Um Sonho Intenso

Um Sonho Intenso

Um sonho intenso é o novo documentário de José Mariani, que dirigiu em 2006 o doc “O longo amanhecer – cinebiografia de Celso Furtado”.

Desta vez José Mariani traça um panorama da economia brasileira desde meados do século 20, com fantásticas imagens de arquivo e atuais e comentários de economistas e historiadores.

O cineasta José Mariani já realizara um documentário exemplar – ” O longo amanhecer-cine biografia de Celso Furtado” – menção honrosa no festival É tudo verdade, de 2007.

Como um tema tão árido como economia podia se transformar em um filme agradável, instigante e ao mesmo tempo muito claro e denso ?

Pois Mariani mostrou que é possível, sim, e volta à carga neste ano de  2014  com um novo documentário – “Um sonho intenso” – que retoma por um outro viés a temática do desenvolvimentismo, tônica do primeiro trabalho.

“Este documentário de certa forma é um desdobramento daquele sobre o Celso Furtado. Só que desta vez o protagonista é o processo,  uma visão de história que inclui a história social, cultural, econômica, uma forma de ver a economia de modo orgânico” explica o diretor José Mariani.

Vale dizer que “Um sonho intenso” foi igualmente selecionado para o Festival É tudo verdade, e será exibido na mostra “O estado das coisas”, horários a serem conferidos abaixo.

Para fazer este novo documentário Mariani recorreu a vários personagens: à nata dos pensadores da economia brasileira, mas também a historiadores e sociólogos, que nos oferecem uma história comentada do desenvolvimento socioeconômico de 1930 até os dias atuais.

“O que é o Brasil, o que é ser brasileiro?” pergunta no inicio do documentário o economista Carlos Lessa.” O que o Brasil tem de paradigmas para mostrar para o resto do mundo?”

 

No decorrer dos inúmeros depoimentos e análises, todos estes “personagens” – Maria da Conceição Tavares, Carlos Lessa, Celso Amorim, Francisco de Oliveira, João Manuel Cardoso de Melo, Luiz Gonzaga Belluzzo, Ricardo Bielschowsky, José Murilo de Carvalho, Lena Lavinas, entre outros vão tecendo interpretações sobre a persistência do subdesenvolvimento brasileiro ao lado dos avanços alcançados.

 

“E aí podemos  nos surpreender por uma visão menos preconceituosa – e mais moderna – do primeiro período da era Vargas, bem como por uma visão contemporânea do desenvolvimentismo do período JK, um período muito alegre, estimulante, com a bossa nova, a construção de Brasília, a marcha para o oeste”, nos dizeres da economista Maria da Conceição Tavares.

 

Não escapam as análises sobre o governo Goulart e uma profunda reflexão sobre os anos da ditadura e todo o seu processo do ponto de vista econômico, uma análise de seus atores,  tanto militares quanto civis, as estatizações, os planos nacionais de desenvolvimento, que, segundo Carlos Lessa, “eram uma versão hiper autoritária da proposta de desenvolvimento industrial do passado”.

 

De qualquer modo a opinião de todos estes cientistas é que se manteve sempre os dois Brasis: o do sudeste e o do norte e nordeste, como chama a atenção a economista Maria da Conceição Tavares. “Não aconteceu nada com a miséria real. O país reproduzia o subdesenvolvimento à medida que o país se desenvolvia, pois este desenvolvimento era voltado para as classes médias”.

 

A “diretas já”, a inimaginável tragédia de Tancredo Neves, o governo Sarney e seus sucessivos planos que vão por água abaixo, a inflação galopante, tudo passa pelo pente fino de nossos economistas e historiadores. O desastre Collor e os poucos pontos positivos do governo Itamar, cuja única vitória foi de sustentar o plano real e conseguir conter a inflação.

As privatizações de Fernando Henrique Cardoso, “fruto de um vagalhão neoliberal, que não serviram para nada” nos dizeres de João Manuel Cardoso de Melo, e que, para Carlos Lessa, “acabaram com o projeto de soberania nacional”.

E finalmente análises consistentes dos dois mandatos de Lula, que segundo Carlos Lessa, “teve a felicidade de puxar os de baixo para cima e integrar estas pessoas ao mercado de consumo e ao mercado de crédito” e que assim se interroga no final do documentário: “Nós vivemos a armadilha do pensamento econômico… é razoável explicar o presente mas é extremamente difícil pensar o futuro”.

Eleonora Lucena (FSP, 06/08/14) resenhou o filme:

1. A elite econômica conservadora e os militares não aceitaram que o país fizesse mudanças para melhorar a distribuição de renda e ampliar o mercado interno. As reformas de base de João Goulart tinham o sentido de aprofundar o capitalismo; nada tinham de revolução socialista.

2. Os militares acabaram com o controle de capitais, que nunca mais voltou. Isso é perturbador porque turbulências internacionais geram sistematicamente uma crise no balanço de pagamentos.

3. O “milagre econômico” da ditadura foi perverso, pois concentrou renda, estimulando o consumo da classe média e das elites. O desenvolvimentismo dos militares foi também resposta à derrota que o regime sofreu nas eleições ao Senado em 1974.

4. A enorme estatização promovida pelos militares provocou reação dos empresários, que passaram a defender a volta da democracia e a procurar os economistas de esquerda da Unicamp.

5. A propriedade não foi desconcentrada. No processo de desenvolvimento não houve rupturas sociais que permitissem forjar uma sociedade mais igualitária.

Esses são pontos de análise expostos em “Um Sonho Intenso”, documentário de José Mariani que será exibido no festival É Tudo Verdade. O filme percorre a história brasileira a partir da Revolução de 1930, ouvindo economistas, sociólogos, historiadores.

Parte da agonia da economia cafeeira e vai até o governo Lula. Maria da Conceição Tavares, Carlos Lessa, Luiz Gonzaga Belluzzo, João Manuel Cardoso de Mello, Francisco de Oliveira, Celso Amorim, José Murilo de Carvalho, Adalberto Cardoso, Lena Lavinas e José Augusto Ribeiro são entrevistados.

“Quis fazer uma história comentada, uma reflexão”, diz Mariani. Por isso, conta que evitou depoimentos de empresários, ministros ou protagonistas do processo, construindo a narrativa com visões mais abrangentes de intelectuais. Teve a consultoria do economista Ricardo Bielschowsky, autor de “Pensamento Econômico Brasileiro”, também ouvido.

Numa dinâmica colagem, encadeando imagens históricas e entrevistas, Mariani, 62, faz uma leitura articulada do Brasil, destacando as explicações para as crises e os avanços de um sonhado projeto nacional. Didático, consegue concentrar visões densas, sem cair em monotonia ou academicismos.

Carlos Lessa, por exemplo, lembra que o complexo cafeeiro da República Velha era inteiramente de capital nacional, da semente à exportação. Já o da soja de hoje só tem de nacional o agricultor e o caminhoneiro. “Isso é inquietante”, afirma.

Tratando da Revolução de 1930, Francisco de Oliveira observa: “Getúlio Vargas é o grande construtor do Estado brasileiro. Não há nenhuma instituição — salvo o Banco Central, que é uma construção da ditadura militar — que não tenha o toque varguista”. Foi a partir dessa época que o país passou a construir um projeto de desenvolvimento, deslanchando as bases da industrialização, trazendo os trabalhadores à cena.

O suicídio de Vargas, em 1954, adia o golpe conservador, que tenta se corporificar em 1961 e é bem-sucedido em 1964. Conceição Tavares argumenta que o desenvolvimento foi voltado para as classes médias. “Incorporar a massa pobre ao consumo é um fenômeno muito recente.”

Para ela, tanto os governos militares como os neoliberais nos anos 1990 são “conservadores e nada deram às classes subordinadas”. “O programa desenvolvimentista brasileiro foi uma modernização conservadora, ponto final, parágrafo”, define.

As privatizações e a política econômica dos anos 1990 desmantelaram o projeto nacional e a industrialização das décadas anteriores, avaliam os entrevistados. Tavares condena o fim da taxação das remessas de lucros, estabelecida por Fernando Henrique Cardoso, e enxerga a globalização atual parecida com a economia do século 19 — diferente da do século 20, em que vigoraram os capitalismos nacionais.

Lessa defende que o aumento do salário mínimo foi o maior feito de Lula, mas critica os altos juros. “O lucro dos bancos cresce sem parar, mais do que a economia e do que o salário mínimo.”

Oliveira ataca os petistas: “São nacionalistas do grande empresariado”.

Professor de documentário da PUC-RJ, Mariani gravou a maior parte das entrevistas em 2012. Levou um ano para montar o filme, idealizado no fim dos anos 1990. “Foi como fazer uma tapeçaria”, diz ele, que dirigiu “O Longo Amanhecer, Cinebiografia de Celso Furtado” (menção honrosa no É Tudo Verdade de 2007).

Sobre a escolha dos entrevistados, que são mais ligados à esquerda, o cineasta responde: “O filme é uma reflexão a partir de uma visão de mundo e se posiciona com clareza. Não tem essa pretensa neutralidade. A arte não é neutra. O contraditório deve ser buscado nas mídias que têm ofertas múltiplas”.

Sem apontar muitas previsões ou saídas, a fita é uma narrativa contundente de macromovimentos do passado. Sobre o futuro, deixa perguntas. Como a de João Manuel:

“Queremos virar uma caricatura dos Estados Unidos? Um individualismo de massas? Ou queremos construir uma sociedade fundada em valores humanistas?”.

O filme será projetado na mostra “Estado das coisas” do  festival É tudo Verdade 2014, no Rio e em São Paulo.

Anotem datas e horários, e não deixem de assistir:

São Paulo:

7 de abril, segunda-feira, às 20h — Reserva Cultural — com a presença do diretor

11 de abril, sexta-feira, às 14h — CCBB

Rio de Janeiro:

8 de abril, terça-feira, às 20h — Instituto Moreira Salles — com a presença do diretor

9 de abril, quarta-feira, às 19h — Cinema Oi Futuro Ipanema

10 de abril, quinta-feira, às 17h — Cinema Oi Futuro Ipanema

Mais informações:

www.umsonhointenso.com.br

 

3 thoughts on “Um Sonho Intenso

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