Guerra Ideológica

Choque de IdeologiasAberta a temporada de caça eleitoral, somos alvejados na “grande” imprensa brasileira por diversas escaramuças sem direito de defesa igual e contrária, isto é, se um scholar neoliberal é entrevistado, atacando o “velho desenvolvimentismo”, não se encontra a correspondente entrevista de um scholar social-desenvolvimentista retrucando suas ideias. No máximo, entrevistam porta-vozes oficiais sem a mesma liberdade político-ideológica para oferecer a oposição às ideias neoliberais.

As últimas diatribes foram desferidas pelo ex-professor da FGV-RJ, ex-diretor do Unibanco-Itaú, vice-presidente do Insper e… ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Marcos Lisboa (Desenvolvimentismo condena país a um PIB medíocre, diz Lisboa, Valor, 08/01/13). Sim, o infeliz esteve no primeiro mandato do Governo do Partido dos Trabalhadores como secretário do ministro Antônio Palocci. Na transição entre a era neoliberal e a era social-desenvolvimentista, também Alexandre Schwartsman e outros economistas neoliberais fizeram parte da Diretoria do Banco Central do Brasil. Schwartsman é conhecido por seus panfletos publicados em vários órgãos da imprensa contra a condução da política econômica do governo brasileiro. Sua demissão do banco Santander, em 2011, foi atribuída justamente ao seu estilo pessoal, que alguns na instituição financeira consideravam como sendo “agressivo” e “arrogante”. Na sabedoria popular, classificam-se esses tipos como “aqueles que cospem no prato que comeram…”

Cada um tem o direito de falar o que quiser, porém o que não se encontra é o direito de resposta para o (e)leitor conferir a veracidade do que se diz ou comparar os contra-argumentos. No caso da entrevista de Lisboa, seus argumentos vão contra a lógica e as evidências empíricas. Senão, vejamos.

Desde logo, a manchete é escandalosa – e falsa. “Repaginado, o velho desenvolvimentismo”, segundo ele, “não oferece muito mais do que uma economia medíocre, que cresce 2%, 2,5% e que em um ano bom pode chegar no máximo a 3%”.

Ele teria de, primeiro, comparar essas taxas no tempo. Na era neoliberal (1980-2002), quando se fez o desmanche do Estado desenvolvimentista brasileiro, qual foi a taxa média de crescimento anual do PIB brasileiro nas “duas décadas perdidas”? Então, se é a ideologia predominante que determina o PIB, para que o dito cujo estudou Economia?

Segundo, ele teria de comparar no espaço. As grandes economias do mundo Ocidental, participantes no Ranking dos 10 Maiores PIBs, crescem em que faixa? Estão submetidas aos mesmos “limites” [2%-3%]? Sim, devido à prioridade concedida à estabilidade do Capitalismo de Mercado. Por que não crescem de maneira semelhante às grandes economias asiáticas? Em uma lista de 220 países, apenas 106 pequenos países cresceram acima dessa faixa em 2012. Entre os 10 maiores, houve a exceção da China (23a. taxa de crescimento com 7,7%). Rússia cresceu 3,4% (100a.) e Índia (104o.), 3,2%. Curiosamente, essas economias são Capitalismos de Estado

Terceiro, ele teria de contextualizar. Quando o entrevistador do Valor lhe perguntou – “E o cenário externo não tem nada a ver com nada disso?” – a leviandade de sua resposta é espantosa! Disse que “cenário externo é o vento frio. Pode-se estar mais ou menos protegido.” Então, ele teria de demonstrar a razão pela qual as grandes economias do Capitalismo Liberal Ocidental crescem menos do que as grandes economias do Capitalismo de Estado Oriental, com a exceção da economia japonesa, inserida no modelo liberal norte-americano deflacionista há tempos — e tão rastejante como as economias europeias…

Finalmente, se em vez de chutar fantasma como “o velho-desenvolvimentismo”, ele deveria sim resgatar a velha (e boa) abordagem estruturalista. Então perceberia que, se há um grupo de países que sofreu menos, como Chile, Peru, Colômbia, Nova Zelândia e Austrália, e alguns países que sofrem mais, entre os quais Brasil, Rússia, Índia, Turquia, África do Sul, algumas divergências entre estruturas produtivas-exportadoras e portes deveriam ser analisadas, não?

Com essa abordagem estruturalista deixaria de falar bobagem, por exemplo, a respeito de regulação e incentivos à indústria automobilística, ironizando o novo regime automotivo concedido “à única indústria infante do mundo com direito de se aposentar”. Com ele, a ligeira queda nas vendas em 2013 não tirou do Brasil o posto de quarto maior mercado automotivo do mundo, conquistado em 2010. Isso porque a Alemanha, que disputou essa posição com o mercado brasileiro nos últimos quatro anos, registrou baixa ainda mais expressiva nos emplacamentos. Enquanto no Brasil a demanda por carros caiu 1,5%, na Alemanha a retração no consumo chegou a 4% no ano passado. Os dois outros países que poderiam ameaçar a quarta colocação ocupada pelo mercado brasileiro – Índia e Rússia – também registraram queda nas vendas de veículos, respectivamente, -6% e -6,2% .

Com os 3,58 milhões de carros de passeio e utilitários leves emplacados em 2013, a vantagem brasileira em relação aos alemães subiu para pouco mais de 627 mil unidades, o equivalente a dois meses de venda. Os maiores mercados de veículos do mundo continuam sendo, nesta ordem, China, Estados Unidos, Japão e Brasil. Será que os neoliberais não conseguem entender que política industrial elevou o porte e levou à diversidade estrutural da economia brasileira?! Só focam na defesa da liberdade do mercado!

Por exemplo, falam apenas da taxa de câmbio, quando deveriam considerar a demanda externa e a capacidade de exportação brasileira. Mesmo com a moeda nacional se depreciando cerca de 15% ao longo do ano, as exportações diminuíram 1% para US$ 242,2 bilhões, e as importações subiram 6,5%, para US$ 239,6 bilhões, produzindo a queda de 86,7% do superávit: US$ 2,6 bilhões de 2013 , em comparação com os US$ 19,4 bilhões de 2012.

O balanço comercial teve forte influência da conta de petróleo. Do lado das importações, as compras de combustíveis e lubrificantes cresceram 15%, para US$ 40,5 bilhões. Houve o registro atrasado de importações feitas em 2012 de US$ 4,6 bilhões, só contabilizadas no primeiro semestre do ano passado. Do lado das exportações, a queda na produção doméstica de combustíveis ocasionada pela parada para manutenção de algumas plantas diminuiu as exportações do segmento em 31%, para US$ 12,9 bilhões. Foram as exportações contábeis de plataformas de petróleo que garantiram o saldo positivo de 2013, somando US$ 7,7 bilhões no ano, acima do US$ 1,5 bilhão de 2012.

Isso só foi uma amostra (negativa) da importância (positiva) que terá a Economia do Petróleo na próxima década para a economia brasileira.  Ao contrário do que percebe a visão ideológica neoliberal, o novo governo social-desenvolvimentista, diferentemente do “velho desenvolvimentismo”, promoveu a inclusão ao mercado interno milhares de consumidores via mobilidade social propiciada por políticas públicas e, agora, está promovendo os investimentos em infraestrutura energética e logística com longo prazo de maturação, mas que levarão o PIB brasileiro se tornar o quinto maior do mundo.

PS:

Vejam a que ponto chegamos: dado o exagero da direita nas páginas da Folha de S.Paulo, um membro de seu Conselho Editorial, Clóvis Rossi, se vê obrigado a moderar as críticas: “Não exageremos tanto…”

Com o título “Caracas passa longe daqui“, publicou o seguinte artigo (FSP, 09/01/14):

“Foi só tocar no surto de pessimismo exagerado que assola boa parte do empresariado tapuia (http://folha.com/no1394121) para que caísse uma catarata de e-mails com cenas explícitas de alarmismo ainda mais exagerado.

O que mais me surpreendeu foram reiteradas menções à possibilidade de que o Brasil se tornasse uma gigantesca Argentina ou, pior ainda, uma Venezuela.

Nada contra críticas à política econômica (ou a qualquer outra política). São muitas vezes justas e sempre necessárias. Mas crítica tem que ter algum parentesco com a razão, como o faz, por exemplo, Vinicius Torres Freire. Não pode ser feita com o fígado — e a comparação com Venezuela/Argentina é pura bílis ou, pior, terrorismo.

Como monitoro diariamente a conjuntura venezuelana e a argentina, achei, a princípio, que não seria necessário contestar a comparação. Depois, no entanto, veio a desagradável sensação de que terrorismo pode pegar entre os que não têm a obrigação de acompanhar os vizinhos.

Vamos, então, a uns poucos dados que desmontam a comparação.

1 – Inflação. Tanto a Venezuela (56%) como a Argentina (20 e poucos por cento) perderam o controle sobre ela. O Brasil perdeu só o centro da meta. Não é para festejar, mas tampouco é para entrar em pânico.

Pior, no caso argentino: as estatísticas foram desmoralizadas por instituições internacionais, a ponto de o FMI ter adotado o passo inédito de cobrar que elas fossem, digamos, normalizadas. No Brasil, até a revista “The Economist”, que acha que a economia está moribunda, acredita nos dados oficiais.

No caso da Venezuela, exatamente pelo descontrole inflacionário (e pelo desabastecimento), o governo decidiu tabelar o lucro, delírio que não cabe no capitalismo. Isso sim é intervencionismo, não as medidas que o governo Dilma tem tomado.

2 – Câmbio – Nos dois países, vigoram um câmbio oficial e um paralelo, que é, na Argentina, quase o dobro do oficial, e, na Venezuela, umas dez vezes maior.

O Brasil já teve um duplo câmbio, mas faz tanto tempo que pouca gente ainda lembra. Não está no horizonte no Brasil uma distorção como essa, que sempre acaba mal, como aprendemos até que o Plano Real estabilizasse a economia.

Não vale nem a pena entrar a falar dos aspectos políticos e institucionais, tão diferentes são o chavismo, o kirchnerismo e o lulismo/dilmismo. Basta lembrar que os dois primeiros buscam permanentemente o confronto, como forma de afirmação, ao passo que o lulismo e o dilmismo buscam a acomodação (para o meu gosto, até excessiva).

A economia brasileira pode ou até tende, segundo os críticos razoáveis, à mediocridade, mas não ao dramatismo que acompanha a Venezuela, principalmente, e a Argentina.

Logo, quem espera que o pessimismo derrube a candidatura Dilma fique sabendo que, enquanto houver pleno emprego e aumento da renda, é uma esperança vã.

A menos que algum candidato descubra um sonho a oferecer às ruas que cobram mudanças, mas não se comoveram com as críticas dos oposicionistas.”

16 thoughts on “Guerra Ideológica

  1. “Na era neoliberal (1980-2002), quando se fez o desmanche do Estado desenvolvimentista brasileiro”

    Os anos 80 foram neoliberais no Brasil? Um tanto incomum essa interpretação.

    1. Prezado Adalberto,
      em janeiro de 1980, quando assumiu o Ministério da Fazenda Ernane Galveas (ex-presi do BCB em 1967-1974) e o Banco Central, Affonso Celso Pastore, notório professor monetarista, iniciaram-se os cortes de “subsídios fiscais e creditícios”. Junto com Delfim Netto, o arrocho das políticas monetarista e fiscalista levaram à depressão e a dobrar a taxa de inflação com as maxidesvalorizações cambiais.

      A partir de então, mesmo no interregno supostamente “heterodoxo” de 2,5 anos do Funaro (ago/1985-abr/1987) e do Bresser (abr-dez/1987), as políticas econômicas de curto prazo visaram apenas a combater o regime de alta inflação, gerar megas superavits comerciais para pagar os serviços da dívida externa, e combater a crise fiscal, cortando gastos públicos e/ou “reordenando as finanças públicas”. Maílson da Nóbrega (1988-89), com as desregulamentações, e sucessores completaram o desmanche do Estado desenvolvimentista.

      O neoliberalismo não se restringiu às privatizações das empresas estatais. O fim do planejamento indicativo, o foco apenas em política de estabilização em curto prazo, a desregulação, a reengenharia, o downsizing, as aberturas comerciais e financeiras, inclusive com a liberalização do mercado bancário, tudo isso foi um processo ao longo de duas décadas.
      att.

  2. Prof. Fernando Nogueira da Costa, gostaria de parabeniza-lo pelo excelente trabalho que faz em seu blog.
    Fico agradecido por ler mais este texto, o qual vai direto ao ponto em que estamos vivendo uma verdeira guerra ideológica não apenas dirigidas ao Governo Federal, mas também contra todos as políticas de esquerda efetuadas por diferentes prefeitos e gestores públicos no Brasil afora.

    1. Grato, Gustavo.
      Este vai ser um ano que exigirá ser combativo contra a direita que está extremamente ativa e agressiva.
      A direita está criticando até resultados que demonstram a estabilidade da economia brasileira: baixas taxas de desemprego e inflação, e superávit comercial em situação de crise mundial!
      att.

  3. Gostaaria de ouvir a opinião do professor a respeito dessa notícia:

    “… No ano passado, o total de beneficiários e o valor gasto com o programa atingiram novos recordes. Foram 20,6 bilhões de reais, pagos a 14,1 milhões de famílias. O próprio Ministério do Desenvolvimento Social aponta que mais de 50 milhões de pessoas, ou seja, mais de 25% da população brasileira, são atendidas pelo Bolsa Família. É o equivalente à população da África do Sul.

    Em 2004, as dimensões eram bem menores: o total pago foi de 5,5 bilhões de reais, divididos por 6,6 milhões de famílias. Para 2014, os números indicam que deve surgir um novo recorde: o Orçamento previsto para o programa é de 25,2 bilhões de reais. Uma elevação tão acelerado no número de dependentes de auxílio governamental não aconteceu nem na parte da Europa que mergulhou em uma grave crise econômica nos últimos anos. Comparado com o total do orçamento, o valor significa pouco mais de 1% dos gastos do governo. O problema é a ampliação indefinida no programa. Não é exagero afirmar que, se fosse mantida a curva de crescimento, metade dos brasileiros poderia ser beneficiada com o dinheiro do Bolsa Família daqui a dez anos… ” , por Gabriel Castro na Veja.com

    1. Prezado Renato,
      política social ativa será necessária enquanto houver a desigualdade social em um país que tem 126 anos de extinção de escravidão e cujos descendentes não tiveram igualdade de oportunidades para a mobilidade social.

      Quanto aos gastos social, é uma quantia ínfima comparada, p.ex., com os encargos financeiros que se gasta com a remuneração dos rentistas. Quanto a este valor, os redatores e leitores de Veja não se pronunciam contra…
      att.

  4. “não tiveram igualdade de oportunidades para a mobilidade social.”

    Mas essa é exatamente a justificativa liberal para programas de transferência de renda. E só lembrando que talvez o mais importante defensor desse programa foi Milton Friedman, como o próprio Suplicy reconhece:

    http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-neoliberal-bolsa-familia-,1092644,0.htm.

    E como você mesmo disse parte importante dos rentistas atuais são os trabalhadores, fundos de pensão, etc.

    1. Prezado Fábio,
      quanto à sua primeira afirmativa, estou de acordo com ela. Eu não demonizo os autênticos liberais como Friedman, fazendo análise maniqueísta, afirmando que tudo que é defendido por esses liberais mais lúcidos é equivocado. A partir da data de aniversário deste modesto blog (22 de janeiro), programei uma série de posts sobre a História da Cidadania, onde resumo diversas conquistas de direitos civis (século XVIII), quando os liberais foram decisivos contra os absolutistas. Depois, no séculos XIX (conquista de direitos políticos), XX (direitos sociais) e XXI (direitos econômicos), os socialistas tiveram papel maior na liderança dos movimentos sociais. Em outras palavras, é possível (e necessária) a aliança com os liberais em certas lutas sociais.

      Quanto aos participantes de fundos de pensão (fechados), são apenas cerca de 2,5 milhões de participantes ativos e 3,6 milhões de dependentes. Nesse sentido, considerando também os participantes dos fundos de pensão abertos, a luta por Educação Financeira Popular e Previdência Complementar para todos os trabalhadores — a PEA ultrapassa 100 milhões — ainda está em seus primórdios.
      att.

  5. Caro Fernando,

    Boa parte dos seus argumentos são uma defesa legítima dos ideais desenvolvimentistas e estruturalistas. Mas penso que o senhor se equivoca com relação ao estado de nossas instituições. Como todo bom Keynesiano, sabemos que a confiança é fundamental para manter a economia ativa. Contudo, devido a pratica sistematica da contabilidade criativa, da intervenção duvidosa no setor eletrico, o subsidio de facto da gasolina, e relatorios do BC que afirmam que a politica fiscal se caminha para a “neutralidade”… fica notorio que houve alguma deterioração em nossas instituições econômicas.

    Não é a toa que os empresarios estão ceticos em investir nesse momento..

    1. Prezado Beowulf,
      não sou “bom keynesiano”. Aliás, não sou “bom” em nenhuma corrente de pensamento. Certa vez, meu amigo, “bom keynesiano”, Fernando Cardim, classificou-me como “iconoclasta”; conferi no Dicionário e achei que talvez ele tivesse razão: iconoclasta é aquele que destrói imagens religiosas / imagens em geral ou se opõe à sua veneração, ou seja, aquele que ataca crenças estabelecidas ou instituições veneradas ou que é contra qualquer tradição. Sendo assim, questiono também esse conceito keynesiano de “Estado de Confiança”.

      “Estado de espírito” de empresários diversos, heterogêneos e concorrentes entre si?! “Espírito animal” de vários instintos distintos?! Credo, esses conceitos comportamentais de Keynes não tem muita base em Psicologia de Massa ou Multidões, não?

      Acabou sendo apropriado pelos neoliberais com o significado que Estado de Confiança é aquele governo que atua apenas de acordo com as diretrizes de O Mercado, preferencialmente sem impor nenhuma regulação, deixando-o livre como os “espíritos animais”… 🙂

      A tradição de pragmatismo da Administração Pública brasileira é tão antiga quanto o das Administrações de Empresas. Estas não se resumem a um banco de “estudos de casos”? Sem fundamento teórico geral, os problemas vão sendo resolvidos da maneira que se apresentam as soluções, geralmente, pelas linhas de menor resistência. Nossas instituições nunca foram pautadas por um moralismo impar! “Jeitinhos”, orçamentos paralelos, triangulações, subsídios sociais, incentivos fiscais e creditícios, etc., são componentes antigos do nosso “planejamento indicativo”.

      Só o apelido é novo: “contabilidade criativa”. Delfim, nos anos 70, falava em “imaginação criadora dos economistas”. Agora, perderam status para os contabilistas.

      Acho risível o argumento de que “os empresarios estão céticos em investir nesse momento”. Quem?! Os da infraestrutura e logística, os da automobilística, os de ensino massificado, os que produzem bens de consumo massivo?! Todos esses e muitos outros descortinam um horizonte promissor pela frente – e estão investindo! Senão perderão participação no quinto maior mercado interno do mundo! Só que decisões de investimento levam longo prazo para serem implementadas e maturadas.

      Enquanto isso, esses “leros” de economistas ideólogos cumprem o papel de pressionar por novas concessões governamentais com taxas de retornos maiores…

      Minha experiência de convivência quinzenal, durante 4,5 anos, com banqueiros ensinou-me isto: eles são pragmáticos, enquanto os economistas-chefes (“mais realistas do que o rei”) são meros ideólogos contratados para assinar coluna ou dar entrevista em jornal, solicitando maiores favores ou liberdades ao Estado. Cumprem funções análogas às dos antigos bobos-da-corte: fazem os reis darem risadas…
      att.

      1. Prezado Fernando,

        Excelentes observações. O momento atual está assim mesmo. Assino, para acompanhar mais ou menos o “mundo dos negócios”, o jornal Valor Econômico. Como sabemos, um veículo para expressão de conteúdos “supostamente” mais elaborados que os dos jornalões. Supostamente, assim mesmo, com aspas. Volta e meia nos deparamos com manchetes pirotécnicas e entrevistas de “sumidades”, como esse sr. Marcos Lisboa, que nos remetem à invenção da roda ou à conquista do fogo. Digo, roda e fogo neoliberais, por certo. Bobos da corte, mas bem remunerados…
        Difícil não concordar com suas observações de como falta, nestes espaços, o direito ao contraditório para os economistas que não os do mercado (Outro dia li uma entrevista com o Belluzzo na Folha e fiquei tão intrigado com a agressividade das perguntas do jornalista, que não resiste e procurei ler uma entrevista semelhante feita pela Folha com o Serra, para ver se teriam o mesmo tom… ora, ora, que ingenuidade da minha parte, não é mesmo?).
        Além disso, temos excelentes “debates” entre os leitores do Valor. Penso que os futuros sociólogos, historiadores e antropólogos quando quiserem entender a mentalidade da classe média tupiniquim, em especial no segmento “supostamente” esclarecido, nesta nossa pobre época, carente de ideias, e em particular verificar quão longe foram os preconceitos e vícios mentais das Casas Grandes e Senzalas (privilegiados e aspirantes, como diz o Mino), vão ter ampla fonte de pesquisa nesse comentários.
        A ideologia dominante é a da eficiência sacrossanta do mercado! E realmente, o sr. tem razão, esse conceito de “animal spirit”, ou estado de confiança, foi apropriado pelos liberais, e de forma muito perversa. Parece que tudo se deve levar ao altar dos “decisores privados” que então, eivados de sabedoria e racionalidade, farão o resto! As críticas são tão superficiais quanto tolas e, mesmo, contraditórias! Em um lugar se fala de impostos altíssimos, em outro de péssimos serviços públicos, em um terceiro lugar que o nível de emprego é alto por ilusão estatística ou geração de empregos ruins, para por fim dizer que se cresce muito menos que, sei lá, a Guiné Bissau após sua adoção do livre mercado… Que salada! Não admira! Com uma ideologia dessas, pra quê lógica, não é mesmo?
        E 2014 só está começando… Será um ano que exigirá estômago forte, não tenho dúvidas…
        Um abraço, meus parabéns, e prossiga com seu trabalho de disponibilizar, a quem ainda se dispõe a pensar, material relevante e “contrário à corrente”!

      2. Prezado João Luiz,
        grato pelos comentários.
        Atualmente, como estou focado na minha Tese para Titular, não estou conseguindo nem passar os olhos pelas colunas, inclusive as do Valor.
        Praticamente, leio as manchetes e deduzo a mesma ladainha de sempre… Aliás, acho se compararmos com o que os renomados economistas diziam há 10, 20 ou 30 anos atrás, é o mesmo…
        O mundo gira, a Lusitana roda… e os lugares-comuns seguem incólumes.
        att.

  6. Olá professor, boa noite.

    Gostaria de entender, após o tempo ter passado e virmos que que a evolução do PIB está sendo pífia, inflação na casa dos 10%, o câmbio com uma desvalorização relevante e a queda de cerca de 20% nas vendas dos automóveis no primeiro semestre de 2015, o motivo pelo qual a robustez da nova matriz econômica está nos propiciando um ambiente de competitividade tão ruim.

    Obrigado.

    1. Prezado Pedro,
      a chamada, ironicamente, “Nova Matriz Macroeconômica”, apelido adotado pelo próprio ex-Ministro Guido Mantega (ex-professor da FGV-SP) em um momento de declaração infeliz, refere-se à atuação anticíclica do Estado brasileiro em uma conjuntura de crise mundial.

      Ela foi exitosa quanto à meta de queda da taxa de desemprego para o menor patamar histórico em 2014. Isso e o controle da taxa de inflação abaixo de 6,5%, durante 10 anos (2005-2014), foi positivo para elevar o poder aquisitivo dos salários reais.

      Tudo que ganhou a classe trabalhadora é criticado, furiosamente, pelos acólitos da classe capitalista. Eles criticam que:
      1. o Custo Unitário do Trabalho (CUT} superou a produtividade, pois os capitalistas não desempregaram (e nem investiram) em situação de quase-pleno;
      2. os produtores nacionais perderam competitividade face a produtos importados, devido à apreciação da moeda nacional, que justamente facilitou o controle inflacionário;
      3. o custo financeiro se manteve no mesmo patamar, pois a queda da Selic não foi repassada para os spreads, mas a rentabilidade patrimonial (capital próprio e de terceiros) em queda ficou abaixo dele;
      4. a rentabilidade não-operacional das empresas não-financeiras caiu, entre agosto de 2011 e abril de 2013, pela queda dos juros, e agora apenas 33% delas tem rentabilidade superior ao CDI;
      5. a reversão da taxa de juros, em abril de 2013, levou à marcação-a-mercado de títulos prefixados, levando à perda de riqueza financeira dos investidores;
      6. a fuga para operações compromissadas, cujo saldo médio diário das operações de financiamento e de go around, realizadas pelo Banco Central, totalizou R$ 889,6 bilhões em julho de 2015, elevou a dívida bruta, assim como os empréstimos perpétuos e as capitalizações dos bancos federais para eles fazerem uma atuação anticíclica.

      Enfim, a condenação midiática da “Nova Matriz Macroeconômica” é ideológica, interesseira e golpista, pois desinforma a opinião pública, para esta dar apoio ao Golpe Parlamentar que está se armando para derrubar a Presidenta eleita.

      Na verdade, os péssimos resultados macroeconômicos recentes são resultados da “Novíssima (sic) Matriz Neoliberal”…
      att.

      1. Professor, boa tarde

        Gostaria de saber melhor sua opinião sobre os efeitos da “Novíssima Matriz Neoliberal” que o sr citou.

        Ao meu saber, as mudanças nas políticas econômicas (ex: o ajuste fiscal proposto por Levy) são muito atuais. Acredita que elas são a causa principal (e unica) dos péssimos resultados macroeconômicos recentes?

        Como por exemplo:

        1. Queda do PIB
        2. Aumento da inflação
        3. Câmbio atingindo valores históricos (menor valor nominal)
        4. Dívida Pública em aprox. 65% do PIB (sendo que os juros de amortização contabilizam com quase metade dos custos do orçamento)

        Em relação a isso, tenho 2 perguntas:

        1. Gostaria de entender, qual seria, na sua visão, as principais causas de tais resultados macroeconômicos.
        Acredita que as decisões tomadas na politica economia a partir do segundo mandato do presidente Lula até atualmente não influenciaram em tais resultados?

        2. Na sua visão, quais foram os principais motivos que fizeram com que o governo Dilma mudasse os rumos da política econômica do país?

        Grato pela atenção
        Grande abraço!

      2. Prezado Nassim,
        grato por suas oportunas perguntas. No entanto, peço a gentileza você aguardar respostas mais substantivas em dois posts que agendei para quarta e quinta-feira próximas. Neles, eu comparo esses resultados.

        Adianto que eu rebatizei a “Novíssima Matriz Macroeconômica” de maneira mais apropriada: “Velha Matriz Macroeconômica”. É a mesma que produziu maus resultados macroeconômicos antes de 2003: o velho tripé sem política de crédito e políticas sociais ativas.

        Mais uma breve observação: a elevação em 50% do patamar inflacionário médio — de 6,1% aa para 9,2% — foi resultado do choque em preços administrados no início do ano e/ou “realinhamento tarifário”.
        att.

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