Hebreus: Profetas Sociais como Porta-Vozes do Deus da Cidadania

Profeta do Caos

Jaime Pinsky afirma que “um dos maiores mitos da história é aquele que atribui aos hebreus, antecessores dos judeus modernos, a criação do monoteísmo”. Vários outros povos da antiguidade acreditavam e cultuavam um só deus, antes mesmo dos hebreus. O deus dos hebreus, durante muito tempo, assim como os de outros povos, foi uma divindade tribal, o senhor dos exércitos que tinha por função proteger seus seguidores e derrotar seus inimigos.

Tanto a expansão mulçumana, no final do primeiro milênio, como as Cruzadas, massacres cometidos por cristãos europeus, basearam-se na concepção de um deus guerreiro que não diferia muito dos deuses tribais como o hebreu. Porém, a maior contribuição original dos hebreus à civilização foi a concepção de um deus que não se satisfazia em ajudar os exércitos, mas que exigia um comportamento ético por parte dos seus seguidores. Pouco se importava em ser objeto de idolatria ou com o sacrifício de  animais imolados, mas sim comprometia-se com problemas vinculados à exclusão social, à pobreza, à fome e à solidariedade.

Essa concepção revolucionária de deus, pois estaria “avant la lettre” (de modo anacrônico) preocupado com a cidadania, se desenvolveu dentro de condições históricas específicas. A concepção religiosa do judaísmo argumenta que esse deus se revelou para os hebreus pela simples razão deste se constituírem “o povo eleito”. Porém, o monoteísmo ético não ocorreu no período tribal – até o final do século XI a.C. –, mas já no período de decadência da monarquia, após a separação que dividiu a monarquia nos reinos de Judá, ao sul, e de Israel, ao norte.

A doutrinação dos chamados “profetas sociais” estabelece os fundamentos do monoteísmo ético, que é a base das grandes religiões ocidentais: cristianismo e islamismo, além do judaísmo. Constitui-se na primeira expressão documentada e politicamente relevante da pré-história da cidadania.

Jaime Pinsky, no primeiro capítulo da História da Cidadania (organizado por Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky; 6a. ed.; São Paulo; Contexto; 2013; 573 páginas), examina tanto as condições históricas do surgimento do monoteísmo ético quanto aquelas que permitiram a manutenção dos seus valores ao longo dos mais de 25 séculos desde então. Ele percebe as formas e os modos de apropriação do monoteísmo ético, devidamente transformado pelo mundo judaico e pelo universo das chamadas grandes religiões monoteístas.

A discriminação sofrida pelos judeus ao longo da história provocou no grupo grande coesão e forte identidade em torno de práticas e rituais. Seja para os mais religiosos, ligados à crença e às formas de devoção simbólicas, seja para os mais nacionalistas, ligados à defesa de Terra de Israel, em ambos, a ideia do “povo eleito” corresponde a uma etnia marcada pela marginalização e pelo desprezo. No entanto, sempre houve o orgulho da comunidade pelo fato de apresentar baixa incidência de bêbados, ladrões ou assassinos.

As comunidades judaicas, em simulacro de autogoverno, pressiona seus membros a fim de não chamarem atenção de forma negativa, pautando-se pelo bom comportamento para não se justificar maiores perseguições. O embasamento teórico-religioso da cobrança e pressão do grupo costumava ser a explicação de uma pretensa superioridade ética do judaísmo com a relação a outras religiões ou filosofias.  Ensinava-se a necessidade de cada judeu fazer valer os valores de justiça e fraternidade. Na prática da ética residiria a diferença fundamental entre o judeu e o não judeu (gentio).

A ideologia da superioridade ética relaciona-se a pensar ser detentor de uma missão na Terra. Há espécie de orgulho no sofrimento em nome de uma missão. A hipótese de Pinsky é que, uma vez criado, um valor cultural passa a fazer parte do patrimônio cultural da humanidade e não mais de algumas pessoas que se apresentem como descendentes genéticos ou culturais dos criadores daquele bem.

Assim, o monoteísmo ético é uma criação dos profetas sociais e uma conquista de toda a Humanidade. Como e por que o monoteísmo ético desenvolveu-se entre os hebreus, no século VIII a.C., e com os profetas?

Os profetas não são uma criação dos hebreus. Eles já existiam com a função de videntes, uma espécie de gente não muito confiável que afirmava prever o futuro – tal como os economistas contemporâneos!

Alguns levemente desequilibrados, outros francamente megalomaníacos, esses seres ascéticos, que falavam em nome da divindade – tal como os meus colegas falam em nome de O Mercado –, percorriam os reinos [hoje, a mídia] procurando ser ouvidos, imaginando-se ter algo de relevante a dizer. O profeta, durante séculos, foi uma figura muito popular [tanto que subiste ainda hoje a profissão], mas, com poucas exceções, sem maior relevância na época em que viveu. E, com certeza, sem nenhuma importância histórica.

Os que se destacaram, como Isaías, que nasceu e profetizou na Judeia, entre os anos 740 e 701 a.C., falava sempre em nome de deus, do qual se apresentava como uma espécie de porta-voz. Hoje, o economista-chefe fala em nome de O Mercado…

Ele transmite a reclamação da divindade contra o povo “que esquece o seu dono” – atualmente, O Mercado. No limite, ele parece querer que as pessoas se reencontrem, voltem a construir uma comunidade que, em algum momento, foi desfeita.

O “profeta-pastor”, como Amós (783-743 a.C.), esclarece que as razões de deus que anda zangado com o povo se refere à forma com que a riqueza é distribuída e a justiça é feita. Critica, em especial, as mulheres que “apenas consomem, sem produzir, alimentando-se do suor dos outros”.

Porém, o deus de Amós insiste na preservação dos direitos sociais e individuais de todos: caso contrário, ninguém os preservaria, mesmo os que já os conquistaram. Exige dos seguidores de deus um comportamento ético, um verdadeiro respeito cidadão avant la lettre por parte de membros do povo hebreu.

Esses profetas sociais atuaram no período em que a Monarquia já estava dividida entre Israel e Judá. Os pequenos reinos exigiam taxas e impostos elevados, tornando a vida difícil para a maioria. Nem sempre o crescimento territorial e um poder político centralizado proporcionam condições de vida melhores para a maior parte da população. Poucos além da camada dirigente e um pequeno grupo de mercadores viviam bem. Havia certa nostalgia da época do tribalismo que existira havia 300 anos, ou seja, até pouco antes do ano 1000 a.C..

Enquanto as coisas correram bem, o povo aceitou a Monarquia. Quando ela se divide, as pessoas comuns se perguntam qual o sentido de viver mal em uma Monarquia e se não seria melhor viver como os antigos, i.é, em uma estrutura tribal. Sabendo de tudo o que tinha acontecido, surge o “profeta do passado”, aquele que adivinha com precisão aquilo que todos sabiam… [Novamente, lembro de colegas-economistas…]

Entre a religião do templo, burocrática e sem oferecer esperança, e o discurso dos profetas, atingindo o que lhe parecia o centro do problema, a população se inclinava pela veemência destes que se pronunciavam “em nome de deus” e criticavam o templo, os ricos e os poderosos. Atacavam aqueles que tinham criado e mantido um sistema político que marginalizava as pessoas humildes. O povo tinha nostalgia de um tempo passado, que não tinha vivido, mas que a tradição oral mantivera vivo como imaginário social.

Os profetas conseguiam ser os porta-vozes da incompreensão das pessoas com relação aos novos tempos. Esses reacionários, que pregavam o retorno ao passado nostálgico, acabaram sendo revolucionários na crítica moral e ética ao presente vivenciado. Buscavam exemplos de relações sociais diferentes no passado idealizado, criando um novo modelo do que seria uma sociedade justa. Ouviram o grito dos oprimidos e dos injustiçados. Tiveram a coragem de dizer quais os caminhos que a sociedade deveria tomar para superar a injustiça e criar uma sociedade com direitos individuais e sociais.

Questionavam o reino e o templo, as bases da Monarquia hebraica. Romperam com o ritualismo e com o pequeno deus nacional, uma deus que necessitava de templo e dos sacerdotes para se impor. Criaram o deus da cidadania.

4 thoughts on “Hebreus: Profetas Sociais como Porta-Vozes do Deus da Cidadania

  1. Prezado Fernando,
    Bela analogia entre O Mercado e o Deus da cidadania. Durante milênios o ser humano teve a mente dominada por esse construto: antropológico – psicológico – social que se chama Deus. Hoje, entretanto, essa figura lendária está se transformando em lenda urbana, principalmente nos países mais desenvolvidos e com o passar dos anos, será apenas mais um objeto do inconsciente coletivo. Ainda bem que nossas mentes estão ficando cada vez mais livres e com autonomia para compreender a realidade como ela é. Graças a nós mesmos e à aquisição de conhecimento.
    Abs.

    • Prezado Cristo,
      você, filho de deus, sabe mais do que ninguém como foi a invenção de seu “pai”… 🙂
      Minha filha estava no Jardim de Infância, toda compenetrada, desenhando.
      Aproximou-se dela a professora e lhe perguntou o que estava fazendo.
      — “Estou desenhando Deus…”
      — “Mas, Nina, ninguém sabe como é Deus!”
      — “Esperem um pouco, vocês já, já, saberão!”
      abs

      • Caro Fernando,
        comecei a receber conhecimento sobre o que é Deus, quando tinha 8 anos, mas eu já questionava quem era esse ser invisível e que povoava a mente de todo mundo. De lá pra cá foi uma verdadeira saga de estudos e análises em diversos campos. Depois de muita viagem e reflexões intermináveis, ancorei definitivamente no meu porto seguro que se chama ciência. Mas, gosto de filmes clássicos como Ulisses e o Nome da Rosa. Meu pai ‘rsrsrs’ deve pensar: esse é meu filho pródigo! Abs.

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