A Mídia e a Nudez da Oposição

O rei está nu

Um farsante (tipo “direitopata” ou “esquerdofóbico), fazendo-se passar por um alfaiate de terras distantes (assumido “defensor da democracia liberal”), diz a um determinado rei (a mídia oposicionista) que poderia fazer uma roupa muito bonita e cara, mas que apenas as pessoas mais inteligentes e astutas poderiam vê-la. O rei, muito vaidoso, gostou da proposta e pediu ao “salvador da pátria” que fizesse uma roupa dessas para ele.

O farsante recebeu vários baús cheios de riquezas, rolos de linha de ouro, seda e outros materiais raros e exóticos, exigidos por ele para a confecção das roupas (consultoria). Ele guardou todos os tesouros e ficou em seu tear, fingindo tecer fios invisíveis, que todas as pessoas alegavam ver, para não parecerem estúpidas.

Até que um dia, o rei (verbi gratia, a imprensa) se cansou de esperar, e ele e seus ministros quiseram ver o progresso do suposto alfaiate. Quando o falso tecelão mostrou a mesa de trabalho vazia, o rei exclamou: “Que lindas vestes! Você fez um trabalho magnífico!”, embora não visse nada além de uma simples mesa, pois dizer que nada via seria admitir na frente de seus súditos que não tinha a capacidade necessária para ser rei.

Os nobres (empresários em busca de privilégios) ao redor soltaram falsos suspiros de admiração pelo trabalho do tapeador, nenhum deles querendo que achassem que era incompetente ou incapaz. O rei resolveu marcar uma grande parada na cidade para que ele exibisse as vestes especiais. A única pessoa a desmascarar a farsa foi uma criança, exclamando: “O rei está nu!”. O grito é absorvido por todos, de maneira constrangedora, o rei se encolhe, suspeitando que a denúncia infantil é verdadeira, mas dá continuidade à procissão…

A entrevista do Valor (16/01/13) com Francisco Lopes (ex-presidente do Banco Central do Brasil no Governo FHC) e a de Luiza Trajano (presidente da rede de comércio varejista Magazine Luiza) ao programa de televisão direitista Manhattan Connection mexeu com os brios da imprensa brasileira. Os jornalistas estão reagindo que nem os cidadãos quando a criança denunciou: “O rei está nu!”. O discurso alarmista da oposição foi desmascarado por esses insuspeitos entrevistados. Os repórteres que o divulgaram, acriticamente, estão caindo em si diante da farsa estar vindo à luz.

Dona Luíza, empresária de Franca que começou com uma lojinha e hoje é a 3a. maior rede do varejo brasileiro, contrapôs contra-argumentos factuais e lógicos  a cada um dos odiados Manhattaner, com elegância, classe e extrema simplicidade. Chico Lopes, depois das entrevistadores terem tentado o pautar para responder só de acordo com aquele discurso típico alarmista, ele se esquiva, denunciando a artificialidade deste “pessimismo”.

Chico Lopes diz que a coisa que mais lhe incomoda, atualmente, é o pessimismo. “As análises estão muito contaminadas pela disputa eleitoral, isso atrapalha um pouco”. Afirma que há uma falsa interpretação de economistas oposicionistas segundo a qual poderíamos voltar a crescer 4%, se a política econômica for ‘correta’ com menos intervenção. Fazem apenas uma análise conjuntural pessimista. Não praticam uma abordagem estruturalista com visão de longo prazo.

Lopes acha que há um equívoco por trás do pensamento dos economistas, segundo o qual o crescimento normal possível é 4%. Há dois fatores que atuaram de forma importante em 2012 e 2013 e acredita que não vão atuar em 2014. Primeiro, a taxa de câmbio. “Na verdade, nos últimos dois anos, o Brasil fez uma desvalorização em termos reais de quase 20%, que é uma mudança muito grande”. Em 2012 e 2013, “o maior problema foi o crescimento baixo da indústria de transformação, medíocre e muito abaixo da média histórica. (…) Ao mesmo tempo, nos últimos dois anos, o quantum de importações cresceu mais de 20% nesses dois segmentos: bens de consumo não duráveis, como alimento, e bens intermediários de modo geral. Olhando a economia, vejo que a demanda está crescendo no normal e a produção não está crescendo porque a capacidade bateu no teto, falta trabalhador, e porque fizemos uma política cambial errada”.

Lopes diz que é necessário a imprensa entender a política econômica do governo. “A ideia de que não está havendo investimento no Brasil me parece equivocada. Vejo um mundo de construção civil sendo feito, como metrô, estradas, portos. A formação bruta está crescendo 8% ao ano nos últimos anos. E vemos a indústria automobilística fazendo fábricas”. Se perguntar aos empresários se vão parar de investir, “eles dizem que não, por razões estratégicas, porque estão a plena capacidade e têm que fazer uma fábrica nova”. Ele alerta: “tem um jogo político, do lobby, e o governo, muitas vezes, é ingênuo e cede a esse tipo de pressão. Esse é um dos erros de política econômica”.

Lopes não condena e nem acha que foi um equívoco a política de redução de juros, porque ela teve uma consequência da maior importância, gerou a correção da taxa de câmbio. “Isso teve um custo inflacionário, mas foi feito dentro de certos parâmetros. Na hora em que a inflação passou a incomodar, o BC reverteu a política”. A taxa de juro real de 5% a 6% se justifica, transitoriamente, como estratégia de controle da inflação. “Mas, como posição permanente, transforma o Brasil em uma economia de rentistas”.

A tese de que o Brasil tem déficit público muito grande não é verdade. Em comparação com outros países, a posição fiscal brasileira é muito favorável”, afirma Lopes. “Do ponto de vista de formulação econômica, o que interessa é a dívida líquida. Os mercados gostam de olhar o conceito de dívida bruta, porque os governos frequentemente usam os mecanismos da dívida líquida para esconder coisas. Quando se analisa a dívida bruta, de 60% do PIB, tem que considerar que quase 20% tem a contrapartida de reservas. (…) Acho a posição fiscal do Brasil confortável e todo mundo reconhece isso. A dívida bruta de outros países é de 90%, 100% do PIB”.

O governo deveria deixar claro que tem uma meta, que é a de estabilizar a dívida líquida como percentual do PIB, assumindo que vai usar a folga fiscal que tiver para fazer gastos sociais. Ideologicamente, “se pode discordar dessa posição, achando que o Brasil deveria levar a dívida líquida para 20% do PIB, que é mais importante do que fazer gastos sociais”.

O que mais se salienta na entrevista de Lopes é que ele explicita o debate ideológico colocado em seus termos. É um neoliberal que reconhece méritos do Governo de ideologia oposta, o que é incomum em Terrae Brasilis… Na verdade, a ideologia do Governo Dilma é social-desenvolvimentista, mas ele a classifica como socialista, demonstrando falta de precisão política, o que é comum entre economistas com formação ortodoxa. Sua virtude é não cair no “contrarismo”, isto é, o dogma de ser sempre contra o “governo do PT”. Divulgar falsas ideias, contra factuais, automática e impensadamente, apenas por que se trata de criticar o governo, é tão equivocado como seguir o “comportamento de manada”, tipo “Maria-vai-com-as-outras”.

Leia maisChico Lopes: Ideologia Socialista X Ideologia Neoliberal

10 thoughts on “A Mídia e a Nudez da Oposição

  1. Fernando, muito boas as entrevistas. Verdadeiros “cala-boca” a estes vira-latas qualificados do PIG.
    Quanto ao baixo crescimento verificado nos 2 últimos anos, a meu ver, decorre da remarcação desencadeada após o reajuste de 14,7%, lembra-se?
    Um abraço.
    Nicola.

  2. Prezado Fernando,

    Outro dia conversava com um cara do mercado que me garantia que o Brasil tava quebrado, e ia ter um corrida contra o real. Falou que todo mundo tá aplicando no exterior; que a Argentina e a Venezuela tinham sido só os primeiros. Que o real logo seria a bola da vez.

    Ouvi tudo, e perguntei: “Sim, mas por quê?”. Ele caiu na gargalhada e detonou o governo, a Dilma, o Mantega, etc. Falou que “essa turma que tá aí é contra o Mercado”. Aí, perguntei de novo: “Tá, mas você teria alguma razão objetiva? Afinal, o déficit tá sob controle, a dívida interna é moderada pelos padrões internacionais (a dívida líquida nem se fale), temos mais de US$ 350 bi em reservas, o capital estrangeiro ano passado veio ao Brasil, nosso rating ainda é o mesmo, etc. O que é que tá pegando, amigo?”

    Silêncio ensurdecedor.

    Assim são os tais consensos que o “Mercado”, essa entidade divina, propaga… a situação não é perfeita, lógico que existem riscos e problemas a enfrentar, mas esse cenário de fim do mundo… francamente… parece mais “wishful thinking”.

    No mesmo sentido, no Valor Econômico de hoje (28/01/14) saiu uma interessante matéria sob o título “Piora externa não afeta solvência”.

    Abraço.

  3. Fernando, a minha conta em termos de câmbio é um pouquinho mais radical. A não ser que ele esteja usando IPA… Confere para ver se eu não fiz nenhuma besteira. O mínimo do câmbio nominal recente ocorreu em Julho de 2011 (1,5631) em dezembro do ano passado estava em 2,3426. Nesse período a inflação do IPCA foi de 14,93%. Ou seja, em dois anos e meio a gente teve uma maxi de 30,4%. Vou fazer depois as contas com outros índices mas suponho que seja ainda maior a maxi. O IPCA teve os efeitos do tomate e coisas semelhantes. Mas é chute.

    1. Prezado Carlinhos,
      eu seria ainda mais “radical” e desconsideraria a depreciação da moeda nacional em termos nominais no período: 50%!
      As “forças de mercado” em conjunto com o BCB não determinam o câmbio em “flutuação suja”?
      Os extremos nominais afetam as decisões de exportadores e importadores, e não o deflacionamento pela média ponderada de preços (IPCA), como sugere a análise de um dos fundamentos, no caso da PPC.
      Mas o mais fascinante dessa “maxi” é que ela, de maneira inédita, não provocou um choque inflacionário!
      Acho que o tateio de preços básicos (taxa de juros – taxa de câmbio – taxa de inflação), realizado pelo BCB, no Governo Dilma, extremamente meritório.
      O equívoco desta vez foi dos nossos “colegas heterodoxos”, que pregaram a “desindexação com o fim das LFTs, não prevendo a reversão dos juros e a consequente marcação-a-mercado com perda fatal para todos os fundos, inclusive de pensão, que aplicaram em LTNs e NTNs. Resultado: a STN tá agora pagando um absurdo para conseguir colocar esses títulos prefixados.
      E a administração da dívida pública estava tão correta em todo o Governo Lula… Mas os “conselheiros da Presidenta” (Delfim, Belluzzo, Nakano) foram mal, não?
      Isso que dá não gostar de financista-rentista…
      abs

      1. Oi Fernando, eu também acho que essa obsessão por dívida pré é quase mística. Pior: um mau misticismo. Também concordo que em termos de política cambial, juros e inflação a gestão da Dilma foi bem razoável. Talvez a aceleração recente tenha sido, ou esteja sendo, excessiva. Eu esperaria para ver o que acontece lá fora…. . Realmente, para mim, onde o governo Dilma pecou, no início, numa política fiscal muito contracionista e depois, aliás como o Brasil tem pecado há muito, em uma pobreza impar de políticas estruturantes em relação a nossa capacidade produtiva e de inserção mais dinâmica no comércio exterior. É muito longo, mas se vc tiver tempo dá uma olhada nesse seminário que a gente promoveu em dezembro do ano passado pelo CICEF e que discute vários desses temas. Grande abraço, Carlinhos
        http://www.centrocelsofurtado.org.br/interna.php?ID_M=1098

      2. Prezado Carlinhos,
        estou de acordo contigo. Só que dou um “desconto” para cobranças a qualquer governo. A gente de fora cobra tudo. Obviamente, ele não tem quadros nem capacidade operacional de responder a tudo com presteza. Quanto mais quando a Presidenta que não pode descentralizar muito pela “competência” dos ministros aliados da coalizão-presidencialista.
        Grato pelo envio do link.
        abs

  4. Gostei muito da entrevista do Chico Lopes. Sua principal virtude é a de reconhecer o que o governo do PT fez de bom. Aliás, essa atitude é muito nobre, já que muito petista não reconhece o legado de FHC. Seria bom que tivessem a mesma atitude.
    Mesmo assim, seria bom analisar a entrevista dele completa. Nela há várias críticas à política econômica. Talvez, aproveitando o embalo, fosse a hora do PT reconhecer esses erros.

    1. Rodrigo,
      veja meu comentário em resposta ao Carlos Pinkusfeld.
      Quanto ao “PT reconhecer erros”, cabe conferir se o Chico Lopes está falando em nome do PSDB…
      Eu sou simpatizante, mas não falo em nome do PT, pois não sou filiado e, muito menos, representante oficial.
      Por isso, é arriscado personalizar partidos.
      att.

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