Chico Lopes: Ideologia “Socialista” X Ideologia Neoliberal

Chico LopesNa entrevista de página inteira concedida pelo ex-presidente do Banco Central no Governo FHC e professor da PUC-RIO, Francisco Lopes, às jornalistas Denise Neumann e Flávia Lima (Valor, 16/01/14) o mais interessante é que, depois delas terem tentado pauta-lo para responder só de acordo com o discurso típico  pró O Mercado e ele se esquivar, denunciando a artificialidade deste “pessimismo”, elas não resistem e fazem a seguinte pergunta, cuja resposta explicita o debate ideológico colocado em seus termos. Vale conferir essa curiosa parte da entrevista de um neoliberal que reconhece alguns méritos do Governo de ideologia oposta, o que é incomum em Terrae Brasilis… Na verdade, a ideologia do Governo Dilma é social-desenvolvimentista, mas ele a classifica como socialista, demonstrando desconhecimento de causa, o que é comum entre economistas com formação ortodoxa.

Valor: O sr. disse que a política de juros foi correta, câmbio vem se ajustando, fiscal não é problema. O sr. está quase defendendo a política econômica do governo [Dilma], não?

Lopes: O governo FHC fez um trabalho fundamental, de construção institucional. Criamos um Banco Central de primeiro mundo, independente de fato. Essa questão da legalização da independência é de importância menor, pois é o Copom que torna o BC independente de fato. Criamos a Lei de Responsabilidade Fiscal, agências reguladoras. Por trás desse esforço está a concepção de política econômica que domina a maioria dos analistas de mercado: nela, o FHC montou a base e nós queremos que o governo tenha um mínimo de intervenção. Recentemente, em um debate com economistas lúcidos do PT, eles diziam que essa é uma posição financista da coisa. Eu diria que é mais correto chamá-la neoliberal, no extremo. O papel do governo é não intervir, é deixar o mercado fazer a sua mágica. A intervenção deve ser meramente regulatória. Nessa concepção, é irrelevante que distribuição de renda vai surgir, se 1% da população vai ter 50% da riqueza, já que o governo não tem o papel de ficar tentando mudar o resultado do jogo econômico. Por trás dessa concepção está o famoso Teorema da Mão Invisível e, no fim das contas, esse é o melhor dos mundos, mesmo para as classes de renda mais baixas. Vai permitir que o país cresça e, ao final, tudo bem que as classes mais altas vão ter um grande ganho porque, com o crescimento, todo mundo vai se beneficiar. Essa é a visão do mercado do que é política correta. E aí vem o governo do PT, com uma visão diferente que não é claramente articulada, gerando muitos dos problemas que eu vejo.

Valor: Quais?

Lopes: A crítica que o PT faz, e que chama de posição dos financistas, é dizer que essa história de que o mercado vai gerar o melhor dos mundos parece com aquela do Delfim [Netto] de crescer para redistribuir depois. O mercado diz, se o Brasil virar Chile, em vez de 3%, vai crescer 4%. Ele diz, eu não quero isso. Para o governo, para os 20% mais pobres é melhor fazer uma redistribuição de renda na marra usando o Estado. Aí, a renda dele vai crescer 6% ou 8%, e não 3%. E isso é inegável: o governo do PT está fazendo uma redistribuição muito intensa de renda. É só pegar o Bolsa Família, a política de reajuste de salário mínimo, que é uma política de indexação que aumenta a inflação. Essa intromissão do governo na atividade não é incólume. Eu chamaria essa concepção de política econômica do governo do PT de socialista, que é diferente da concepção liberal moderna.

Valor: Dá para combinar isso com o tripé macroeconômico?

Lopes: Algo que me deixa otimista em relação ao governo do PT é que apesar dessa concepção socialista ele não rompeu com a base institucional criada pelo governo FHC. No regime de metas de inflação, a ideia é focar os 4,5% para criar estabilidade de preços. Aí o governo do PT olha que 6,5% é o máximo e decide que vai trabalhar no máximo. E a mesma coisa na área fiscal. Vejo o governo do PT tentando levar ao máximo a condução da política econômica, claramente com o objetivo de redistribuir renda, de, como diz a Dilma, fazer um país de classe média. Ainda que o custo seja ter um período maior de inflação alta, ou uma posição de dívida pior. Em vez de reduzi-la para 20% do PIB fica em 35%. A questão que se coloca é se isso é sustentável. Em que medida posso fazer uma política de testar os limites sem que isso destrua a estrutura. O que vejo de ruim é que há um governo com uma concepção socialista e com uma falta de convicção de tornar isso claro. Falta explicitação.

Valor: E essa explicitação pode vir em 2014, durante as eleições?

Lopes: Não. E aí vamos ver o que vai acontecer. Se muda o governo ou não.

Valor: Mas se o PIB for mais para 3% não ajuda a reeleição?

Lopes Não sei. Se a inflação estiver em 6,5%, o governo consegue se reeleger?

Valor: Mas o sr. não parece apreensivo com a possibilidade de reeleição…

Lopes: Acho que se o governo se reeleger significa que a sociedade fez uma opção por uma política econômica socialista diante de uma alternativa liberal. E a política socialista tem riscos. Vivemos em um mundo em que a avaliação do exterior usa o mesmo parâmetro liberal moderno. Então, o Brasil pode perder rating, pode ser rebaixado. E isso pode ter consequências, pode haver um ataque especulativo contra o real. O Brasil não é China, não é Coreia do Norte. Então, se o país começa a desenvolver uma política muito diferente do normal, pode perder capacidade de atrair investimentos, certamente vai perder reputação na área financeira. Mas aí acho que se sobressai a importância da base institucional criada pelo governo FHC. O PT é um partido que tem um projeto socialista que não foi abandonado. Vamos parar com essa história de que o PT mudou e que é favor do Consenso do Washington. Nunca foi e nunca vai ser. Se isso termina em desastre? Acho que não. Na medida em que o governo fica tentando redistribuir renda, mas mantendo austeridade, operando no limite ao respeitar as regras do jogo.

Valor: O sr. vê o Aécio ou o Eduardo Campos sendo mais ortodoxos na condução da economia?

Lopes: Não sei. Acho que o Aécio tem dado sinais de voltar a uma política mais ortodoxa como proposta no governo de FHC. E acho que está correto. É bom para o país voltar a privilegiar o combate à inflação, a austeridade fiscal, privatização. [Credo!] Do mesmo jeito que acho que a oposição, ao fazer isso, está realçando qual o DNA do PT, que é redistribuir renda, mesmo que envolva mais inflação, mais intervenção de governo. Quanto ao Eduardo Campos e a Marina, não sei o que vão propor. Tem esse lado da economia verde. Mas seria útil se o debate sobre a concepção de política econômica fosse colocado. Mesmo que não tenha efeito em 2014, pode ter para 2018.

Valor: O sr. abandonou a ideia de escrever um livro sobre a passagem pelo BC?

Lopes: Estou escrevendo um livro sobre psicanálise. É meu hobby e já tenho dois terços dele. Só não sei como vou fazer quando for lançá-lo. Ele é divertido, não tem nada a ver com economia. A economia acadêmica ficou muito chata.

Valor: Ao mergulhar na psicanálise conseguiu ver algo diferente na economia?

Lopes: Boa pergunta. Na economia não sei, mas nos economistas certamente. Passei a entendê-los melhor.

1 thought on “Chico Lopes: Ideologia “Socialista” X Ideologia Neoliberal

  1. Ao menos ele deixa muito explícito o pensamento liberal. Não faz rodeios para dizer que é a favor da privatização, dos ricos e tudo mais da doutrina neoliberal. O governo atual tem muito a melhorar, pelo menos, na minha opinião, ainda tenta equilibrar minimamente a desigualdade social.

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