Comunidades Cristãs e Cidadãs

arena

Eduardo Hoornaert, no quarto capítulo do livro História da Cidadania (organizado por Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky; 6a. ed.; São Paulo; Contexto; 2013; 573 páginas), mostra como “a minúscula ‘sinagoga dissidente’, iniciada na Galileia com Jesus de Nazaré e abrigada no casulo do judaísmo rabínico por 150 anos, multiplicou-se em tempo recorde”. O movimento cristão iniciante alcançou, já no século I, toda a região do Mediterrâneo, penetrou na Ásia Menor, espalhou-se no delta do Rio Nilo. Ele se propõe a responder a pergunta: de onde provém tão extraordinário desenvolvimento em tão pouco tempo? Qual o segredo?

A literatura corrente sobre o assunto costuma aduzir principalmente cinco razões para o que chama de “vitória do cristianismo”:

  1. o martírio,
  2. a santidade,
  3. os milagres,
  4. a evangelização, e
  5. mais modestamente – a criação de uma rede associativa entre populações marginalizadas.

Acontece que, contra cada uma das quatro primeiras razões alegadas, por sinal as mais invocadas na história oficial das igrejas, há problemas de ordem científica. As pesquisas históricas desmentem o discurso das igrejas.

Assim, sabemos que o martírio não teve nem de longe o impacto histórico sobre a evolução do cristianismo que lhe foi atribuído pela literatura posterior. É verdade que as comunidades cristãs estavam expostas a eventuais progroms de caráter local e que, em certas circunstâncias, os cristãos eram chamados para interrogatórios vexatórios diante das autoridades, mas isso não basta para se justificar o tão invocado termo “igreja dos mártires”.

Quanto à santidade e às virtudes heroicas dos primeiros cristãos, basta lembrar-se da história de Judas nos evangelhos para se convencer de que a complexidade e imprevisibilidade do comportamento humano aplica-se tanto aos apóstolos em redor de Jesus como aos bispos e cardeais em torno do papa. Os primeiros apóstolos santificados declararam, explicitamente, que não eram “santos”.

Em relação à explicação pelos milagres praticados por Jesus, ou por seus apóstolos e determinados seguidores das primeiras gerações, a literatura da época não praticava uma separação nítida entre o real e o imaginado. Os evangelhos e os atos dos apóstolos decepcionam os positivistas contemporâneos que buscam enxergar “o que é” (e não “o que deveria ser”), já que seu intento era menos relatar o que realmente aconteceu do que provocar a consciência e a ação.

Mas é sobretudo a negação de uma evangelização explícita no início do cristianismo que costuma causar estranheza entre os funcionários das igrejas hoje. Não se tem nenhum relato de um “missionário” cristão antes do sermão de Gregório de Nissa, datado no ano de 380, que apresenta seu parente distante, Gregório, o Taumaturgo, como evangelizador “profissional” entre camponeses. É, portanto, anacrônico querer projetar em tempos primitivos métodos posteriormente usados pelas igrejas.

Resta a última razão invocada para explicar o primeiro impulso, decisivo, do cristianismo na sociedade: a formação de uma rede associativa que cobre uma área social totalmente negligenciada pela administração romana, ou seja, a luta organizada (avant la lettre) dentro da sociedade romana.

A imagem vigente nas igrejas cristãs é a dos apóstolos pregando o evangelho, louvando “os mártires”, nomeando “os santos”, divulgando “os milagres”, arrebanhando seguidores que se curvam diante de “a verdade de Deus”. Eis o discurso oficial que predomina. Contudo, os textos existentes que colocam em cena pessoas ou grupos armando estratégias na linha da cidadania não são muito comentados. Na leitura institucional do cristianismo pouco se diz sobre o cotidiano e as possíveis discussões internas. Privilegia o campo da doutrina religiosa e dá uma ideia muito vaga e distorcida do que se passa nos grupos cristãos.

Só se lança de vez em quando um olhar distraído sobre a vida cotidiana nas comunidades cristãs. A maioria anônima não merece atenção. Não se demonstra interesse com o que se passa no mundo dos escravos e libertos, mulheres e crianças, sejam eles cristãos ou não. Intelectuais, teólogos e bispos discutem entre si; os cristãos comuns permanecem calados. O submundo romano e cristão permanece largamente desconhecido em sua cotidianidade.

Os cristãos conviviam com categorias sociais como soldados, gladiadores e escravos em geral. O suicídio era frequente nessas categorias. Não se aprofundava as razões que levavam os escravos ao suicídio, mas se interessava sim pela indenização que o patrão  eventualmente pudesse cobrar do patrimônio familiar dos suicidas.

Quando um aristocrata se suicidava, era por desgosto pela vida, mas quando um escravo cometia esse “absurdo”, era por perversidade! Se ele se matava, era porque não prestava!

Logo, precisava-se tomar providências contra os efeitos negativos, no plano financeiro, de um gesto de desespero. O patrão resolvia o caso com a família do suicida. À luz de análise acerca do suicídio, desnuda-se a sociedade romana socialmente fechada, cínica e interesseira. Não se defendia os direitos básicos de incontáveis pessoas comuns, dos escravos, das mulheres, das crianças. Havia uma distância social intransponível entre os notáveis “bem-nascidos” e seus inferiores. Ao jovem rico a sociedade “educada” recomendava: “saiba manter a distância, não se misture com gentinha”.

Por sua vez, ao contrário do Direito romano, os textos cristãos demonstram sensibilidade, apresentando proximidade com o mundo dos gladiadores, que são escravos, criminosos condenados, prisioneiros de guerra, por vezes, cristãos. Muitos gladiadores acabam se suicidando ou sendo assassinados.

Outro segmento social particularmente exposto ao suicídio era o dos soldados, entre os quais havia cristãos. O suicídio de soldados foi silenciado como segredo de Estado, para preservar o exército, que o considerava indigno e repugnante. Mesmo tendo sido alistado à força e vivendo uma vida de cão, o soldado precisava manter a postura de homem público! Um soldado que falhava na tentativa de suicídio era imediatamente expulso da corporação com ignomínia. Suicídio de soldado não era falha humana, era atentado à respeitabilidade do exército, e isso não se perdoava…

A escravidão estava firmemente ancorada na mentalidade dos cidadãos romanos, que a consideravam perfeitamente natural. O cidadão, no ócio da propriedade; os escravos, no negócio do trabalho. Valorizado é que usa do patrimônio para o euergetismo, ou seja, para a beneficência no exercício de alguma função pública. A indigência é a grande culpada pelas mal-aventuranças sociais. Dar trabalho ao indigente significa educá-lo.

Os ricos são diferentes. Eles sabem empregar o ócio em Filosofia, Arte ou beneficência pública. Caso pratiquem algum negócio, é para conseguir um ócio maior.

Dentro dessa mentalidade fechada, o Estado romano dispensa-se de providenciar serviços sociais propriamente ditos. Para pelo menos 80% da população do imenso Império, a vida é trabalho, sofrimento, violência. A vida dos escravos era extremamente breve, quase sempre inferior a 25 anos.

Diante desse quadro, os cristãos procuraram oportunidades que pudessem melhorar a vida das pessoas no submundo romano. Os colégios ou as confrarias cristãs tinham como dois objetivos básicos a sepultura e o banquete. As pessoas se cotizavam para garantir uma sepultura, erguer um santuário doméstico aos protetores da casa, providenciar um banquete para todos. Em resumo, os colégios eram corpos fundamentalmente democráticos no seio de uma sociedade patriarcal e piramidal.

Os cristãos aderiram com entusiasmo ao estatuto dos colégios, logo percebidos como aliados naturais nas grandes metrópoles do Império, como Roma, Alexandria e Antioquia. Mas eles inovaram em diversos pontos de organização interna. Encorajaram  a criação de colégios femininos. Os cristãos não se restringiam a enterrar seus fieis, mas admitiam igualmente enterrar vizinhos pagãos. Aliás, os cemitérios cristãos, a partir do século III, constituem um prova arqueológica de primeira importância acerca da imersão do cristianismo no mundo escravo das grandes cidades. Os banquetes cristãos costumavam ser simples e fraternos, sendo realizados uma vez por semana, no dia do Senhor.

Eduardo Hoornaert defende a tese de que o segredo do sucesso do cristianismo no decorrer do século II muito tem a ver com a luta pela cidadania. Os seguidores de Jesus optaram por projetos concretos como donativos em gêneros alimentícios, enterro de falecidos, visitas a doentes, apoio moral aos interrogados pelas autoridades, serviço de visitas aos presos, proteção às pessoas comuns, cristãos e pagãos, eis o segredo do sucesso do cristianismo.

Esses trabalhos a favor da cidadania se processam dentro de um imaginário fundamentalmente religioso. O cristianismo antigo não é de forma nenhuma um movimento secularizado. No mundo escuro em que vive o escravo, a religião é a única luz, a última trincheira de luta, o último recanto de identidade.

Se é verdade que o teatro, o circo, a arena exercem especial atração sobre o escravo, fazendo-o esquecer sua desgraça por alguns momentos, a religião exerce um papel igualmente importante. Situa-se aí o cristianismo.

As “sinagogas dissidentes” do movimento cristão abrem as portas para todos. Seguem o modo de vida das colônias judaicas, mantêm uma grande coesão interna, baseiam-se sobretudo nos quadros familiares, praticam a esmola, o jejum, a oração, a ceia, as festas. São facilmente identificáveis pelos imigrantes orientais em Roma. O cristianismo romano provém basicamente do povo vindo do Oriente procurar trabalho na grande cidade. Os cristãos da antiguidade davam assistência regular aos necessitados a partir de ofertas voluntárias.

Os propagandistas do cristianismo foram as categorias sociais particularmente beneficiadas pela ação cristã. O movimento cristão cresceu pela propaganda de boca em boca por anônimos beneficiados: pessoas sem cidadania romana (“estrangeiros”), gente sem terra ou identidade social (paroikoi ou “paróquia”), viúvas, órfãos, entre outros sofridos sem assistência social, como as vítimas de uma peste. A grande diferença com a caridade cristã está na abrangência. Enquanto a sinagoga atendia aos judeus, as comunidades cristãs acolhiam a todos.

O cristianismo em seus primórdios, antes da sua elitização na virada do século III, prestava serviços no campo social e humanitário, recebendo então um sólido apoio popular por onde se espalhava. A evangelização, liderada por bispos, sacerdotes ou diáconos, é uma falsa imagem das origens cristãs.

O cristianismo não venceu pela pregação de seus apóstolos ou bispos, nem pelo testemunho destemido de mártires, pela santidade de seus heróis, pelas virtudes nem pelos milagres de seus santos. Venceu, isto sim, por uma atuação persistente e corajosa na base do edifício social e político da sociedade.

1 thought on “Comunidades Cristãs e Cidadãs

  1. Excelente, professor. E a prova prática disso é a expansão do pentecostalismo nos dias atuais. O senso de “belonging” oferecido pelas igrejas pentecostalistas, a comunidade de apoio e a prospecção de fiéis nas classes mais desfavorecidas está proporcionando uma expansão notável na sociedade brasileira.

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