Ideias Socialistas que Romperam Fronteiras

French_revolution

Leandro Konder, no nono capítulo do livro História da Cidadania (organizado por Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky; 6a. ed.; São Paulo; Contexto; 2013; 573 páginas), afirma que “o socialismo moderno é incompreensível, em sua origem, sem a Revolução Francesa”.  Os jacobinos, liderados por Robespierre, haviam se defrontado com um dilema no exercício do poder:

  1. ou respeitavam o direito dos proprietários e corriam o risco de perder o apoio das massas populares,
  2. ou intervinham no direito à propriedade, acirravam a resistência da oposição ao governo revolucionário e recorriam ao Terror.

Sem contestar o direito à propriedade em si, os jacobinos optaram por confiscos de emergência e, em condições de guerra contra os invasores estrangeiros, radicalizaram a repressão. O desgaste e a derrota dos jacobinos tiveram consequências históricas profundas.

As execuções de Robespierre e Saint-Just foram a expressão do início de um movimento histórico-político caracterizado por um resoluto deslocamento para a direita. No final do século XVIII veio o Diretório, depois, já com Napoleão, o Consulado, em seguida, o Império e a Restauração Monárquica.

A chamada Conspiração dos Iguais, liderada por Gracchus Babeuf (1760-1797), ex-jacobino, propunha uma nova revolução – “a última, a definitiva” –, que extinguiria o direito à propriedade privada da terra e firmaria o princípio socialista (avant la lettre) de que o direito à propriedade era sempre limitado pelo interesse da sociedade. Babeuf também foi guilhotinado.

A partir de então, as propostas dos socialistas se deslocaram do plano da ação política para o plano da utopia. Embora correspondessem à demanda dos trabalhadores, e estivessem de algum modo sintonizadas com as aspirações da classe operária, recém-constituída pelo processo da Revolução Industrial, as concepções dos pioneiros da utopia socialista pretendiam trazer benefícios para a humanidade inteira, para todos os grupos.

Henri de Saint-Simon (1760-1825) era um aristocrata muito marcado pela temporada que passara nos Estados Unidos, uma sociedade sem passado feudal, na qual imaginava que todos participavam das atividades econômicas, eliminando o parasitismo e a ociosidade. O que ele desejava para a França era uma reforma que deslocaria o poder das mãos da classe ociosa – os rentistas que viviam da renda da terra, o alto clero, os alta administração do aparelho judiciário, os cortesãos –, entregando a direção do Estado aos “industriais”, isto é, tanto os trabalhadores como os donos das fábricas, os comerciantes e os banqueiros. Assim,  a atividade econômica traria benefícios para todos.

Charles Fourier (1772-1837), com sua proposta plebeia, não confiava nos banqueiros e nos comerciantes. Todos deveriam viver como os habitantes de um “falanstério”, organizado de maneira a subordinar o poder dos ricos às conveniências de uma sociedade autogerida, baseada em princípios diferentes da “civilização” de então, ou seja, do capitalismo. Almejava a passagem da “civilização” para a “harmonia”, pois esta “salvaria a humanidade de uma destruição inevitável, que ocorreria em menos de quatro séculos, caso a sociedade não mudasse”. Era também um ambientalista avant la lettre?

No fourierismo, “falanstério” é uma organização comunitária concebida como uma realização plena da natureza humana, por meio do encontro entre princípios socialistas, como a propriedade coletiva dos meios de produção, e prescrições comportamentais, que incluem a plena liberdade sexual. Seria o local onde viveria e trabalharia esse grupo, vivendo ele em comunidade como uma falange. A etimologia da palavra francesa phalanstère vem de phalan[ge] + [mona]stère (1822), designando o sistema de Charles Fourier (1772-1837), utopista francês, para “a unidade de trabalho que vive em comunidade”. Por extensão passou a designar também o imóvel que aloja diversas famílias. Nos anos 60/70 do século XX, essa ideia reapareceu nas comunidades hippies

William Godwin (1756-1836) prenunciava elementos do socialismo libertário (ou anarquismo), propondo uma mudança radical, que levasse os homens a dispensar o Estado, intrinsecamente ruim.

Robert Owen (1771-1858) chegou a enriquecer-se como administrador de empresa, mas gastou a maior parte de sua fortuna financiando experiências com cooperativas que deveriam funcionar democraticamente, evitando o agravamento das desigualdades sociais. Como acreditava que o ser humano era formado por condições externas, concluiu que uma boa organização da vida em comunidade formaria cidadãos conscientes, eliminaria as guerras e não permitiria a existência de criaturas com fome. A tentativa de realizar seu sonho nos Estados Unidos por meio da cooperativa New Harmony (1825-27) fracassou.

Todos esses pioneiros do socialismo pensavam universalmente, no bem da humanidade, colocando-o acima do compromisso com a promoção dos interesses de algum grupo humano particular determinado.

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