Decisões em Situações de Incerteza: Comportamento Heurístico, Racionalidade Ecológica e Seleção Social

holismo

É um prazer ver um ex-aluno do meu curso de Macroeconomia Aberta defender um Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação do Instituto de Economia – Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) de cunho teórico! Nova geração está sendo (bem) formada já sob orientação da geração de colegas que tem idade para terem sido meus alunos, no caso, o dedicado teórico David Dequech. Praticamente, Felipe Maciel da Silva defendeu uma “tese”, pois reuniu boa argumentação no teste de sua hipótese original, intitulada Decisões em Situações de Incerteza: Comportamento Heurístico, Racionalidade Ecológica e Seleção Social (click no link para download). No dia 13 de dezembro de 2013, participei da banca julgadora.

Em resumo, ele avalia que o modelo de racionalidade ilimitada, que fundamenta a teoria microeconômica neoclássica, foi e continua sendo alvo de pesadas críticas devido à sua falta de realismo e sua incapacidade de explicar diversas anomalias que constituem comportamentos humanos triviais. A constatação de racionalidade limitada por parte dos indivíduos e incerteza por parte do ambiente econômico constitui uma barreira à racionalidade ilimitada e serve de base para um desenvolvimento teórico alternativo ao comportamento econômico, baseado em modelos heurísticos, cuja racionalidade é ecológica.

Particularmente, a concepção do sistema econômico como um sistema dinâmico e evolucionário, tal como Joseph Schumpeter o postula, justificaria a apropriação de contribuições da Biologia, como a seleção natural, o equilíbrio pontuado, a seleção social, etc., além do reconhecimento de que parte do comportamento humano tem um fator biológico e genético. Logo, para o avanço do conhecimento do comportamento humano sistêmico, Felipe adota uma postura multidisciplinar – a meu ver na fronteira do conhecimento científico contemporâneo –, quando reincorpora-se os conhecimento das outras ciências afins à Ciência Econômica, antes abstraídas para as formulações da Teoria Econômica Pura.

Eu me esforçava para reincorporar apenas as contribuições metodológicas da Filosofia, Psicologia, Sociologia e Política, enfim, das Ciências Humanas. Eis que ele me surpreende, em seu terceiro capítulo, quando usa analogia com o pensamento biológico das Ciências Naturais! “O mestre que não sabe se deixar ultrapassar por um aluno é um mestre ruim”.

As três premissas do Modelo de Equilíbrio Geral são racionalidade, flexibilidade (ou atomismo) e informações perfeitas (ou ausência de intervenção governamental inesperada ou aleatória). Essa tradição neowalrasiana da autodenominada “corrente principal” de pensamento econômico idealiza “o que deveria ser” na Arte da Economia, incorrendo no “vício ricardiano” de cair diretamente, sem mediação teórica, do plano mais abstrato para o concreto mais duro. Com aqueles fundamentos microeconômicos implanta os alicerces de uma Macroeconomia Normativa.

Com esse método viciado (e incorreto) não reconstitui a repartição artificial da realidade, ocorrida por motivo de divisão de trabalho científico, ou seja, para nossa comodidade intelectual. Os neowalrasianos continuam abstraindo, por exemplo, os conflitos políticos de interesses classistas, a psicologia dos tomadores de decisões e, alerta Felipe, o meio ambiente físico e social onde os agentes econômicos, seres humanos, estão imersos!

A primeira pergunta que lhe fiz é se o contraponto à essa Macroeconomia Normativa não seria apenas uma Macroeconomia Positiva? Seria a descrição de “o que é” com recuperação de outros conhecimentos disciplinares para ficar apenas no nível de uma Economia Aplicada? Contraporia à Economia Pura, mas não faria uma crítica construtiva, se não deduzisse ensinamentos úteis à Arte da Economia, para o uso de instrumentos de política econômica ou para tomadas de decisões práticas?

A teoria neoclássica considera os desvios da norma ideal como anomalias a serem corrigidas. A teoria alternativa não pode ficar apenas no plano da descrição de O Todo, isto é, A Verdade, segundo Hegel. O mais interessante pensador neoclássico, o sueco Knut Wicksell, por exemplo, considerava que a formulação de um argumento lógico, ainda que a partir de premissas simples e esquemáticas, transmite mais conhecimento real do que uma discussão superficial acerca de “tudo que há sob o Sol”. Achava que, “se a Economia Política algum dia vier a ser uma ciência real e um guia para nossa ação prática, ela deve inevitavelmente progredir para certos resultados positivos e princípios de aplicação universal”.

A metodologia da Economia Positiva, elaborada por Milton Friedman, em 1953, já descartou a crítica ao realismo das hipóteses, alegando simplesmente que todas as hipóteses de qualquer teoria, seja ortodoxa, seja heterodoxa, são, por definição, abstratas, portanto, irrealistas. Por isso, a heterodoxia não pode apelar apenas para a crítica do descasamento entre teoria pura neoclássica e a realidade observada, desde que de suas premissas  se deduz um “cinturão protetor” com boa aderência estatística à realidade. Ideologicamente, o neoclassicismo possui uma guarita forte ao sugerir que o que atrapalha alcançar o equilíbrio prometido na livre economia de mercado são intervenções ad hoc do deus ex-machina estatal ou da divindade sindical.

O estudo de Felipe parte do pressuposto de que – ao contrário das situações hipotéticas em que se desenvolvem muitos axiomas de teoria econômica – os agentes são inseridos em um mundo complexo, dinâmico e essencialmente incerto. Eles não são independentes desse meio – físico e social – no qual estão inseridos. Abstrair tais atributos não é considerado por ele saudável ou necessário à construção de uma teoria do julgamento, das decisões e do comportamento econômico. Similarmente, ele não busca reduzir o homem aos seus atributos meramente biológicos ou físicos nem analisá-lo isoladamente no nível individual, abstraindo o agregado.

Em outras palavras, ele não abstrai a seleção natural do animal-humano nem reparte a realidade em Microeconomia e Macroeconomia, pois os indivíduos estão imersos no meio-ambiente físico e socioeconômico. “Tem-se, portanto, tanto que a estrutura do ambiente em que ocorre o comportamento importa sobremodo e que essa estrutura define se e em que medida as características particulares do indivíduo são relevantes na determinação de seu comportamento.”

A Economia Comportamental apontou o “efeito framing” no enquadramento das decisões práticas a cada contexto, ou seja, a dependência da forma em que as questões a serem solucionadas se apresentam condiciona as respostas dadas. Felipe desenvolve o tema a respeito da influência do meio. O modo como se estabelece o ambiente em que a decisão será tomada influencia o resultado da percepção individual, então, a própria decisão, tornando os indivíduos sujeitos à manipulação e influência do comportamento alheio.

Novidade para mim também foi o conceito de racionalidade ecológica, trazido por Gigerenzer (2008), a fim de contrastar a visão de modelos heurísticos como explicações ad hoc de desvio de comportamento frente uma norma baseada na lógica, o que seria o caso de Kahneman (2003). Ao invés, Gigerenzer (2008) propõe que se contraste a mente (ou as características do indivíduo) ao ambiente no qual o comportamento se verifica. A racionalidade é ecológica no sentido de que dados comportamentos particulares foram evolutivamente selecionados devido à sua capacidade de solução de problema em dados ambientes específicos. Sua adequação se deve ao seu desempenho nos ditos ambientes para os quais vão sendo adaptados.

Assim sendo, comportamentos heurísticos sob uma óptica de racionalidade ecológica não são meramente soluções a limitações cognitivas dos indivíduos que são incapazes de conduzir processos de racionalidade ilimitada. São também soluções desenvolvidas a uma dada estrutura do ambiente vis-à-vis às características do indivíduo evolutivamente adaptadas. A Biologia Econômica avança em relação à Psicologia Econômica!

Os pensamentos ou os comportamentos automáticos são instintivos, portanto, frutos de preconceitos, ou são atitudes reativas aprendidas e/ou selecionadas? O conteúdo do problema é relevante ao trazer à tona o conhecimento implícito, quando cada estrutura requer uma abordagem distinta. Tais constatações reforçam a ideia de que o julgamento humano é de domínio específico, ou seja, dependente do ambiente em que está inserido.

O comportamento econômico possui características individualistas ao passo de que o comportamento social possui características de sociabilidade. Exemplo disso é o altruísmo, que não faz sentido em uma perspectiva de racionalidade econômica. Altruísmo é a tendência ou inclinação de natureza instintiva que incita o ser humano à preocupação com o outro. Não obstante sua atuação espontânea, pode ser aprimorada pela educação positivista (“o que é“), evitando-se assim a ação antagônica dos instintos naturais do egoísmo. O Homo Economicus é tudo, menos altruísta! Mas é egoísta desde não seja educado com boas maneiras…

Face à instabilidade do ambiente haveria pressão pela adoção de normas formais ou tácitas e convenções que reduziriam o nível de incerteza do ambiente na medida em que reduziria a gama de comportamentos possíveis à generalidade dos indivíduos. Existiria forte pressão por parte do ambiente social pela convergência e adequação do comportamento individual, havendo represálias deliberadas ou não para comportamentos que divirjam do que é usual e generalizado.

Tal pressão poderia ser um resultado evolucionário, uma vez que a mais rápida convergência de comportamento alheio à norma é vantajosa aos indivíduos que seguem tal norma. Porém, perguntei eu (FNC): e se a “norma”, em determinada fase do ciclo de preços dos ativos, é ficar “comprado” ou “vendido”, tal como em comportamento de manada que infla até explodir as bolhas de ativos? Essa irracionalidade (ou loucura) coletiva acabará não prejudicando a todos e, portanto, ao próprio indivíduo?

Em síntese, a “tese” de Felipe propõe o uso do conceito de racionalidade ecológica, ou seja, de uma racionalidade que leve em conta tanto as características e aptidões dos indivíduos bem como as particularidades dos ambientes, em contraposto à típica postura neoclássica de partir de racionalidades universais e independentes tanto de características dos indivíduos, gerais ou particulares, bem como do ambiente.

  • Das características individuais, destaca-se o que se chama de racionalidade limitada, isto é, o reconhecimento de que a capacidade computacional humana é limitada e favorece o uso de comportamentos que poupem esforço mental.
  • Das características do ambiente, destacam-se as características sociais tais quais as instituições, a presença de algum nível de incerteza, e a presença de seleção social, a competição intraespecífica por recursos escassos que favorece comportamento inovador.

Ele avalia que “o modelo evolucionário proposto por Schumpeter é particularmente coerente com as constatações teóricas e práticas dos estudos posteriores quanto à racionalidade limitada, racionalidade ecológica, comportamento heurístico, bem como às questões consideradas de evolução, particularmente os processos de seleção natural, de seleção social, de equilíbrio pontuado e a importância da plasticidade fenotípica. O modelo schumpetereriano de desenvolvimento econômico se mostra extremamente coerente tanto no nível do indivíduo que o fundamenta como no nível da dinâmica e desenvolvimento macroeconômico que ele postula, apresentando (…) como adequada a relação entre instabilidade e estabilidade estrutural do ambiente econômico e entre comportamento de continuidade e comportamento inovador do indivíduo econômico.”

Minha pergunta final: para estudar a Macroeconomia Comportamental exige-se a agregação dos diversos comportamentos individuais, tal como faz o Individualismo Metodológico, ou deve-se partir do Holismo? Minha dedução depois da leitura dessa Monografia desafiante e criativa é que ela defende o Holismo, mas não para designar um tipo de determinismo oposto ao do atomismo, espécie de “Coletivismo Metodológico“, mera inversão do Individualismo Metodológico. Nesse sentido, não descreve bem o trabalho do Felipe, pois ele rompe com o determinismo “totalitário” ou “coletivista” ao verificar que o meio-ambiente físico e socioeconômico deixa margem para as inovações, as rebeldias, as criatividades, as rupturas, as trajetórias caóticas, etc.

Uso a expressão Holismo representando a ideia de que as propriedades de um sistema, inclusive o composto por seres humanos, não pode ser explicado simplesmente pela soma de seus componentes: o todo é maior que essa soma.  O sistema como um todo – o meio-ambiente físico e socioeconômico – seleciona socialmente os comportamentos adequados a si próprio, em certas circunstâncias, mas é um corpo mutante não determinístico. Passa por permanente retroalimentação dinâmica na sequência avaliações individuais-decisões práticas-constituição do ambiente incerto.

Escapa assim do atomismo. Evita também o reducionismo a indivíduos homogêneos, em que, supostamente, todos dispõem da mesma racionalidade. As informações perfeitas eram a terceira premissa neoclássica que o próprio mainstream já tinha descartado, primeiro, com a ideia monetarista de expectativas adaptativas, depois com a novoclássica de expectativas adaptativas, finalmente com a novokeynesiana de informações assimétricas.

1 thought on “Decisões em Situações de Incerteza: Comportamento Heurístico, Racionalidade Ecológica e Seleção Social

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s