O Brasileiro, O Mercado e O Governo

Redenção

Habituei-me a tratar com reverência (e ironia) O Mercado. Assim, com artigo definido e nome próprio em maiúscula, tal como merece O Mercado como Deus.

Harvey Cox, professor de Teologia da Universidade de Harvard, recebeu o conselho de que “se quisesse saber o que estava acontecendo no mundo real, deveria ler as páginas de Negócios”. Embora o seu interesse ao longo da vida tenha sido o estudo da religião, sempre disposto a expandir seus horizontes, ele seguiu o conselho, embora com o medo de quem teria que lidar com um novo e desconcertante vocabulário. Em vez disso, ficou surpreso ao descobrir que a maioria dos conceitos com que deparou foi bastante familiar!

Seu depoimento é impagável. “Esperando uma terra incógnita, encontrei-me, em vez disso, na terra do déjà vu. O léxico do The Wall Street Journal e as seções de negócios da Time e Newsweek acabaram por ter uma semelhança impressionante com o Genesis, a Epístola aos Romanos, e  a Cidade de Deus de autoria de Santo Agostinho. Atrás de descrições de reformas pro mercado, a política monetária e as circunvoluções do Dow-Jones, eu gradualmente juntei as peças de uma grande narrativa sobre o significado mais profundo da História Humana, porque as coisas tinham corrido mal e elas diziam como colocá-las no rumo correto. Os teólogos chamam isso de Mitos de Origem, Lendas da Paixão, e Doutrinas do Pecado e da Redenção. Mas lá estavam todos eles, novamente, e apenas com leve disfarce: as crônicas sobre a criação de riqueza, as tentações sedutoras do estatismo, o cativeiro aos ciclos econômicos sem rosto e, por fim, a salvação através do advento de mercados livres, com uma pequena dose de cinto ascético apertado ao longo do caminho.”

Deus é um cara gozador. Adora brincadeira. Pois prá me jogar no mundo, tinha o mundo inteiro, mas achou muito engraçado me botar cabreiro. Na barriga da miséria, nasci O Brasileiro! Eu sou do terreiro!

Pois é, comentários de “sociólogos de botequim” direitistas que recebo em meu blog deitam falação, primeiro, contra O Brasileiro. Quis? Quid? Ubi? Quibus auxilliis? Cur? Quomodo? Quando? [Quem? O que? Onde? Por que meios? Por que? Como? Quando?]. Gasto meu latim para circunstanciar a pessoa, o fato, o lugar, os meios, os motivos, o modo, o tempo. Inútil. Não consigo observar esse arquétipo. Desconheço cada uma das ideias preexistentes na mente de Deus, a partir das quais o universo foi constituído, particularmente, aquela que singularizou o habitante de Terrae Brasilis, tão plena de diferenças, desigualdades, disparidades…

Disse o dramaturgo e cronista “pó-de-arroz” (torcedor passional do Fluminense, aliás, Tapetense), Nelson Rodrigues: “por ‘complexo de vira-lata’ entendo eu a inferioridade em que O Brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. (…) O Brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima”.

O jornalista inglês Alex Bellos, autor do livro “Futebol – O Brasil em Campo” (2002), premiado em 2004, no Reino Unido, correspondente do jornal “The Guardian” no Rio de Janeiro entre 1998 e 2003, fez um comentário muito pertinente, típico de arguto observador estrangeiro sobre a cena brasileira.

“Quando eu estava fazendo pesquisas para o meu livro percebi diversos aspectos da literatura brasileira sobre futebol. Em primeiro lugar, os brasileiros são muito mais interessados em derrotas do que em vitórias. As Copas sobre as quais mais se escreveu são as de 1950 e 1982, quando o Brasil perdeu tragicamente. Existem provavelmente mais páginas sobre a Copa de 1970 escritas em inglês do que em português! Eu também fui surpreendido pelo fato de que não exista uma biografia séria e definitiva sobre Pelé. E, em terceiro lugar, os brasileiros parecem muito mais interessados em escrever inesgotavelmente sobre rivalidades locais do que contar histórias épicas do esporte. O futebol é muito ‘bairrista’ e isso se reflete na literatura.” (Valor – Eu&Fim-de-Semana, 07/02/14).

A segunda crítica contumaz dos liberais-conservadores, naturalmente, incide sobre O Governo. Este é o desaguadouro de tudo que lhe importuna no dia-a-dia. No viés heurístico da autovalidação, os “culpados” pelas mazelas pessoais são sempre “os outros”. Quanto a eventuais sucessos, lógico, é claro que é o próprio sujeito! Então, desde o caráter imoral dos “outros”,  em País que “todos (exceto si próprio) são corruptos”, até a amoralidade particular de O Político, o pior representante de O Brasileiro, que está lá, obviamente, por culpa dos outros, pois ele próprio ou abomina A Política ou votou em… ah, sei lá!

Mas quem é O Governo? É uma entidade cuja existência é considerada à parte, independentemente dos atributos de qualquer coisa. É um único ser humano, ente, indivíduo?! Pela maneira que é tratado de maneira vulgar, parece que é tudo o que tem existência, tudo o que existe, na realidade ou na ficção!

A Presidenta pode ter qualidade excepcional, ter demonstrado que é uma pessoa de grande valor, de suma importância, mas ao cronista direitista e seus epígonos, ela personifica uma instituição, uma sociedade, enfim, a realidade total do ser individual: O Governo. Esta entidade mística, unificada (mesmo em heterogênea coalizão-presidencialista), é tratado como ser espiritual objeto de culto à esquerda e ódio à direita – ou vice-versa, em eventual alternância de poder.

A inteligibilidade dos sistemas complexos, como um Povo, uma Nação, um Estado, nunca é imediata. Há o que aparece imediatamente na superfície, afeito às observações pseudomoralistas dos inconsequentes quanto ao abuso das liberdades democráticas, mas há também a própria estrutura que se encontra subjacente ou “escondida”, cujos nexos internos devem ser investigados e refletidos. Esta estrutura está, inerentemente, formada por relações de oposição entre elementos ou grupos de elementos, cujas resultantes causais constituem as propriedades desses sistemas. Enfim, não cabe o reducionismo no tratamento de O Brasileiro, O Mercado e O Governo.

Deus me fez um cara fraco,

Desdentado e feio
Pele e osso simplesmente,
Quase sem recheio

Mas se alguém me desafia
E bota a mãe no meio
Dou pernada a três por quatro
E nem me despenteio

Que eu já tô de saco cheio

Refrão (1x)

Deus me deu mão de veludo
Prá fazer carícia
Deus me deu muita saudade
E muita preguiça

Deus me deu perna cumprida
E muita malícia
Prá correr atrás de bola
E fugir da polícia

Um dia ainda sou notícia

Refrão

Jesus Cristo ainda me paga,
Um dia ainda me explica
Como é que pôs no mundo
Essa pouca titica

Fonte: Chico Buarque, Partido Alto

4 thoughts on “O Brasileiro, O Mercado e O Governo

  1. Prezado Fernando,
    morro de rir quanto leio as suas sátiras, ainda mais quando entra Deus no meio, esse ser que não existe e que todo mundo acredita; por falar nisso, talvez seja essa a falta de percepção dos brasileiros, acreditam demais nos inexistentes, enquanto os existentes deitam e rolam nos bastidores de “O Brasileiro”, “O Mercado”, “O Povo”.
    Até hoje nunca vi um professor dizer para seus alunos: “Deus não Existe”, a resposta contundente é sempre dizer: “Amém”. Abs.

    1. Prezado Reinaldo,
      ou dizem “deus me acuda”, “creio em deus-padre”, esconjuro, conjuro, desconjuro, vade retro, afaste de mim esse demônio e os espíritos maus por meio de exorcismo, jogando água benta para esconjurar os ares maléficos desse ambiente ateu, ou fazem-no desaparecer por meio de prece, reza, promessa, ou lançam maldição sobre o ateu, amaldiçoam-no, renegam-no, etc. etc. 🙂
      abs
      PS: as coisas melhoraram um pouco desde a Inquisição, né?

  2. Caros,

    Pinçando um parte do vídeo de Rory Sutherland: Perspective is everything (http://www.ted.com/talks/rory_sutherland_perspective_is_everything.html), que creio vale uma leitura.

    Ele diz da metade para o final,

    (…) Ludwig von Mises é meu herói,…, que cresceu ao lado de Freud em Viena no início do século XX, …, e por isso eram interessados em psicologia, estudavam uma disciplina chamada praxiologia, que era uma disciplina prioritária antes dos estudos de economia, praxiologia é o estudo da escolha humana, sobre ações e tomada de decisão. Eu acho que eles estavam certo. Penso que o perigo que corremos no mundo atual, é que temos o estudo de economia sendo uma disciplina anterior ao estudo da psicologia humana. Mas Charlie Munger diz,, se a economia não é estudo de comportamento humano, eu não sei que diabo é,…, a economia é apenas uma parte da psicologia”

    Creio que o erro histórico da Economia de meados do século XX, de ao mesmo tempo, rejeitar ser uma ciência social, e querer se tornar uma disciplina científica, seguindo os axiomas da física (a questão da “precisão”), vem bem antes do que eu pensava, talvez, para citar algo recente, venha desde que E. Kant baseou seus estudo na ciência da certeza de Newton, partiu dele. assim como a ciência social se desenvolveu achando que era uma ciência “menor’ que deveria respeitar o status quo das ciência “maiores’ (mais precisas). como à física.

    A questão do “Deus Mercado” hoje, é a mesma da questão do “Deus ciência” de alguns séculos e ainda hoje, de se tornar o verdadeiro “porta voz” da sociedade, de ocupar o lugar das religião de outrora.
    E a história da inovação nas civilizações, desde longa data – milênios-, é que, sempre que alguém vem com uma ideia nova, é massacrado pelo convencional wisdom da sociedade, mesmo a científica, são infindáveis casos ao longo de nossa história humana milenar.

    Como disse Miguel de Unamuno na primeira metade do século XX, e Thomas Kuhn em meados do século XX,

    “As variações da ciência dependem das variações das
    necessidades humanas, e os homens de ciência costumam
    trabalhar, quer queiram, quer não, consciente ou
    inconscientemente, a serviço dos poderosos ou do povo, que
    lhes pedem confirmação de suas aspirações.”
    “O conhecimento está a serviço da necessidade de viver… E
    essa necessidade criou no homem os órgãos do conhecimento…
    O homem vê, ouve, apalpa, saboreia e cheira aquilo que precisa
    ver, ouvir, apalpar, saborear ou cheirar … Os parasitas que, nas
    entranhas dos outros animais, vivem dos sucos nutritivos por
    estes preparados, como não precisam de ouvir ou ver, não
    ouvem nem vêem … Para estes parasitas não deve existir nem o
    mundo visual nem o mundo sonoro.”
    Rubem Alves – Filosofia da Ciência pág. 150

    Thomas S. Kuhn, autor do livro A Estrutura das Revoluções Cientificas,
    alega que o critério de falsificabilidade não passa de um mito que não
    encontra corroboração alguma na história. Ao contrário, é constantemente por
    ela refutado. Diz ele:
    “Nenhum processo já revelado pelo estudo da história do desenvolvimento
    científico se parece, nem de longe, com o estereótipo da falsificação pela
    comparação direta com a natureza” (Thomas S. Kuhn, op. cit., p. 139).
    Rubem Alves – Filosofia da Ciência pág. 155

    A aposta de Pascal à 4 séculos, continua válida, ‘se Deus não existe, não tenha nada a perder, se deus existe eu só tenho a ganhar, o tempo passa, mas nossos comportamentos continuam enraizados e carregados de ciência da certeza, determinista, mecanicista e cartesiana.
    Como nos diz Alfredo Bosi, as raízes culturais do culto do humano e pré–humano, segundo a a arqueologia e antropologia datam de 80 mil anos.
    É o mito de achar que a ciência, principalmente nas últimas décadas, desde que a bomba atômica e a chegada a lua, o mito de que a ciência vai resolver todos os problemas humanos, não vai, pode e deve ajudar.

    E la nave va
    Sds,

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