Medicina Ocidental na África

 

África-colonialismo-eua-europaA coincidência de altruísmo estrangeiro e exploração estrangeira não é nada nova na história africana. No século XIX, os europeus foram à África por motivos variados. Alguns estavam em busca de dinheiro, outros, de glória. Alguns foram para investir, outros, roubar. Alguns foram “salvar almas”, outros, “fincar raízes”. Quase todos, no entanto, estavam convencidos – assim como as agências humanitárias de hoje – de que os benefícios da civilização ocidental poderiam e deveriam ser concedidos ao “continente negro”.

Ferguson (2012: 180) examina, em seu quarto capítulo do livro Civilização: Ocidente X Oriente, o caso do “mais notável aplicativo do Ocidente”, o que teve a capacidade de duplicar a expectativa de vida humana: a medicina moderna. Por volta de 1800, a média mundial da expectativa de vida ao nascer era de apenas 28,5 anos. Dois séculos mais tarde, em 2001, havia mais que dobrado, passando a 66,6 anos.

As melhorias não se restringiram às metrópoles coloniais. Houve impacto mensurável da medicina ocidental sobre a expectativa de vida no período colonial e pós-colonial.

O momento da “transição da saúde” – quando começaram as melhorias contínuas na expectativa de vida – é bem claro. Na Europa Ocidental, ocorreu entre os anos 1770 e 1890, tendo início na Dinamarca, com a Espanha na retaguarda. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, o tifo e a cólera haviam sido efetivamente eliminados da Europa, em consequência de melhorias em saneamento e saúde pública, ao passo que a difteria e o tétano foram controlados com vacinas.

Nos 23 países asiáticos para os quais há informações disponíveis, com uma única exceção, a transição da saúde se deu entre os anos 1890 e 1950. Na África, ocorreu entre os anos 1920 e 1950, com apenas duas exceções entre os 43 países. “Em quase todos os países asiáticos e africanos, portanto, a expectativa de vida começou a melhorar antes do fim do governo colonial europeu. [?!] De fato, a taxa de melhoria na África diminuiu desde a Independência [De quais países?], sobretudo – mas não unicamente – por causa da epidemia de HIV/AIDS. Também é digno de nota que os países latino-americanos não se saem melhor, apesar de desfrutar de independência política desde o início do século XIX” (Ferguson; 2012: 182).

Expectativa de Vida Brasil X França

Expectativa de Vida 1900-2100Vale registrar que a expectativa de vida dos brasileiros de ambos os sexos ao nascer passou de 33 anos em 1900 para 74,6 anos em 2012. O ponto intermediário entre esses dois ocorreu em 1970 com 52,6 anos, ou seja, levou-se cerca de 70 anos para elevar em vinte anos e, depois, mais 42 anos para elevar mais vinte e dois. Entretanto, a transição para esse patamar bem próximo da esperança de vida nos países desenvolvidos foi mais rápido que os deles quando houve políticas públicas adequadas sob o controle do Estado brasileiro desenvolvimentista.

Na Grã-Bretanha, a expectativa de vida ao nascer em 1850 era de apenas 40 anos, em comparação com os atuais 75 anos. No século XIX, a expectativa de vida no Senegal ficava entre 20 e 25 anos. Portanto, a África seria o terreno de prova derradeiro para o quarto atributo da Civilização Ocidental: a capacidade da medicina moderna de prolongar a vida humana.

O momento de elevação na expectativa de vida quase sempre foi anterior à introdução de antibióticos, sobretudo a estreptomicina, como uma cura para a tuberculose, do inseticida DDT e de outras vacinas, além das simples para varíola e febre amarela, inventadas na Era Imperial. Os indícios apontam para melhorias contínuas em saúde pública em várias frentes, reduzindo a mortalidade por doenças causadas por contaminação fecal, malária e até mesmo tuberculose.

“Acontece que o repertório peculiarmente ameaçador de doenças tropicais na África [assim como no Brasil] despertou um esforço contínuo por parte dos cientistas e funcionários da saúde no Ocidente que não teria existido na ausência do imperialismo. (…) Essas vitórias não foram confinadas aos imperialistas; também beneficiaram seus súditos coloniais”. Esta defesa do imperialismo, realizada a posteriori por Niall Ferguson, soa antes de mais nada anacrônica.

O contra-argumento se apresenta quando compara sua visão com a de Jared Diamond, em Armas, Germes e Aço, que mostra como as conquistas dos imperialistas europeus, que avançavam do Sul da África para o Norte, interromperam-se quando se depararam com doenças tropicais a respeito das quais eles ainda desconheciam vacinas e/ou proteções naturais e ambientais como os nativos. As grandes epidemias grassaram quando esses nativos foram confinados em aglomerações urbanas pelos colonialistas europeus.

imperialismo 3Então, deduzo que o argumento de Ferguson de que “o esforço contínuo por parte dos cientistas e funcionários da saúde no Ocidente que não teria existido na ausência do imperialismo” necessita ser reparado. O correto seria dizer: sem o esforço contínuo por parte dos cientistas e funcionários da saúde no Ocidente não teria existido o imperialismo nas regiões tropicais da África. Os colonialistas não teriam conseguido se instalar no meio-ambiente tropical hostil. Um adversário letal – doença tropical – tornou grandes extensões de terra da África subsaariana praticamente inabitáveis para os europeus.

Quanto ao suposto altruísmo – “essas vitórias não foram confinadas aos imperialistas; também beneficiaram seus súditos coloniais” – é lógico que os nativos transformados em cativos ou criados tiveram que ser vacinados, sob pena das epidemias nas aglomerações humanas contaminarem também a elite branca! É verdade que Ferguson ressalta o lado obscuro da Ciência Médica de fins do século XIX e início do século XX com o combate pseudocientífico contra a ameaça ilusória da “degeneração racial”.

“Finalmente, em 1914, uma guerra entre os impérios rivais do Ocidente, denominada ‘a grande guerra pela civilização’, revelaria que a África não era, afinal, o continente mais negro do mundo” (Ferguson; 2012: 183). Esse “humor” não é politicamente correto. A etimologia de “negro” vem do latim niger,gra,grum com o significado de “negro, que tem a pele escura; sombrio, escuro, tenebroso”.

imperialismo-africa

 

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