem estruturalista…

O terceiro capítulo reitera, através de dados econômicos, o fato de que tais critérios de convergência não foram suficientes para garantir a homogeneidade entre os países do bloco. O projeto de adoção de uma moeda comum, da maneira como fora elaborada, impôs dificuldades adicionais aos países participantes deste processo, no mérito de enfrentamento de possíveis dificuldades econômicas: perderam a possibilidade de uso dos instrumentos de política monetária e cambial. Ademais, os mecanismos de ajustamento propostos acabaram minando o funcionamento ótimo da união monetária, tornando-a mais suscetível a desequilíbrios financeiros e choques assimétricos.

O que de fato se observa, entre os anos de 2002 e 2007 (pré-crise), é a crescente divergência entre variáveis reais dos países periféricos da UME e das nações centrais do bloco. Esse processo de ampliação das disparidades centro-periféricas, no ambiente intrabloco, elevou de maneira exacerbada a dependência em relação a fluxos externos de capitais para financiar o déficit em transações correntes nos chamados PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha), a qual permaneceu mascarada no contexto de prosperidade vivida pelo bloco na primeira metade da década de 2000.

Todavia, com o estouro da crise estadunidense, a liquidez que outrora fluia abundantemente rumo aos países periféricos, como forma de financiar seus recorrentes déficits em transações correntes, seca rapidamente a partir de 2008 pelo mecanismo conhecido como “sudden stop”. Desta forma, deflagra-se a Crise da zona do euro, apresentando consequências econômicas trágicas para a Europa e o restante do mundo.

8 thoughts on “Crise europeia (2007-2013) e Implicações da Moeda Única para a Periferia da Zona do Euro

  1. Prezado Fernando,

    Gostaria de dizer algumas palavras desse belo trabalho de TCC, pegando um gancho na sua sintese sobre o TCC/UME,

    (…) “Foi mais uma experiência desastrosa mitificada por uma visão neowalrasiana de idealização de um Modelo de Equilíbrio Geral. Uma real motivação geo-econômica e política, configurar um forte bloco regional de comércio livre intra-zona europeia e uma barreira estratégica face a novas aventuras bélicas, recebeu falsa legitimidade teórica por parte de economistas neoliberais, pré-estabelecendo supostos “critérios de convergência” para países com fortes assimetrias estruturais (veja quadros acima), insuperáveis em um horizonte de tempo geracional. Ai, que saudade da velha e boa abordagem estruturalista…”
    (…) “Caso desenvolva sua unificação, a União Europeia terá a chance de ter competitividade internacional frente aos EUA, aos países exportadores da Ásia e, especialmente, ao BRIC.

    Eu creio que os EUA e EU estão no mesmo barco, a fadiga do material é da cultura anglo-saxã e da civilização ocidental dos últimos séculos, em clara crise de descendência.
    Martins Jacques, em “Como a China vai mudar o mapa da geopolítca global” (março de 2013), mostra-nos dados recentes, na qual em 2030, o PIB dos EUA e EU juntos somarão 28% (15% EUA e 13% EU) do PIB global, e a China terá um PIB de 33% do PIB global, ou seja, o mesmo PIB que tiveram em 1820. Além dos países não ocidentais, Ásia, África e América Latina, somarem uma população de 87% da população global.
    http://engenhonetwork.wordpress.com/2013/12/13/como-a-china-vai-mudar-o-mapa-da-geopolitca-global/

    Com minha análise pobre e visão limitada, foi ancorar na visão visionária de mestre Celso Furtado,
    (…) “Nesse sentido, o acordo comercial “rápido” (claro viés política, escondendo os fatos) entre América do Norte e União Europeia, que será apenas 15% da população mundial em 2030, aparenta ser um tiro no próprio pé, pior ainda, estão brincando com fogo, claramente estão sem visão de futuro, ou não sabem como encarar a realidade, jogando um perigoso jogo, tentando isolar a China. A secular questão geopolítica: Quem vai controlar o mundo e em quais termos?”
    http://engenhonetwork.wordpress.com/2013/10/03/celso-furtado-e-o-ocidente-em-state-of-denial/

    De certa forma, guardada as devidas proporções, é essa linha de análise, que li na introdução do TCC, escrita por Osvaldo Antonio Dadico Filho, ou seja, trata-se de uma crise da civilização ocidental dos últimos séculos, EUA e EU, eles olham para o futuro e se sentem num penhasco, faltam-lhes chão e bom senso, e aí, aparenta estar atirando no próprio pé, pior ainda, estão brincando com fogo, claramente estão sem visão de futuro.
    Sds,

    • Prezado Oswaldo,
      grato pelos comentários — e pelo elogio ao seu xará, ele vai gostar.

      O problema é fazermos prognósticos sobre “Queda de Civilização” é que talvez não estejamos aqui para conferir… Embora já tenhamos vistos coisas surpreendentes desde que passamos a ter consciência da História humana… Isso sem falar no “olhar ex-post” através dos livros.
      sds.

  2. Prezado Fernando,

    excelente resumo estarei analisando com mais profundidade esse assunto. Segue a minha colaboração em matéria de fontes para estudo!

    História do Capitalismo – Michel Beaud: https://www.dropbox.com/s/xa11nahds39n1xv/Michel%20Beaud%20-%20Historia%20Do%20Capitalismo.pdf

    Formação econômica do Brasil – Celso Furtado: http://www.afoiceeomartelo.com.br/posfsa/Autores/Furtado,%20Celso/Celso%20Furtado%20-%20Forma%C3%A7%C3%A3o%20Econ%C3%B4mica%20do%20Brasil.pdf

    Fonte de pesquisa direta: http://www.afoiceeomartelo.com.br/posfsa/
    Neste site existem dois links interessantes:

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    O site também aceita uploads para aumentar o acervo! Compartilhe. Abs.

      • Com certeza Fernando,
        hoje a leitura está cada vez mais próxima de todos e com o auxílio dos Smartphones e dispositivos conectados, ficou ainda mais fácil de ler. Nos próximos 5 anos a internet será onipresente nos cantos e lugares, aí os livros chegarão automaticamente para todos, e não somente os livros como também todo o conhecimento humano. E quando disserem que o universo nasceu de um ponto matemático, acredite, é verdade! Abs.

    • Caro Conti-Bosso,
      Asimov foi um visionário e importante divulgador da ciência. O primeiro livro que li dele foi “O colapso do Universo”, quando eu tinha 15 anos, foi exemplar para me colocar cada vez mais fundo no caminho do conhecimento. Grande post. Abs.

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