Preços Relativos Equilibram O Livre-Mercado

Léon Walras

Cristiano Romero é editor-executivo do Valor. Publicou coluna (Valor, 08/01/14) reportando um modelo do IBRE-RGV-RJ, onde, de acordo com a tradição neowalrasiana, só se atenta para os preços relativos. Os economistas neoclássicos, evidentemente, não fazem uma abordagem estruturalista da inflação, onde considerariam não só a diversidade da estrutura produtiva brasileira como também a elasticidade da demanda externa por produtos de exportação brasileiros. Com uma ótica estático-comparativa, não observam a dinâmica — variações ao longo do tempo — dos preços, verificando a defasagem da causa-e-efeito da maxi-depreciação da moeda nacional. Confira abaixo.

“A economia brasileira vive um aparente paradoxo: mesmo com forte desvalorização do real desde meados de 2011, o déficit em transações correntes quase dobrou. Com o real mais fraco, o normal seria os bens produzidos aqui ganharem competitividade e o país exportar mais e importar menos. Não foi o que ocorreu.

Em termos nominais, o real sofreu desvalorização, frente ao dólar americano, de 46% no período mencionado. [Melhor diagnosticando, houve uma maxi-depreciação da moeda nacional pelas forças do mercado de câmbio global.] Em termos reais (descontada a inflação), também perdeu bastante valor. Tomando-se a medida clássica – a diferença entre o CPI (a inflação ao consumidor dos EUA) e a inflação brasileira medida pelo IPCA -, a depreciação real verificada desde meados de 2011 chegou a 28%. Em outra medida, que leva em conta uma cesta de moedas dos principais parceiros comerciais do Brasil, a desvalorização foi de 27%.

Aqui, cabe um parêntese. Pelo fato de o país ter uma inflação bem mais alta que a das nações ricas (na média, quase 3,5 vezes) e a dos principais emergentes (o dobro), a vantagem que uma taxa de câmbio depreciada representa, em termos de competitividade, é bem menor do que seria se tivéssemos preços mais comportados. Em outras palavras, não adianta dar câmbio ao exportador com uma mão e tirar com a outra (inflação).

[FNC: Não?! Para afirmar isso teria de avaliar os mecanismos financeiros defensivos do poder aquisitivo dos exportadores. Eles recebem maior valor em reais e sabem defendê-los, quando não atrasam a conversão cambial ou aplicam lá fora.]

O fato é que, mesmo com significativa desvalorização da moeda brasileira, o déficit em conta corrente saltou de 2,1% do PIB em 2011 para 3,66% do PIB nos 12 meses concluídos em novembro [de 2013]. O que pode explicar esse fenômeno?

Os economistas do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas, tentam achar uma resposta a partir do cálculo do “câmbio interno“. Trata-se de uma medida de câmbio real que reflete a relação entre os preços dos bens comercializáveis internacionalmente (“tradables“) e os de bens não comercializáveis (“non tradables“). Essa relação mostra a capacidade do país de exportar e de produzir domesticamente produtos que concorram com bens importados.

Quando os preços dos “tradables” são maiores que os dos “non tradables”, a demanda doméstica por esses produtos cai; com o aumento da lucratividade em função de preços mais altos, a oferta dessas mercadorias tende a aumentar, incentivando o investimento e a produção. Isso afeta positivamente o balanço comercial porque a economia tende a produzir mais e a consumir menos “tradables”. A consequência é o incremento das exportações e a redução do déficit em conta corrente.

[FNC: Que elegante “automatismo” sem consideração de contratos, rigidezes, defasagens, etc.!]

Entre 2011 e 2013, mesmo com toda a desvalorização do real, houve um encarecimento dos “non tradables” em relação aos “tradables”. Pelos cálculos do Ibre, o “câmbio interno”, medido pela razão entre a inflação dessas duas categorias de bens, sofreu apreciação de 6%.

A inflação acumulada em 12 meses dos bens comercializáveis recuou de 6,87% em dezembro de 2010 para 6,20% em novembro de 2013. No mesmo período, a inflação dos “non tradables” (serviços, por exemplo) saltou de 7,28% para 8,29%. “Constata-se, portanto, ausência de ajuste dos preços relativos. E a ‘valorização interna’ prosseguiu. Não é de surpreender que nenhuma correção do balanço comercial ou das contas correntes tenha se produzido e que, pelo contrário, ambos os indicadores tenham continuado a se deteriorar”, diz Luiz Guilherme Schymura, diretor do Ibre.

O que teria provocado esse descompasso entre câmbio “externo” e “interno”? A resposta [ideológica e não-científica] está nas escolhas políticas do governo. O pessoal do Ibre acredita em três possibilidades.

A primeira é o mercado de trabalho extremamente apertado por razões demográficas e de oferta de mão de obra, que mantém os preços dos serviços pressionados.

Aqui, cabe outro parêntese: em boa medida, o mercado de trabalho está apertado graças à política de correção do salário mínimo adotada pelo governo. A sistemática, que dá a inflação do ano anterior, acrescida da variação do PIB de dois anos antes, tem assegurado ganhos reais ao salário mínimo — e a todos os rendimentos atrelados formal ou informalmente a ele – superiores ao avanço da produtividade da economia. Isso estimulou o setor de serviços, que tem subtraído empregos da indústria, encarecendo a mão de obra de um modo geral.

[Espanto! Operários se transformam em manicures, cabeleiras, domésticas e atendentes de telemarketing! Aqui, no Brasil, esquecendo-se que homens são de Marte e mulheres são de Vênus!]

A segunda explicação está nos estímulos tributários concedidos pelo governo ao consumo de produtos “tradables“, como automóveis e eletrodomésticos. Ao baratear os preços desses bens, os incentivos produziram resultados contrários aos que uma desvalorização cambial provocaria nos preços relativos.

[Deixaram de atender o mercado externo para focalizar apenas o interno por causa disso?! Os neoliberais não estudam a estratégia de comércio internacional intra-firmas da indústria automobilística e eletrônica mundial, além de tomarem conhecimento da queda da demanda por automóveis e eletrônicos em outros países.]

A terceira hipótese estaria na política de preços dos combustíveis. Como se sabe, o governo tem impedido a Petrobras de corrigir os preços domésticos com base na variação internacional dos preços do petróleo e de seus derivados. O objetivo é conter essa fonte de pressão inflacionária para evitar que o Banco Central opere com taxas de juros mais altas.

[Sempre, em última análise neoliberal, o culpado é O Governo e não O Mercado…]

Na prática, o controle dos preços dos combustíveis diminui o repasse (“pass through“, na linguagem dos economistas) da desvalorização do real para os preços domésticos. Isso ocorre diretamente (no caso dos combustíveis, que têm peso relevante na inflação) e indiretamente (por meio da contenção dos custos de transporte de mercadorias).

O Ibre estima que metade do efeito da desvalorização cambial sobre preços relativos é neutralizada pela repressão do repasse dos preços internacionais aos combustíveis vendidos dentro do Brasil. O problema é agravado pelas dificuldades da Petrobras, que vem produzindo menos petróleo e importado mais combustíveis – do déficit em conta corrente de 3,66% do PIB, 1% do PIB (US$ 20 bilhões) corresponde ao déficit de combustíveis.

[Mistura “alhos com bugalhos”: o controle de preços domésticos não deve ser relacionado com a queda de produção e exportação de petróleo.]

“É fácil perceber que um país que consome e importa, cada vez mais, combustíveis a preços sistematicamente inferiores aos do mercado internacional, inevitavelmente estimula a piora de sua balança comercial. Da mesma forma, um país que consome cada vez mais veículos, em função de estímulos tributários, também piora sua balança por importar mais e ter menos excedentes exportáveis”, diz Schymura, que tratará do tema na próxima Carta do Ibre.

Schymura alerta que, na ausência de um ajuste de preços relativos, o déficit em conta corrente dificilmente cederá de forma significativa. O risco é isso alimentar desequilíbrios que, mais adiante, poderão ser corrigidos de forma abrupta.”

Conclusão: Os economistas do IBRE-FGV-RJ mantém-se firmes na defesa do equilíbrio geral dos preços relativos, tal como o sujeito da imagem acima: León Walras (1834-1910)

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