Concepção Marxista da História

Urbanização e número de habitantes no Brasil

O economista historicista busca sempre contar histórias, adotando um método de teorizar que junta alguns fatos, generalizações de baixo nível de abstração e teorias de alto nível abstrato. Então, ele adiciona ainda algumas pitadas de julgamentos de valor em uma narrativa misturada que imagina ser coerente.

O desafio para muitos economistas é explicar como se supera (ou superou-se) o atraso histórico de países de “capitalismo tardio”. Alguns já respondem à questão de acordo com a própria definição deste: é aquele que se industrializou na fase monopolista do capitalismo dos países de industrialização originária (Inglaterra) e de industrialização retardatária (Estados Unidos, Alemanha e Japão). Então, o caminho único e inevitável, destino da humanidade, seria a industrialização.

É uma visão parcial e determinista do futuro que predomina ainda na mente de muitos economistas desenvolvimentistas. O anti-rentismo leva ao esquecimento de que, conjuntamente com o capitalismo industrial, há a necessidade da plena implantação do capitalismo financeiro, para se alcançar certa autonomia relativa. Isto sem falar na dificuldade de se obter autonomia tecnológica. O país atrasado torna-se também dependente tecnologicamente do capital estrangeiro.

O que acontece na história é o resultado da ação humana, mas não a execução de algum plano humano” disse Adam Ferguson, filósofo escocês, em 1793, naturalmente sob o impacto da Revolução Inglesa (1642-1688), da Norte-americana (1776) e da Francesa (1789). Isso foi dito antes dos planos de ação coletiva dos socialistas, surgidos no século seguinte, e muito antes do sucesso da Revolução Soviética em 1917 e da Revolução Chinesa em 1949.

Desde então, a ideia de “tomar as rédeas da história” e reorientá-la de acordo com “soluções que atendem objetivos superiores” dominou “corações e mentes” da esquerda ou de nacionalistas que desejavam “dar salto de etapas históricas” em seus países. Brotou a incapacidade de “entender o futuro como história”, isto é, como resultante de uma pluralidade de ações, especialmente nas áreas financeira e tecnológica, e não só do processo de industrialização.

A cadeia lógica das transformações econômicas se prolonga em direção ao futuro. Sendo assim, o presente deve ser entendido como história e o futuro também. Todas as opções e decisões que impliquem em mudança de rota histórica, que procurem novos caminhos para a história, só ganham existência real na medida em que são formuladas e socialmente reconhecidas como próprias de um “sujeito revolucionário” (partido político, grupo ideológico, classe social) que tenha inserção no sistema, força, influência, e capacidade de liderança de ação coletiva, isto é, de fazer política. Pode então tomar o Poder, seja através de um golpe de Estado, seja via eleitoral em um regime democrático.

“Só completaram o difícil trajeto que vai do papel à realidade aqueles programas e proposições sugeridos pelas próprias dificuldades encontradas pelo sistema econômico em evolução”. Meu ex-professor Antônio Barros de Castro escreveu isso na Introdução de seu livro “7 ensaios sobre a economia brasileira” (RJ, Forense, 1969. p. 13.). Era uma reflexão crítica à “razão iluminista” de muitos intelectuais brasileiros que faziam uma análise histórica parcial dos problemas socioeconômicos e daí, sem nenhuma coerência lógica e viabilidade política, propunham uma total ruptura com o que veio do passado até o presente com um “Plano Brasil” para o futuro. Este era apenas baseado na pretensa sabedoria teórico-técnica superior. Nunca convenceram a nenhum sujeito coletivo…

O momento em que se colocam essas opções de mudança de rota também é chave. A resistência à introdução de mudanças é mais tênue nas encruzilhadas históricas. Estas são atingidas somente quando a evolução histórica cruza os problemas sociais com os problemas econômicos. Os problemas sociais não impedem a expansão econômica do sistema capitalista. Porém, suas resoluções dão maior sustentabilidade ao seu crescimento.

A partir da razão pura, os adeptos Método Dedutivo-Lógico deixam-se dominar pelo “vício ricardiano” e propõem, diretamente da Ciência Abstrata, uma Economia Normativa: o que deveria ser”. Os adeptos neoclássicos pregam um equilíbrio geral dos preços relativos. Os marxistas não se afastam de sua metodologia dialética ao pregar que “o que deveria ser é a Revolução Socialista aqui e agora”?!

A visão de O Todo é necessária para enxergar e encaminhar uma solução a um problema. Hegel dizia que “a verdade é O Todo”. Não o enxergando, pode-se atribuir valores exagerados a verdades limitadas, prejudicando a compreensão de uma verdade geral. Esta é sempre provisória, nunca é uma verdade definitiva e acabada, caso contrário a dialética estaria negando a si própria.

Nunca se tem a certeza que está se trabalhando com a totalidade correta. Porém, a teoria dialética chama a atenção para as sínteses, identificando as contradições concretas e as mediações específicas que constituem os elementos componentes de cada totalidade complexa. Os conflitos entre opostos são reconhecidos pela dialética como o princípio básico do movimento do sistema complexo.

Karl Marx e Engels defenderam o caráter materialista da dialética. Engels resumiu a dialética em três leis. A primeira lei é sobre a passagem da quantidade à qualidade, mas que varia no ritmo e/ou no período. A segunda é a lei da interpenetração dos contrários, ou seja, a ideia de que tudo tem a ver com tudo; os lados que se opõem são, na verdade, uma unidade, na qual um dos lados prevalece. A terceira lei é a negação da negação, na qual a negação e a afirmação são superadas. Porém, a dialética não se deixa reduzir a essas três leis.

Lênin dizia ter aplicado esses conhecimentos na prática da estratégia da vanguarda que liderou a tomada do poder na Rússia. Esse não é o “mito-fundador” da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas? Esse salto de etapas entre modos de produção do feudalismo russo para o do socialismo realmente existente, totalitário e não utópico, não foi uma total deformação da concepção marxista da história?

O método dialético incita a rever o passado à luz do que está acontecendo no presente. Ele questiona o presente em nome do futuro, o que está sendo feito em nome do que “ainda não é” ou de “o que deveria ser”. Com isso não se abandona o Método Histórico-Indutivo? Não se esquece de praticar a Economia Positiva e, primeiro, detectar “o que é”? As pesquisas dos dados e fatos, fornecidos pela experiência sensível, não seriam os instrumentos adequados para a tentativa da descoberta da verdade? Será que os historiadores marxistas não passaram a investigar “o que deveria ter acontecido” em vez de “o que de fato aconteceu”?

O que poderia ter acontecido é o que, de fato, aconteceu. Esta é a conclusão inevitável de quem busca dar significado aos vestígios do passado a partir do presente.

No próximo post, farei um estudo-de-caso através da Interpretação Desenvolvimentista da História do Capitalismo Brasileiro.

2 thoughts on “Concepção Marxista da História

  1. Tenho apreciado muito essa sequencia de textos que tratam de método, fundamentais na formação de qualquer pessoa, economista ou não, que queira pensar a sociedade. Obrigado!

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