O Peso do Estado Na Pátria do Mercado: Os Estados Unidos como País em Desenvolvimento

Primeira Ferrovia Transcontinental em 1869

Eleonora Lucena (FSP, 22/02/14), como é habitual, resenhou um livro que parece ser recomendável ler. Confira abaixo.

“Países que buscam o desenvolvimento deveriam investigar a história dos EUA. Lá, foi o Estado o maior indutor de crescimento e inovação. A infraestrutura básica para o avanço — de ferrovias a universidades — partiu de políticas de governo e gastos públicos e não teria sido erguida só pela via das forças privadas.

Esse é o cerne de “O Peso do Estado na Pátria do Mercado, os Estados Unidos como País em Desenvolvimento“, lançado pela Editora Unesp. Seus autores, Reginaldo Carmello Correa de Moraes, doutor em Filosofia e professor da Unicamp, e Maitá de Paula e Silva, mestre em Ciência Política pela Unicamp, dão uma visão panorâmica do salto produtivo dos EUA nos últimos séculos.

Defendem que a situação dos EUA no século 19 “é bem próxima daquela vivida pelos países hoje descritos como subdesenvolvidos'”. Lembram o relato do economista alemão Georg Friedrich List (1789-1846), que, viajando pelo país naquela época, anotou a importância da intervenção estatal na construção nacional e na industrialização.

List afirmava que os países mais industrializados naquele tempo (a Inglaterra especialmente) tentavam esconder suas políticas de desenvolvimento. Da mesma forma, hoje virou senso comum ressaltar a centralidade da iniciativa privada no crescimento norte-americano. O livro vai contra essa corrente. Assim, faz ressalvas às observações do pensador francês Alexis de Tocqueville (1805-1859), que enfatizou a força da sociedade civil nos EUA.

Conferindo a literatura sobre o tema, Moraes e Silva constatam que o financiamento governamental sempre foi muito importante para boa parte das grandes associações e grupos de interesse nos EUA. Mais do que isso, afirmam que as agências oficiais se empenham na manutenção desses grupos organizados.

Voltando para o início da história norte-americana, os autores lembram que o novo poder em Washington possuía 80% das terras do país — 5 milhões de quilômetros quadrados, o equivalente a mais de meio Brasil. Esse ativo foi utilizado para estimular políticas de desenvolvimento.

Vendendo terras, o governo engordava o seu Orçamento e traçava diretrizes. Terrenos foram destinados a ferrovias e a escolas. Os Correios se transformaram no maior serviço estatal. Se naquele tempo se dizia que a Prússia era um exército que tinha um Estado, nos EUA, eram os Correios que tinham um Estado, tal o seu tamanho.

Moraes e Silva destacam que “boa parte da inversão nas ferrovias era, de fato, resultado de saques decididos contra fundos públicos (em particular das terras federais)”. O restante do capital “foi fornecido por outro tipo de saque — empréstimos que governos estaduais e locais faziam diretamente ou referendavam”.

Na educação, apesar de os EUA não contarem com universidades federais, os analistas da Unicamp assinalam que “o governo federal é, de fato, o motor e o modelador do sistema de ensino superior“. Se, no século 19, doou terras para as escolas, depois da Segunda Guerra Mundial criou um enorme programa de bolsas para veteranos, massificando a universidade como em nenhum outro país. Também no desenvolvimento da agricultura, as verbas oficiais foram vitais.

Nas décadas seguintes, as grandes universidades se transformaram em grandes centros de pesquisa (públicas e privadas) dependentes de demandas estatais, sobretudo em razão das encomendas do Departamento de Defesa, da Nasa e do Departamento de Energia.

Longe de ser exaustivo, o livro tem linguagem simples e serve de guia para leituras mais aprofundadas. Poderia ser mais detalhado e recheado de exemplos de empresas que floresceram graças ao Estado.

Seu mérito principal está em questionar ideias hegemônicas sobre as origens do desenvolvimento nos Estados Unidos. “Mais do que ouvir aquilo que dizem, convém estarmos atentos para o que fizeram e fazem”, aponta, com razão, a obra.

O PESO DO ESTADO NA PÁTRIA DO MERCADO, OS ESTADOS UNIDOS COMO PAÍS EM DESENVOLVIMENTO
AUTORES Reginaldo Carmello Correa De Moraes e Maitá de Paula e Silva
EDITORA Unesp
QUANTO R$ 23 (87 págs.)
AVALIAÇÃO Bom

4 thoughts on “O Peso do Estado Na Pátria do Mercado: Os Estados Unidos como País em Desenvolvimento

  1. Fernando mando pra você uma excelente tese do IE, com presença do Wilson Cano, inclusive. O autor é o NIcholas Trebat. Eu uso no meu curso.

  2. Fernando,
    Já mandei. Vou falar com o Nicholas e depois retorno sobre essa questão da divulgação.
    Abraço,
    Carlinhos

  3. Pingback: Economia no Cinema 2014 | Cidadania & Cultura

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