Revolução Industrial e Sociedade de Consumo em Massa

consumismo

Segundo Niall Ferguson (“Civilização”, 2012: 237), a Revolução Industrial não teria começado na Grã-Bretanha e se espalhado para o restante do mundo sem o desenvolvimento simultâneo de uma sociedade de consumo dinâmica. A sustentabilidade da industrialização foi os trabalhadores se tornarem, ao longo do tempo, também consumidores. Ao contrário dos escravos e dos servos, que não faziam compras de roupas, tendo apenas uma peça de vestimenta, os assalariados acabaram comprando um guarda-roupa!

Uma das maiores inovações recentes, nos séculos XX e XXI, foi a massificação da sociedade de consumo a partir do Ocidente (EUA), mas globalizando-a com força maior a partir do Oriente (China), com o barateamento dos bens de consumo duráveis e não-duráveis produzidos em grande escala. O resultado, segundo Ferguson, “é um dos maiores paradoxos da história moderna: que um sistema econômico projetado para oferecer escolha infinita ao indivíduo tenha terminado homogeneizando a humanidade”. Toda ela, de maneira padronizada, veste jeans, camisetas e tênis baratos!

A primeira fase de industrialização esteve concentrada nos produtos têxteis. Embora tenha durado décadas, a Revolução Industrial foi extremamente localizada em poucas regiões da Inglaterra e setorialmente concentrada em tecelagem de algodão.

Ela foi caracterizada como uma “onda de invenções”, porque foi a inovação tecnológica o que explicou grande parte do aumento na produtividade da terra, da mão-de-obra e do capital, ou seja, dos chamados fatores de produção. O segundo e o terceiro desses fatores aumentaram em quantidade no século XIX, mas foram as melhorias qualitativas que realmente importaram, isto é, o fato que a produção total excedia os aumentos combinados de trabalhadores e tecelagens.

Quanto à oferta, a Revolução Industrial foi uma busca por eficiência. A primeira verdadeira tecelagem de algodão foi construída em 1771. As primeiras locomotivas a vapor começaram a transportar vagões nas ferrovias em 1825. Todas essas inovações ocorreram na Inglaterra, mas foram logo copiadas na França, Alemanha e Estados Unidos, pois os inventores foram incapazes de proteger o que hoje é chamado “direito de propriedade intelectual”.

A Revolução Industrial teria sido sem sentido se tivesse consistido, unicamente, de um grande aumento na quantidade de tecido, ferro e energia mecânica que podia ser produzida em um ano. Igualmente importante foi o rápido desenvolvimento e a propagação de uma sociedade de consumo que, de fato, queria mais dessas coisas.

O setor têxtil foi o responsável pelo “milagre econômico britânico”. Em meados dos anos 1780, a exportação de tecidos de algodão correspondiam a apenas 6% do total das exportações britânicas. Em meados dos anos 1830, a proporção havia subido para 48%, em sua maior parte para a Europa continental. No continente, os europeus adquiriram um gosto por roupas baratas industrializadas muito antes de aprender a produzi-las por conta própria.

Por que a Grã-Bretanha se industrializou primeiro? A sociedade de consumo inglesa não era significativamente mais avançada do que em outros Estados do noroeste europeu. O nível de disseminação de conhecimento científico não era notadamente superior. Embora tivera avanços na agricultura, serviços bancários e comércio, não foi isso que desencadeou um surto de investimento no aumento da produtividade têxtil, do ferro e da produção de energia a vapor.

As vantagens institucionais no âmbito da Política – a soberania do Parlamento – e do Direito – a Common Law, encorajando a formação de corporações e oferecendo garantias contratuais aos credores –, sem dúvida, ajudaram à Grã-Bretanha a sair à frente de outros futuros impérios no século XVII e, sobretudo, no século XVIII. É possível que os impostos do século XVIII, que incidiam sobre os tecidos indianos de algodão, tenham dado alguma vantagem aos manufatureiros britânicos, assim como as políticas protecionistas similares às que mais tarde protegeriam as indústrias incipientes dos Estados Unidos, protegendo-as da competição britânica. Os ingleses buscavam justificar a Doutrina da Vantagem Comparativa de David Ricardo…

Curiosamente, as instituições políticas ou legais da Grã-Bretanha, aos olhos dos polemistas da época, eram desfavoráveis à indústria por limitar a liberdade econômica dos proprietários de fábricas, notadamente ao aprovar leis nos parlamentos vitorianos no que concerne ao trabalho infantil. Denunciavam como “a velha corrupção” o modo como o Parlamento, a Coroa e a City (centro financeiro de Londres) interagiam…

A Grã-Bretanha diferia, significativamente, de outros países do noroeste da Europa em dois aspectos que tornam a Revolução Industrial lá compreensível. O primeiro era que o trabalho era claramente mais caro que no continente. A segunda razão era que o carvão na Grã-Bretanha era abundante, acessível e, portanto, muito mais barato que do outro lado do canal da Mancha. Juntas, essas diferenças explicam porque os empreendedores britânicos estavam muito mais motivados para buscar a inovação tecnológica do que seus pares continentais. Fazia mais sentido lá do que em qualquer outro lugar substituir homens caros por máquinas alimentadas por carvão barato.

Embora, evidentemente, a Revolução Industrial tenha melhorado as condições de vida em longo prazo, no curto prazo, parecia tornar a vida dos operários pior. Porém, as propostas do Manifesto Comunista não atraíram os trabalhadores industriais a quem se dirigiam. Marx e Engels reivindicavam:

  1. a abolição da propriedade privada;
  2. a extinção da herança;
  3. a centralização do crédito;
  4. a propriedade estatal de todos os meios de produção.

Os sindicalistas de meados do século XIX queriam cidadania, isto é, conquista de direitos:

  1. um governo constitucional;
  2. a liberdade de expressão, de imprensa e de associação;
  3. uma representação político-partidária mais ampla por meio da reforma eleitoral;
  4. a autodeterminação nacional ou autogoverno.

A representação mais ampla levou a uma legislação que beneficiava os grupos de baixa renda. Aumento nos salários reais, graças às pressões dos sindicatos, se traduziu em acesso à sociedade de consumo para os trabalhadores. Marx ignorou a possibilidade de os trabalhadores desejarem se tornar consumidores. Almejavam a democracia da propriedade da casa própria.

Os europeus ocidentais adotaram a negociação coletiva corporativista, mesmo porque depois do desmantelamento fascista dos sindicatos dos trabalhadores, as greves se tornaram mais curtas. O planejamento econômico, a gestão da demanda agregada por política keynesiana e os Estados de Bem-Estar Social agiram contra “a ameaça comunista” em época de Guerra Fria.

Nos Estados Unidos do pós-II Guerra, a sociedade de consumo se tornou um fenômeno de massas, por exemplo, diminuindo significativamente as diferenças de vestuário entre as classes sociais. Antes da guerra, a maioria das roupas era feita sob medida por alfaiates. Mas a necessidade de manufaturar milhões de uniformes incentivou o desenvolvimento de tamanhos padrão. Os tamanhos padronizados permitiram que não só os uniformes, como também roupas civis, fossem produzidos em massa e vendidos “prontos para vestir” (prêt-à-porter).

As melhores oportunidades de educação para os soldados norte-americanos que voltavam da guerra, associadas com uma onda de construção de casas nos subúrbios, se traduziram em uma significativa melhoria na qualidade de vida. Os pais dos baby boomers foram a primeira geração a ter acesso significativo ao crédito ao consumidor. Eles compraram casa a prazo, seu carro a prazo, e seus eletrodomésticos a prazo.

De maneira mais inesperada, a sociedade de consumo forneceu ao Leste Asiático (e não à ex-URSS) não só um modelo a ser seguido, como também um mercado mundial para seus bens de consumo baratos. “Que o consumo em massa, com toda a padronização que isso implicava, pudesse de alguma forma ser conciliado com o individualismo extremo foi um dos truques mais inteligentes já realizados pela Civilização Ocidental”, esta é a opinião liberal eurocêntrica de Niall Ferguson (2012: 281). Eu diria que o paradoxal foi o Socialismo Realmente Existe, isto é, o Socialismo de Mercado, ter propiciado a revolução mundial na Sociedade de Consumo! A inclusão em massa nesse mercado global é uma conquista social e não deve ser menosprezada! A esquerda e os ambientalistas devem rever seus conceitos…

One thought on “Revolução Industrial e Sociedade de Consumo em Massa

  1. Fernando,
    Na época da ditadura eu era um garoto filho de pais pobres de dinheiro e cultura, portanto não tinha acesso a vários produtos de consumo, inclusive a minha sonhada bicicleta. Hoje, aos 57 anos, sou ciclista, com 2 carros na garagem que quase não uso, porque o consumismo institucionalizado está entupindo quase tudo, rios, estradas.Por incrível que possa parecer, minha bike será o veículo do futuro…

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