República e Desenvolvimentismo (por Luiz Carlos Bresser-Pereira)

bresser-pereiraFui surpreendido ao final da leitura da coluna de um dos mais reputados militantes da causa social-desenvolvimentista. O Professor Bresser-Pereira, prefaciador do meu primeiro livro — Ensaios de Economia Monetária (1992) –, era um dos poucos colunistas que restavam na Folha com ideias que eu me identificava. No entanto, está desistindo dessa “trincheira”! Por que?!

Lastimo muito, porém imagino que seus motivos sejam corretos e justos como sempre é seu comportamento militante de uma causa nobre, como muito bem expressou nessa última coluna. O Professor Bresser tem a maior importância para nós, seus leitores e admiradores de sua postura nacionalista e republicana. Leiam sua ótima última coluna sobre o novo desenvolvimentismo social.

República e desenvolvimentismo

Luiz Carlos Bresser-Pereira

Folha de S.Paulo, 10.02.2014

Novo desenvolvimentismo social é a melhor estratégia para alcançar a República, que é o objetivo de todos

“A República somos nós; é a nação e o Estado brasileiro; é a solidariedade necessária entre todos os homens; é a esperança em um Estado mundial. A República representa os valores e os objetivos políticos que a humanidade construiu para si; é a segurança e a paz, é a liberdade individual que nos foi ensinada pelo liberalismo político, é o bem-estar econômico defendido pelo desenvolvimentismo, é a democracia e a justiça social propostas pelos socialistas; é a proteção da natureza e, mais amplamente, da “res publica”, defendida pelo republicanismo.

O novo desenvolvimentismo é a estratégia para promover o progresso ou o desenvolvimento, para alcançar aqueles grandes objetivos políticos definidos nos últimos 300 anos e para, assim, garantir direitos: os direitos civis, os direitos políticos, os direitos sociais e os direitos republicanos, estes definidos como o direito de cada cidadão de que o patrimônio público não seja capturado por interesses privados.

O principal instrumento que os homens têm para alcançar esses objetivos ou afirmar esses direitos é o Estado, ou seja, o sistema constitucional-legal e a organização que o garante. O segundo instrumento é a política, e o terceiro é o mercado.

Enquanto o Estado é a instituição maior de uma sociedade nacional, que coordena toda a vida social, o mercado é uma instituição regulada pelo Estado que é insubstituível quando se trata de coordenar um sistema econômico competitivo.

Na antiguidade, o Estado era o instrumento da oligarquia militar e religiosa. A partir da Revolução Capitalista — a maior da humanidade desde o surgimento da agricultura e da formação das primeiras grandes civilizações — o Estado vem se tornando gradualmente democrático, fruto de muita luta. Desde então, o mercado passou a complementar a coordenação do Estado.

O progresso ou o desenvolvimento sem adjetivos é um processo histórico que tem início quando a Revolução Industrial completa a revolução capitalista. A partir desse momento tem início o desenvolvimento econômico que abrirá espaço para a realização dos grandes objetivos que a humanidade definiu para si própria: segurança, liberdade individual, bem-estar econômico, justiça social e proteção do ambiente.

O desenvolvimento não nos é dado de presente. É fruto de construção social, que implica conflito e cooperação em sociedades de classes sociais. Implica luta de classes e possibilita coalizões entre elas.

A luta de classes almejava o socialismo, e não foi resolutiva. Já as coalizões de classe são hoje a forma de organização da sociedade através da qual a luta pelo desenvolvimento se dá. Ela se trava entre coalizões desenvolvimentistas formadas frouxamente por empresários, trabalhadores e burocracia pública, e coalizões liberais de capitalistas rentistas e financistas. A República é o objetivo de todos. Mas um novo desenvolvimentismo social sempre renovado é a melhor estratégia para alcançá-la.

Esta foi minha última coluna. Aproveitei-a para resumir os principais valores e crenças que me orientaram ao escrevê-la. Agradeço aos meus leitores, que me acompanharam durante esses anos, e à Folha, que a abrigou.

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