Taxa de Poupança: Para Que Serve?

Taxa de Poupança

Padrão de Financiamento % do Total Padrão de Financiamento % do PIBInsisto que o conceito de Poupança deve ser jogado na “lata-de-lixo” da história do pensamento econômico! Ele designa uma variável contábil residual macroeconômica ex-post que não é objeto de decisões econômicas dos agentes econômicos. Aprendi o Paradoxo da Parcimônia e o Sofisma da Composição no meu primeiro dia de aula em Economia! Depois, aprendi que o conceito adequado para designar fontes de financiamento do investimento em longo prazo é o de funding, isto é, a composição passiva que permite o alongamento do perfil da dívida corporativa. Mas a “sabedoria convencional”, inclusive de pós-keynesianos (confira abaixo), continua a argumentar que “Poupança é imprescindível para o financiamento do Investimento”! Isto mesmo durante esse período em que a “Taxa de Poupança” (veja acima) caiu e o crédito total do sistema financeiro atingiu R$ 2.717 bilhões, em janeiro de 2014, com a relação crédito/PIB alcançando 56,1% — era 22,8% do PIB em 2002. Então, para que serve esse conceito de Poupança?

Denise Neumann (Valor, 05/03/14) avalia que “a perda de rentabilidade das empresas nos últimos anos, que reduziu o volume de lucros a serem retidos, pode estar influenciando a queda da taxa de poupança da economia brasileira“. Depois de alcançar 18,8% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2008, a taxa de poupança recuou quase todos os anos, até atingir 13,9% no ano passado, quando o Brasil consumiu 84,5% de toda a riqueza gerada pela economia. No mesmo período, o investimento ficou quase estável, mas também em desaceleração. A taxa passou de 19,1% do PIB em 2008 para 18,4% em 2013, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Historicamente, o setor público tem respondido pela “despoupança” do país, ou seja, gasta mais do que arrecada e reduz a economia total. Em 2009, último dado aberto disponível (ele é calculado pelo IBGE, mas só é divulgado com o dado definitivo do PIB de cada ano), o setor privado (empresas e famílias) economizou o equivalente a 17,7% do PIB, enquanto o setor público “despoupou” 2,2%, levando a taxa bruta de poupança do país para 15,5% do PIB.

Como o nível de poupança do setor público tem oscilado, mas não mudou muito de patamar desde então, pesquisadores do Centro de Estudos do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Cemec/Ibmec) levantam a possibilidade de que a recente queda da taxa de poupança está relacionada à perda de rentabilidade do setor privado. Com lucros menores, sobra menos para poupar.

Como os dados oficiais do IBGE sobre a composição da taxa de poupança pararam em 2009 (o instituto está fazendo uma revisão na metodologia das contas nacionais e os dados definitivos de 2010 a 2012 devem ser divulgados no fim deste ano), a equipe do Cemec utilizou outras fontes de dados para estimar o comportamento da poupança pública, das famílias e das empresas, explica Carlos Antonio Rocca, diretor do Cemec, e um dos autores do estudo.

As estimativas – com base em balanços de companhias abertas, demonstrativos de grupos fechados, informações do Banco Central, dados do Tesouro Nacional e de carga tributária – apontam que a taxa de poupança privada, após alcançar média de 18,7% do PIB de 2000 a 2011 (percentual mantido em 2011), cai para 15,8% nos 12 meses terminados em junho de 2013 (os dados ainda não foram atualizados para o fim do ano). No mesmo período, a taxa de poupança pública passa de menos 2,4% do PIB, em média, para 1,5% do produto em meados do ano passado, percentual já atingido em 2011.

“O indicador do setor publico é historicamente negativo, mas ele não caiu de patamar nos dois últimos anos”, diz Rocca, acrescentando que a capacidade de poupar das empresas foi afetada nesse período. Segundo dados compilados pelo Cemec, em 2011, as empresas não financeiras pouparam o equivalente a 10,8% do PIB, percentual que caiu para 8,8% em 2012. No mesmo período, a parcela dos lucros retidos passou de 3% para 1,9% do PIB. Esse grupo representa cerca de 50% da poupança do setor privado brasileiro.

O professor de economia e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), Samuel Pessoa, considera que também há um componente de aumento do déficit público (que se reflete em menor economia) por trás da queda da taxa de poupança. Na parcela das famílias, diz ele, apesar da redução da taxa básica de juros e das medidas de estímulo ao consumo, não deve ter ocorrido mudança expressiva nos últimos anos. O peso das famílias na taxa de poupança tem oscilado perto de 4,5% do PIB.

“A forte redução do crescimento econômico dos últimos anos e o aumento da intervenção do governo em setores importantes, como o elétrico e o bancário e na operação da Petrobras, afetaram a geração de renda no setor privado, com consequente perda de rentabilidade”, observa Pessoa, concordando com a tese do Cemec. “Geração de poupança nas empresas é basicamente retenção de lucros”, diz, acrescentando que se a queda na taxa de poupança estiver mesmo sendo “liderada” pelo setor privado, terá consequências ainda piores sobre a taxa de investimento.

O professor Fernando José Cardim de Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lembra que a queda na taxa de poupança doméstica está associada ao crescimento do déficit de transações correntes. Na série do PIB, a necessidade líquida de financiamento externo chegou a 4% no ano passado, ou R$ 195,5 bilhões. Depois de gerar um PIB de R$ 4,8 trilhões em 2013, consumir R$ 4 trilhões e poupar R$ 674 bilhões (para investir R$ 872 bilhões) esse foi o volume necessário de recursos do exterior para fechar a contabilidade nacional.

Para Cardim, a poupança doméstica está pagando o preço do desajuste provocado na economia pelos anos de sobrevalorização cambial. Mesmo que o câmbio hoje esteja com uma taxa menos apreciada (ele não entra na discussão de qual a taxa ideal), leva tempo para ocorrer uma reação da balança comercial depois que o país perde um mercado exportador.

Cardim não acredita, contudo, que o aumento do déficit externo vai levar a uma queda no investimento. O investimento precisa, diz ele, que o governo não use sua capacidade de investir para fazer ajuste fiscal, que sejam desenvolvidas fontes privadas para sustentar projetos de longo prazo e que o câmbio, entre outras variáveis, garanta lucratividade para o setor privado. “Isso vai atrair mais investimentos e, com o crescimento de renda que isso deve induzir, mais poupança doméstica”, diz ele.

FNC:

O problema de investigação de “Poupança”, baseada nas Contas Nacionais, é que muitos economistas ortodoxos não se atentam para a precariedade das suas informações. O viés metodológico condiciona as análises realizadas a partir delas, caso o analista não esteja atento ao limites dessas proxies. A aproximação da realidade propiciada por elas é imperfeita, constituindo um indicador precário do financiamento do investimento no Brasil.

As estimativas da Poupança Privada e da Formação Bruta de Capital Fixo do Setor Privado são variáveis residuais. No entanto, essas definições contábeis são esquecidas quando o economista ortodoxo imputa nelas decisões cruciais.

Poupança 2000-2011

Metodologia de cálculo do CEMEC:

Poupança Externa: de 1970 a 1994: dada pelo déficit em conta corrente do balanço de pagamentos convertido para reais pela taxa de câmbio média do ano; de 1995 a 2011: Contas Nacionais IBGE.

Poupança Bruta Doméstica Total: de 1970 a 1994: dada pela diferença entre investimento e poupança externa; de 1995 a 2012 (1º Trim.): dado do IBGE.

Poupança da Administração Pública: de 1970 a 1980 (inclusive) adotou-se o dado de Fabio Giambiagi et alli em “Economia Brasileira Contemporânea”, ed. Campus, tabela A14; de 1981 a 1999 adotou-se a fórmula: FBCF das Administrações Públicas – Necessidades de Financiamento do Governo Central e Estados e Municípios no conceito operacional; de 2000 a 2009, os valores foram calculados pelo IBGE nas Contas Econômicas Integradas; anos de 2010 a 2012 (1º Trimestre): projetados pela regressão entre (FBCF das Administrações Públicas – Necessidades de Financiamento do Governo Central e Estados e Municípios no conceito nominal) e poupança das Administrações Públicas das Contas Nacionais no período 2000 a 2009.

Poupança Privada: De 1970 a 1990 e 2010 a 2012 (1º Trimestre): diferença entre poupança doméstica total e poupança das adm. Públicas; de 2000 a 2009: os valores foram calculados pelo IBGE nas Contas Econômicas Integradas.

Formação Bruta de Capital Fixo das Administrações Públicas: De 1970 a 2009: calculado pelo IBGE; de 2010 a 2012 (1º Trimestre): o CEMEC projetou os investimentos das Administrações Públicas de 2010 a 2012 (acumulado móvel anual encerrado no 3º trimestre). Optou por correlacionar os desembolsos ordinários de Custeio e Investimento da Execução Financeira do Tesouro Nacional como proxy dos investimentos das Administrações Públicas.

Formação Bruta de Capital Fixo do Setor Privado: dado pela diferença entre FBCF total e FBCF das Administrações Públicas.

Economista ortodoxo, quando pesquisa a respeito de financiamento interno em longo prazo, busca como fonte-básica o Sistema de Contas Nacionais, adotado uniformemente sob convenção internacional. Os agregados keynesianos são seus fundamentos.  Teoricamente, a Renda Nacional Disponível Bruta expressa a renda disponível da Nação para Consumo Final e para Poupança. É igual a RNB mais as outras transferências correntes líquidas, recebidas do exterior. A Poupança Bruta é igual à Renda Nacional Disponível Bruta menos o Consumo Final. Somente se a realização de Pesquisas de Orçamento Familiar (POFs) fosse anual, haveria informações apuradas para as Contas Nacionais calcularem o Consumo das famílias. Mas como as POFs são caras e raras (praticamente decenais), o Consumo Final não é dado disponível a cada ano. A Poupança Bruta pode então ser estimada porque é, também, igual à formação bruta de capital fixo mais a variação de estoques mais a variação de ativos, líquida de passivos financeiros. Logo, a Capacidade/Necessidade Líquida de Financiamento é igual à poupança bruta mais as transferências de capital líquidas a receber do exterior menos a formação bruta de capital fixo menos a variação de estoques.

Com a metodologia adotada, por definição, dado o investimento e/ou a poupança total, elevando-se o déficit no balanço de transações correntes, por exemplo, em razão de câmbio defasado, déficit do balanço comercial, crescimento de viagens internacionais, despesas com fretes, remessas de lucros e dividendos, pagamento de juros internacionais, etc., vai se obter queda da “poupança interna”. Como o déficit público (“despoupança governamental”) é a outra informação mensalmente disponível, alcança-se por diferença a “poupança privada”. Evidentemente, ela não é resultado de decisões privadas de abstenção de consumo!

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