(Re)evolução de Investimentos na Produção Nacional de Veículos: Novo Regime Automotivo

Investimentos na Indústria Automobilística

Vendas de automóveis em 2013

Mercado automobilísticoEduardo Laguna (Valor, 27/12/13) informa que o ano de 2013 foi marcado pela profusão de novos projetos lançados por montadoras já instaladas ou que estão chegando ao Brasil. No total, os investimentos anunciados durante o ano somam R$ 5,2 bilhões, entre projetos de novas linhas de produção e a chegada – ou retorno – de marcas de automóveis hoje importadas, como as grifes do segmento premium Mercedes-Benz, Audi, BMW e Jaguar Land Rover.

A chegada dessas fábricas é uma vitória dos planos do governo Dilma de atrair investimentos e reduzir a defasagem tecnológica dos carros produzidos no país por meio de um regime automotivo que restringe a entrada de importados. Todavia, eleva o risco de excesso de capacidade da indústria, em momento em que a demanda por automóveis perde seu vigor.

[FNC: O repórter revela apenas a visão conjuntural em curto prazo e não destaca que haverá mudança estrutural da capacidade produtiva com resultados em médio e longo prazo.

O que sugere o modelo do multiplicador e acelerador? Já que a expansão da renda implica a necessidade de execução de investimentos, a economia encontra-se sujeita às forças contrapostas de demanda (renda) e de oferta (capacidade produtiva). Devido à rigidez da propensão ao consumo, é necessário investir sempre para manter a demanda efetiva em nível adequado para assegurar os gastos exigidos para atingir o pleno emprego. Cada investimento determina a expansão da capacidade produtiva, que tornará ainda mais necessário gastos futuros superiores aos gastos correntes, para alcançar o novo nível de pleno emprego de todos os recursos produtivos (capital e trabalho).]

Os projetos anunciados em 2013 adicionam uma capacidade de produção anual de 230 mil carros, além de outros 31 mil caminhões de duas fábricas que serão erguidas pelas montadoras chinesas Foton e Shacman em Guaíba (RS) e Tatuí (SP), respectivamente. Incluem ainda uma nova linha de motores, confirmada no mês passado pela também chinesa Chery, com investimentos adicionais de US$ 130 milhões em Jacareí (SP). Na cidade, a marca também constrói uma fábrica de compactos.

Poucas vezes, o país teve tantos investimentos confirmados em espaço tão curto de tempo no setor. Três desses projetos — da Audi, da Mercedes-Benz e da Volkswagen, na nacionalização da nova geração do Golf — foram anunciados em um intervalo de apenas 17 dias entre o fim de setembro e o início de outubro de 2013.

Outros ainda não chegaram ao governo federal, mas já tiveram protocolo de intenções firmado com os Estados, como o plano da pouco conhecida Amsia Motors, montadora de capital árabe que poderá investir até R$ 1 bilhão numa fábrica em Sergipe. O mesmo acontece com a Jaguar Land Rover, que fechou a rodada de novas fábricas deste ano, ao anunciar, no início deste mês, que vai construir a sua em Itatiaia, no sul do Rio de Janeiro. Os investimentos da marca britânica em sua primeira operação fabril nas Américas são estimados em R$ 750 milhões.

Antes disso, a Honda, em agosto de 2013, decidiu dobrar sua capacidade de produção de automóveis no Brasil com a construção de uma fábrica em Itirapina, no interior paulista. No fim do mês passado, o chefe global da montadora japonesa, Takanobu Ito, veio ao país para apresentar o projeto à presidente Dilma Rousseff e confirmou que a Honda vai montar a nova geração do compacto Fit no local.

Dois motivos atraem esses investimentos. Primeiro, o potencial de crescimento do consumo de veículos no país, sobretudo no segmento de luxo, que hoje representa uma fração insignificante do mercado, mas com tendência de dobrar de tamanho nos próximos cinco anos, conforme previsões das próprias montadoras.

Embora as vendas de veículos no Brasil caminhem para fechar 2013 com a primeira queda em dez anos, as perspectivas ainda são otimistas no longo prazo. O nível de motorização relativamente baixo da população brasileira – inferior, por exemplo, ao de países como Argentina e México – é o principal indicador de que ainda há espaço para novos avanços do consumo, principalmente pelo interior do país.

O segundo motivo se refere às crescentes restrições impostas pelo governo às importações de carros. Com a sobretaxa de 30 pontos percentuais do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) nas importações de veículos, as marcas são forçadas a produzir localmente para ter competitividade no quarto maior mercado automotivo do mundo. Para as montadoras sem fábrica ou projeto de investimento no país, as importações livres desse IPI extra são limitadas a, no máximo, 4,8 mil carros por ano.

Os investimentos confirmados em 2013 se somam a projetos que já vinham em curso desde o ano passado, como as fábricas da BMW em Araquari (SC), da Nissan em Resende (RJ) e da própria Chery em Jacareí – todas com inauguração prevista até o fim de 2014. Fora isso, outras montadoras elevaram a programação de investimentos no Brasil para fazer frente a novas demandas do novo regime automotivo – que cobra delas melhoras na tecnologia dos carros – e, também, levar adiante projetos que já tinham sido anunciados. A Fiat, por exemplo, anunciou em maio que vai investir R$ 15 bilhões no Brasil entre 2013 e 2016, o que inclui a construção de sua fábrica em Pernambuco, cujo início das operações deve acontecer em 2015.

No total, os investimentos da indústria automobilística previstos até 2017 superam R$ 75 bilhões, de acordo com levantamento da Anfavea, a entidade que representa as montadoras instaladas no Brasil.

Esses números mostram que o país está, claramente, no centro das estratégias de expansão dos grandes grupos automobilísticos do mundo, mas também trazem receio quanto ao potencial de o mercado absorver toda essa capacidade que entrará em operação nos próximos anos. [O repórter não destaca o crescimento do mercado interno brasileiro, tornando-se o quinto maior do mundo com as políticas de mobilidade social permitindo a inclusão de milhares de consumidores de uma população que ultrapassa 201 milhões de pessoas, sendo a quinta maior do mundo.]

Nos cálculos da Anfavea, a capacidade de produção da indústria automobilística subirá, após esses investimentos, de 4,5 milhões para 5,8 milhões de veículos até 2017, cerca de 1 milhão de unidades a mais do que o consumo projetado. Preencher essa capacidade exigirá que as montadoras dobrem as exportações, o que muitos, contudo, acreditam ser pouco provável. Nas contas da Ford, a indústria terá um excesso de capacidade próximo a 40% no prazo de quatro anos.

Histórico da indústria de veículos

Balanço dos resultados de 2013, divulgado no dia 07/01/14 pela Anfavea, a entidade que abriga as montadoras instaladas no país, confirmou a primeira queda nas vendas de veículos em dez anos, mas, por outro lado, a melhor produção da história (veja gráfico acima). As exportações, em valores, também foram recorde, somando US$ 16,57 bilhões, em números que ainda incluem o setor de máquinas agrícolas.

O descompasso entre o desempenho positivo da produção e o negativo do mercado se deve à substituição de carros importados por nacionais – dadas as restrições a importações da nova política automotiva -, junto com a retomada nas exportações para a Argentina, destino de oito em cada dez carros embarcados no Brasil.

Em 2014, a expectativa é que os dois movimentos não se repitam com a mesma intensidade, um dos motivos pelos quais a Anfavea foi, desta vez, mais cautelosa ao traçar as projeções para o ano. As estimativas, contudo, ainda indicam novo recorde não só para a produção, mas também para as vendas, que cederam quase 1% em 2013.

Os números da entidade projetam para 2014 crescimento de 1,1% nas vendas e de 0,7% na produção. Se confirmados, o setor chegará em dezembro de 2014 com 3,81 milhões de veículos licenciados e 3,77 milhões produzidos. Já nas exportações, a Anfavea prevê um avanço de 2,1% em 2014, para 575 mil unidades embarcadas.

Essas metas indicam uma recuperação no consumo doméstico, mas também uma evolução mais moderada nos volumes de produção e exportação, que subiram 9,9% e 26,5%, respectivamente, no ano passado.

No cálculo das estimativas, foram ponderados aspectos positivos, como um crescimento da economia da ordem de 2,5%, e negativos, tais como a retirada de parte dos descontos no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI).

De um lado, a Anfavea levou em conta um aguardado avanço de 5% nas concessões de crédito, assim como a continuidade na expansão das vendas de caminhões, também estimada em 5%. De outro, considerou a possibilidade de restrições nas importações argentinas, a pressão sobre os preços provocada pela obrigatoriedade de airbags e freios ABS em todos os carros, mais a maior competição dos importados, favorecidos pelas cotas de importação mais fartas obtidas por marcas que decidiram investir em fábricas no Brasil.

Ao comentar as projeções, Luiz Moan, presidente da associação das montadoras, se queixou ainda dos feriados e suas pontes, que tornam mais exíguo o calendário comercial das montadoras. “Se você for ver, todo feriado cai numa quinta ou numa terça-feira”, brincou o executivo. A rigor, 2014 terá o mesmo número de dias úteis de 2013. Todavia, há uma expectativa de que a realização da Copa do Mundo reduza o fluxo de consumidores nas concessionárias nos dias de jogos.

No ano passado, as vendas de veículos, incluindo caminhões e ônibus, caíram 0,9%, para 3,77 milhões de unidades, o que interrompe uma sequência de nove anos seguidos de crescimento iniciada em 2004. Já a produção fechou 2013 em 3,74 milhões de veículos, ampliando o recorde que já havia sido assegurado no resultado de novembro.

A noticia positiva no balanço divulgado pela Anfavea foi a adequação dos estoques do setor, o que tira pressão contra a produção deste ano. Com as férias coletivas de dezembro, o volume de veículos parados nos pátios voltou a um giro de 30 dias, após alcançar 42 dias em novembro.

A queda nas vendas em 2013 não tira do Brasil o posto de quarto maior mercado automotivo do mundo, conquistado em 2010. Isso porque a Alemanha, que disputou essa posição com o mercado brasileiro nos últimos quatro anos, registrou baixa ainda mais expressiva nos emplacamentos.

Enquanto no Brasil a demanda por carros caiu 1,5%, na Alemanha a retração no consumo chegou a 4% no ano passado, segundo levantamento da VDA, a entidade que representa as montadoras instaladas no país europeu. Com os 3,58 milhões de carros de passeio e utilitários leves emplacados em 2013, a vantagem brasileira em relação aos alemães subiu para pouco mais de 627 mil unidades, o equivalente a dois meses de venda.

Apesar disso, a Alemanha produziu 1,9 milhão de carros a mais no mesmo período. A diferença é que, enquanto as exportações das montadoras alemãs somaram 4,2 milhões de unidades no ano passado, os embarques do Brasil pouco passaram de 13% desse total. Embora tenha o quarto maior mercado do mundo, o Brasil, na produção de veículos, ocupa apenas a sétima posição no ranking global. Para reduzir essa diferença, as montadoras brasileiras cobram do governo incentivos a exportações.

Os dois outros países que poderiam ameaçar a quarta colocação ocupada pelo mercado brasileiro – Índia e Rússia – também registraram queda nas vendas de veículos em 2013, conforme dados ainda preliminares. Os licenciamentos no mercado russo recuaram 6% no acumulado até novembro. Já na Índia, dados da consultoria Jato Dynamics coletados até outubro mostram queda de 6,2%.

Os maiores mercados de veículos do mundo continuam sendo, nesta ordem, China, Estados Unidos e Japão. No mercado chinês, as vendas já se aproximavam de 20 milhões de carros no acumulado até novembro, com um crescimento de 13,5%. Nos Estados Unidos, o consumo de veículos leves também manteve a trajetória de recuperação no ano passado, marcando evolução superior a 8%, para 14,2 milhões de unidades, segundo dados também registrados nos onze primeiros meses de 2013.

O Japão tem se mantido na terceira colocação, mas suas vendas estão em queda desde que o governo local retirou estímulos dados para a compra de carros após o tsunami que atingiu o país em março de 2011. As vendas de veículos no Japão caíam 1,6% até novembro, num total de quase 5 milhões de unidades.

Uma pesquisa da consultoria KPMG com 200 executivos da indústria automobilística aponta expectativa de que o crescimento das vendas de carros será puxado nos próximos anos por países emergentes. Para 85% dos executivos que participaram do levantamento, o maior crescimento estará, até 2025, concentrado no chamado Bric, o grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia e China. Conforme o estudo, sete em cada dez montadoras esperam que o aumento das vendas venha desses países.

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