A Grande Beleza

Toni Servillo em A Grande Beleza

O filme “A Grande Beleza“, dirigido pelo italiano Paolo Sorrentino, ganhou o prêmio máximo do European Film Awards, uma espécie de Oscar europeu, e concorreu à Palma de Ouro em Cannes. Sorrentino é um dos expoentes da nova geração do cinema italiano. Tem apenas 43 anos, mas prefere retratar nas telas tipos mais velhos. Foi o caso do impagável Cheyenne (Sean Penn), personna do Robert Smith, líder da banda de rock dark, The Cure, que se arrasta para dar um sentido ao seu fim de vida ao recuperar seu relacionamento post-mortem com o pai, ex-prisioneiro do Campo de Concentração de Auschwitz. Dedica-se à perseguição do velho algoz nazista no interior dos Estados Unidos. Leia maisAqui É Meu Lugar.

Sorrentino diz que não se dá bem com os jovens: “Gosto dos personagens mais vividos, que manifestam sentimentos como nostalgia, melancolia e tristeza”. Será que os jovens apreciarão esses sentimentos de tiozão?!

Apenas “jovens-cabeça” apreciarão o ar blasé do protagonista. Ele exprime completa indiferença pela novidade, pelo que deve comover ou chocar. Está embotado pelo excesso de estímulos (sensoriais, afetivos, intelectuais etc.) ou de prazeres, então, se tornou insensível ou indiferente a eles. Demonstra apatia ou desinteresse em relação a tudo, por sentir ou crer ter esgotado todas as possibilidades de experiências ou sensações. Representa aquele sujeito que se mostra entediado (sinceramente ou por afetação) com relação a coisas pelas quais a maioria das pessoas demonstra interesse. Faz o tipo “crianças, já vi tudo!

A etimologia da palavra francesa blasé vem de 1837, significando “indiferente, apático, que não demonstra emoção”. É o partícipio passado do verbo blaser (séculos XVII-XVIII), que significa “embotar o sentido do gosto, por excesso de comida e bebida, tornar-se indiferente ou insensível”. Mas  Gep Gambardella prima pela sensibilidade em relação à grande beleza de Roma — aquela que leva turista japonês ter ataque de coração!

A Grande Beleza” pode ser visto como uma homenagem ao meio século de “A Doce Vida”, filme clássico premiadíssimo de Federico Fellini de 1960. E também “Oito e Meio (8 ½)”de 1963. E por que não? Também “Os Boas-Vidas (I Vitelloni)” de 1953. Todos receberam indicações ao Oscar de Melhor Roteiro Original. “A Grande Beleza” é a memória viva do grande cinema italiano!

Sorrentino assume a influência, mas não se sente à vontade com a comparação. Diz que “seu filme não é uma obra-prima como a de Fellini”. Será que não? Vejamos.

“Filme limítrofe entre uma maneira antiga – linear – de fazer Cinema e o modo novo de organizar a história em grandes blocos autônomos, ‘A Doce Vida’ libera o imaginário de Fellini e abre para ele as portas do onirismo e da psicanálise, um mundo em que as certezas se esgarçam”, disse Jean Gili, em “Le Cinéma Italien”.

Onirismo, em Medicina, é o estado anormal de consciência caracterizado por sensação de irrealidade, como fosse um sonho. Pode ser causado por substâncias tóxicas, drogas anestésicas, autointoxicação, etc. Em Psicologia, é a atividade mental doentia composta de visões e de cenas animadas, tais como as produzidas pelo sonho.

Os psicólogos distinguem-se dois processos diferentes da memorizaçãoo armazenamento e a recuperação de informações – e mostram como os dois estão conectados. Há tipos diferentes de memória: a curta ou recente e a de longo prazo. Mas não há só uma memória de longo prazo, pois há diferença entre lembranças baseadas em conhecimento (fatos e dados) e lembranças baseadas em experiência (eventos e conversas).

Então,  concebeu-se uma segmentação da memória de longo prazo em três tipos:

  1. a semântica, o armazém de fatos;
  2. a episódica, o repositório de nossa história e acontecimentos pessoais; e
  3. a processual, o arquivo de métodos e técnicas.

Se as memórias semânticas são organizadas em categorias por temas com o mesmo significado, as memórias episódicas são ordenadas em relação ao período e às circunstâncias específicas em que foram originalmente armazenadas.

Por exemplo, se determinado sentimento ocorreu durante uma sessão de cinema acompanhado, a memória do que se sentiu seria armazenada associada à memória do evento. Assim como a categoria “amor” pode fornecer uma dica para recuperar a memória semântica “Roma” [a palavra a-m-o-r de trás pra frente] a menção “felliniano” pode funcionar como dica para a recuperação do que se sentiu durante aquele evento.

Quanto maior o elo entre essas memórias autobiográficas e a época em que ocorreram, maiores as possibilidades de acesso a elas. As “lembranças fotográficas”, armazenadas quando ocorre um evento especialmente impactante são um exemplo extremo disso.

Quem assistiu “A Doce Vida”, por exemplo, não se esquece da voluptuosa estrela de cinema Sylvia (Anita Ekberg) caminhando no meio da madrugada em Roma, quando descobre a Fontana di Trevi. A deusa loira entra nas águas e seduz o jornalista Marcello (Marcello Mastroianni).

Isabella Ferrari e Toni Servillo em A Grande Beleza

Federico Fellini (1920-1993) é um dos poucos casos de criador cinematográfico cujo universo, tipos humanos e situações extrapolaram seu campo de atuação e se impuseram no vocabulário: felliniano. Isso se deve ao modo como o artista explorou suas vivencias, memórias e visões, e misturou tudo com um poder de imaginação surpreendente.

Condições de vida sem muitos encantos foram reencantadas pelas fantasia fertilíssima que o artista adotou como ferramenta de reinvenção da realidade. Fellini, desde criança, passava horas desenhando, ampliando em cor e tamanho a impressão que tinha dos tipos humanos variados, com especial predileção pelos mais excêntricos. Sorrentino, em “A Grande Beleza” recupera esse dom de retratista que tanto Fellini quanto Pasolini exploraram em seus filmes. São caricaturas retratadas, baseadas em tipos reais, tanto em gente da rua quanto das altas rodas da sociedade.

Fellini fundiu também as habilidades circenses do palhaço e do mágico. Sorrentino cita-o quando, de maneira surreal, aparecem e desaparecem girafa e flamingos. O mágico explica: “É apenas um truque”.

A sociedade do espetáculo é povoada de reminiscências autobiográficas reais ou inventadas, característica central da obra felliniana que o cineasta Sorrentino homenageia. É fragrante o ceticismo do protagonista, o escritor de um livro único, O Aparelho Humano – “obra-prima” premiada há 40 anos, mas que não se encontra mais nas livrarias –, Gep Gambardella (Toni Servillo), com 65 anos. Celebridade de fama efêmera? Não, pois ele continua se destacando como “arroz-de-festa”.

Está quase sempre com um copo de uísque na mão e um cigarro na outra, varando a noite em festas, escolhendo mulheres por “algo mais além da beleza ou sexo”, acordando só à tarde. Vaga por Roma sem ter destino certo, desfrutando de seu tempo livre em conversas banais com amigos. “Há uma renúncia por parte dos personagens do filme em relação às coisas essenciais da vida, eles preferem o supérfluo”, disse Sorrentino.

No entanto, quando uma dondoca autocentrada quer se apresentar com o discurso oco tipo “mulher-de-dupla-jornada-de-trabalho e escritora marxista de dúzia de livros, inclusive um sobre a história do Partido”, Gep desmonta sua autoimagem grandiosa, criada através do viés de auto validação ilusória. Ele apenas refresca sua memória através de fatos tais como: ela contava com dúzias de empregadas auxiliares e não dedicava tempo algum à criação dos filhos; seus livros foram todos patrocinados pela editora do Partido… Ela se levanta injuriada da roda de amigos da classe ociosa – aqueles cujo ofício é “ser rico” –, que desejavam apenas festejar o ócio, ou seja, a desnecessidade de trabalhar.

Passa o tempo, a socialite esquece o episódio, e já está de novo dançando nos braços de Gep. Ele a pergunta: “Nós já fomos para a cama alguma vez? Não? Ainda bem que resta algo a fazer na nossa vida…”

Como em “A Doce Vida”, a estrutura fragmentada de “A Grande Beleza” serve de base para um olhar que privilegia a decadência. Estabelece uma equivalência entre o declínio do Império Romano e o tempo presente.

O cineasta faz um retrato das ruinas que ficaram da capital do que foi o primeiro Império Ocidental. Há “a grande beleza” nas cenas que registram a arquitetura da cidade, embora a decadência (e queda) seja revelada no estilo de vida da alta sociedade romana. A esbórnia – encontros festivos em que predominam o hedonismo e o desregramento da orgia sexual – e “os melhores trenzinhos que não levam a lugar nenhum” são comemorados continuamente.

Há muitos anos a Itália esqueceu a importância da cultura e da arte” diz o diretor. Em um dos (ótimos) diálogos do filme, um empresário diz que “o país só é lembrado hoje em dia pela moda e pela pizza…”

Em uma das cenas sobre o convívio com o Vaticano, Jep é apresentado a um cardeal durante uma comemoração. Ele – “o maior exorcista da Europa, portanto, candidato a Papa” – em vez de distribuir sermões ou discutir espiritualidade, prefere transmitir receitas de pratos italianos.

Ainda mais impagável é a aparição de uma “santa”, que se alimenta apenas de raízes, há mais de um século. Ela é objeto de devoção ecumênica. Essa personagem, cuja vida é cheia de sacrifícios, sofre uma privação desconhecida por Gep. Um espanto!

Em “A Doce Vida”, o repórter (Marcello Mastroianni) dedica-se a flagrar pessoas da alta sociedade na noite ou verificar supostas aparições da Virgem Maria nos arrabaldes da cidade ou acompanhar uma estrela de cinema em visita a Roma. Gep é o alter ego de Marcello e envelhecido – um segundo eu, um substituto perfeito!

Essa estética fantasista e onírica como expressão de um universo particular e de um olhar nostálgico pessoal é tipicamente felliniana. Delimita temas e compõe um quadro visual extravagante tal como é característica da obra de Fellini.

Porém, o termo “I Vitelloni”, intitulado “Os Boas Vidas” no Brasil, extraído por Fellini do dialeto local da região que nasceu, designa os jovens preguiçosos e imaturos que não têm uma noção muito clara do rumo que querem tomar na vida. Em “A Grande Beleza”, esses jovens migraram para a capital italiana, já envelheceram, e tem uma noção muito clara do rumo que querem tomar na vida: glorificar o nada fazer. O único imigrante que planejava fazer algo artístico para conquistar uma “dona” acaba desistindo, por causa da desilusão amorosa, e retorna à terra natal, justificando-se: “Roma não me quer…”

Os figurantes não são mais personagens excluídas e maltratadas, como mostrava Fellini, quando ainda demonstrava sua filiação neorrealista. Mas sua visão já lançava desconfiança sobre valores pretensamente cristãos como “a bondade humana”. Sorrentino também retrata essa amargura. Retrata tipos mafiosos.

Tal como em “A Doce Vida”, em “A Grande Beleza” há um afresco que ironiza os costumes da alta sociedade italiana, antes refeita das ruinas do fascismo de Benedito Mussolini, agora em plena ruinas da era de Sílvio Berlusconi. Mas em ambos filmes ela é apresentada entregue à volúpia e ao hedonismo da sociedade de consumo, ou melhor, do espetáculo.

“Por que você, Gep, não escreveu outro livro?” À essa pergunta, ele responde de duas formas, ambas irônicas. Uma, “fiquei deslumbrado com ‘A Grande Beleza’ do cotidiano ocioso e não consegui transmiti-la, trabalhando”; outra, “se Flaubert tentou, mas não conseguiu escrever sobre O Nada, quem sou eu para conseguir…”

O niilismo é a redução ao nada, o aniquilamento, a não existência. Gep possui o ponto de vista que considera que as crenças e os valores tradicionais são infundados e que não há qualquer sentido ou utilidade na existência. Tem um total e absoluto espírito cético em relação ao mundo circundante e ao próprio eu.

Na realidade, ele se afirma na negação e na recusa, em curso na história humana, e especial na modernidade ocidental, de crenças e convicções – com seus respectivos valores morais, estéticos ou políticos em declínio. Estes valores não oferecem um sentido consistente e positivo para a experiência imediata da vida. A Decadência do Império Romano está na fase de agravamento final do esquecimento originário do ser, o que implica a prevalência de uma realidade dominada pela não-atividade. Não à toa a Itália é parte central do PIGS (Portugal-Itália-Grécia-Spain), países europeus meridionais esmagados pela crise reinante.

O ceticismo é a doutrina segundo a qual o espírito humano não pode atingir nenhuma certeza a respeito da verdade, o que resulta em um procedimento intelectual de dúvida permanente e em abdicação, por inata incapacidade, de uma compreensão metafísica, religiosa ou absoluta do real.  É o oposto do dogmatismo, exprimindo a falta de crença em alguém ou algo. Gep só expressa descrença, incredulidade, dúvida…

Sorrentino, em “A Grande Beleza”, tal como Fellini, em “A Doce Vida”, observa a cúpula social, a fauna mundana dos nobres de aluguel, das “divas” e “playboys”, dos cardiais pervertidos, dos intelectuais angustiados, das vedetes ou “stripers” de sucesso efêmero em suas fases de declínio. Estabelecem contrastes com os párias – as pessoas comuns mantidas à margem da “alta sociedade”, ou seja, excluídas do convívio social dos ricos e das celebridades. Nós

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