Razão Econômica da Má Qualidade de Cópias de Filmes-de-Arte

Assisti ao filme A Grande Beleza no único cinema com 4 salas de “filmes-de-arte” de Campinas. Fica no outro lado da cidade, em relação a onde eu moro, ao lado do campus da UNICAMP. Pelo anel rodoviário, levo quase meia hora para lá chegar, ou seja, metade do tempo para chegar em São Paulo. Pior, a projeção ainda não é digitalizada. Roma, “a grande beleza”, estava uma feiúra! Esmaecida, esverdeada, pálida, fiquei boquiaberto quando vi trechos digitalizados do filme no YouTube. Aprecie o vídeo acima com sua bela trilha sonora.

Lendo a matéria de Matheus Magenta (FSP, 23/12/13), entendi a razão econômica da má qualidade da cópia de filme-de-arte.

“Os cinemas brasileiros correm contra o tempo para digitalizar seus projetores antes do fim de novas cópias em película, previsto pelos grandes estúdios para 2014.

Enquanto isso, o mercado teme dois possíveis efeitos colaterais:

  1. o fechamento de 300 das 2.500 salas do país e
  2. o sufocamento da circulação de filmes independentes.

Para quem coloca essas produções em cartaz, o modelo adotado no Brasil para a troca de equipamentos, negociado nos últimos anos entre distribuidoras e exibidores com o apoio da Ancine (Agência Nacional do Cinema), prejudica pequenas salas e o circuito “de arte”.

O motivo, segundo exibidores, é que o novo modelo segue uma lógica própria de multiplexes e blockbusters, que não se aplica a filmes independentes.

Hoje, um distribuidor gasta, em média, R$ 3.500 com a cópia de um filme. No modelo proposto, parte desse valor gasto com a película (cerca de R$ 1.500) será pago aos donos de cinemas que estão fazendo a transição.

O repasse dos distribuidores aos donos de cinema, adotado também em outros países para ajudar a bancar os custos da digitalização, é chamado de VPF (“virtual print fee“, taxa de cópia virtual).

Enquanto para exibir a cópia física o distribuidor paga os R$ 3.500 num primeiro momento e depois transfere o filme para outras salas com custos bem mais baixos, a digital custa R$ 1.500 para cada cinema que a exibe.

Para Bruno Sá, supervisor de projeção da EBCine, que administra o circuito Estação, no Rio, salas que dão pouco retorno financeiro aos distribuidores serão prejudicadas.

Eles podem optar por levar seus filmes a salas com pouca rentabilidade apenas semanas após lançá-los em salas mais rentáveis. A manobra aproveitaria a redução do VPF — a taxa cai gradativamente nas semanas que se seguem à estreia.

Assim, essas salas receberiam menos dinheiro do VPF, minguado à custa das semanas de atraso, e o valor dificilmente cobriria os custos da mudança de equipamentos.

Distribuidores menores também reclamam. “Pagar semanalmente um VPF durante meses fica muito mais caro do que quando uma cópia de 35 mm era levada de cidade a cidade”, diz Silvia Cruz, da distribuidora Vitrine Filmes (“Frances Ha” e “O Som ao Redor”). E completa: “Salas que exibem só esse tipo de filme [independentes e de autor] podem não resistir às mudanças, pois a distribuidora terá de pensar duas vezes antes de programar. Se são salas com menos potencial de público, a conta não vai fechar”.

André Sturm, diretor do Museu da Imagem e do Som de São Paulo e da distribuidora Pandora Filmes, voltada para o cinema de autor e independente, afirma que esse cenário levará ao fechamento de salas, em especial as de pequenas cidades.

Em 1975, 80% das quase 3.300 salas estavam no interior do país. Hoje, metade das 2.500 salas se encontram fora das capitais. Também há concentração de público. Segundo o FilmeB, portal que analisa o mercado de cinema do país, hoje 80% da bilheteria vêm de apenas 33% das salas de cinema do país.

Mas há quem discorde das previsões negativas. Luiz Gonzaga de Luca, especialista em mercado cinematográfico, e Jorge Peregrino, presidente do sindicato de exibidores do Rio, dizem que o fechamento de salas de rua e sua substituição por salas de shoppings é natural e anterior à digitalização.

Nos EUA e no Canadá, com a digitalização em estágio mais avançado que no Brasil, estima-se que o processo vá provocar o fechamento de ao menos 10% das 43 mil salas. Algumas recorrem ao crowdfunding (vaquinha on-line) para pagar o projetor digital.

Para De Luca, o circuito independente, tanto salas quanto distribuidores, terá de buscar um modelo alternativo ao atual para garantir a diminuição de custos da digitalização.

Luiz Fernando Morau, diretor comercial da Quanta DGT, empresa que intermedeia o repasse do VPF, afirma que uma linha de financiamento da Ancine, a juro zero, protegerá pequenos exibidores “mesmo que a arrecadação de VPF seja pequena ou quase inexistente”.

Já Peregrino diz que o público só tem a ganhar com a digitalização. Para ele, a qualidade da projeção tende a melhorar e os distribuidores não poderão usar mais “cópias em mau estado, ferradas” para tentar extrair o máximo de receita de uma mesma película.

7 thoughts on “Razão Econômica da Má Qualidade de Cópias de Filmes-de-Arte

  1. Prezado Fernando,
    a digitalização proporciona a universalização da cultura. Imagine quantas películas ficaram esquecidas em salas escuras e empoeiradas? O conteúdo digital acaba caindo na internet aí atinge o mundo todo e nunca mais será esquecido ou perdido. Veja este excelente filme o Piano: http://youtu.be/mKrDcUrSpF0
    Existem milhares de filmes completos disponibilizados no Youtube, neste final de ano terei mais tempo e irei resgatar preciosos links de conteúdo digital e reindexar em meu blog. Abs.

    • Prezado Reinaldo,
      de acordo, de acordo… Você postará um índice em seu blog? Favor me avisar, pois será extremamente útil!
      O curso que dei baseado em documentários brasileiros foram todos vistos no YouTube.
      Tenho mais de 500 GB de filmes baixados. Hoje, é difícil encontrar algum filme-de-autor que eu aprecio e não tenho, seja digitalizado, seja em DVD/Blu-ray.
      Melhor é usá-los como fontes de informações (zeitgheist) de uma época para a formação de cidadãos completos.
      abs

  2. Prezado Fernando,
    quero fazer uma faxina geral no meu blog neste final de ano. Até descobri algumas coisas interessantes escondidas dentro do sistema, como o recurso simplificador de formatações repetitivas “Markdown” – vide aqui: http://en.support.wordpress.com/markdown-quick-reference/

    Você encontra essa opção no WordPress em Painel-Configurações-Escrita. Ative: Use Markdown for posts and pages. Isso facilita bastante as publicações.

    Você também pode submeter todo o acerto de filmes ao Youtube. Se bem que de vez em quando alguns filmes acabam sendo eliminados, como aconteceu com vários filmes que postei de lá. Acontece também com os conteúdos de filmes que posto no meu Blog. O link morre quando alguém pede ao Google para retirar o conteúdo do servidor. Como consequência, aparece uma mensagem de advertência dizendo que está protegido por direitos autorais.

    Uma forma de garantir isso é replicar o conteúdo em múltiplas contas do Youtube (com múltiplos emails), mas com nomes codificados, aí você recodifica (muda os nomes quando desejar lincar no Blog e mantém o restante codificado). Quando um link morrer pode-se lincar outro vivo (uma carta na manga). Essa briga de gato e rato já está perdida para essas empresas, pois a cada 1000 links que são bloqueados, surgem outros milhões, então é algo descontrolado e sem a menor possibilidade de bloqueio.

    Outra dica, não armazene conteúdo externo dentro do seu Blog, para que o seu domínio não seja bloqueado ou banido – banimento é a pior coisa que pode acontecer. No meu Blog, não armazeno nenhum conteúdo, somente links.

    No Youtube, são postados centenas de filmes completos todos os dias entre clássicos e lançamentos, subdivididos nas contas de milhões de usuários. Na internet, são mais de 150.000.000 de livros em múltiplos domínios, cujo conteúdo está em sua maioria cifrado por segurança, mas as chaves são compartilhadas em milhares de sites que disponibilizam links.

    Uma forma de organizar os posts (publicações), é subdividi-los em um post por categorias e subcategorias, podendo aplicar a categoria escolhida no momento de publicar, é simples. Estava postando muitos filmes e livros em um único post, aí fica sem condições de indexação e gera um BigData, mas vou tirar um tempo para organizar tudo isso.
    Abs.

    • Prezado Reinaldo,
      grato pelas informações. De fato, o fim-de-ano é ocasião boa para verificar “o que estou fazendo da minha vida”, no caso, do meu blog.

      Como já disse, sou neófito em TI. Então, uso pouco – e pouco-a-pouco – as potencialidades tecnológicas. Custo a sair do “default” porque pouco pesquiso na área. Questão de prioridades…

      Portanto, suas dicas são muito bem vindas!
      abs

  3. Prezados,
    Só para compartilhar minhas angústias: na cidade onde moro só há duas salas de cinema, a qualidade do som e imagem é desanimadora e para conseguir uma sessão um pouco melhor, preciso percorrer 60km para ir à São Paulo ou 40km para ir à Sorocaba. Desta forma, enfrento pedágios, sem contar o custo da gasolina.

    Por fim, a “brincadeira” de ir ao cinema curtir um filme que agregue algo em minha vida não sai por menos de 100 reais! 😦

    • Prezado Ranielli,
      pois é, a solução está em DVD/Blu-Ray, The Pirate Bay + Legendas do Brasil, Netflix e/ou Now. Investir em Banda Larga de 30 MB, TV Ultra-HD imensa, quando ela baratear, som de 5 canais, mais pesquisa sobre Cinema, para escolher bons títulos, toda essa “brincadeira” agregará mais “capital-humano” — e custará menos do que 50 viagens a SP, ou seja, uma viagem por semana durante um ano! 🙂
      abs

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