Mudanças Estruturais dos Estados Unidos no Século XIX

Estados Confederados dos EUA

Reginaldo Moraes (professor do IFCH-UNICAMP) e Maitá de Paula e Silva (mestre em Ciência Política pela UNICAMP) publicaram O Peso do Estado na Pátria do Mercado: Os Estados Unidos como País em Desenvolvimento (Editora Unesp; 2013: 83 páginas). No segundo capítulo, afirmam que as transformações da quantidade em qualidade da sociedade norte-americana, devido às guerras, mostram resultados após 3 ou 4 décadas:

  1. mudanças na forma de governo e no perfil dos partidos;
  2. mudanças na conformação dos agentes econômicos e da propriedade, da estratificação social, dos hábitos e costumes.

Os capítulos da história norte-americana são claramente demarcados por grandes confrontos armados. A nação nasce das duas Guerras de Independência (1775-1783 e 1812). A Guerra Civil (1861-1865), que provocou entre 600 mil e 800 mil mortes, muda o cenário do país com a destruição do sistema de plantations do Sul e a subordinação dos democratas – então escravistas, latifundiários e separatistas – aos republicanos – então abolicionistas, industrialistas e integracionistas. A propriedade de escravos foi extinta, em consequência da Guerra Civil, afetando a riqueza da oligarquia sulina.

Ao longo do século XIX, o país acelerou a marcha para o Oeste, abrindo estradas, seja rodovias, seja ferrovias, e construindo escolas. Na Inglaterra, o avanço das ferrovias, até mesmo por sua dimensão, foi um empreendimento de caráter essencialmente privado. Nos Estados Unidos, as linhas férreas saíam de algo mais ou menos parecido com uma cidade e iam em direção a algo parecido com… nada. De fato, as cidades nasceriam ao longo da ferrovia.

As terras doadas pela União:

  1. viabilizaram as ferrovias,
  2. fizeram surgir as cidades,
  3. orientaram a ocupação do território,
  4. abriram caminho para imigração de todos os tipos humanos,
  5. criaram as bases para o surgimento do maior mercado interno do mundo, decisivo para os ganhos de escala das corporações que surgiram no fim do século, e
  6. deram origem às grandes fortunas do país derivadas de especulação com os preços da terra e as ações de companhias ferroviárias.

Boa parte da inversão nas ferrovias era, de fato, saques contra fundos públicos e, em particular, das terras federais. Calcula-se que o governo federal norte-americano doou, para construção de estradas e escolas, o equivalente ao território francês. O restante do capital para as ferrovias foi fornecido por outro tipo de saque: empréstimos que governos estaduais e locais faziam diretamente ou referendavam.

Outro fato notável da história norte-americana na virada do século XIX para o XX foi a mudança radical das estruturas da produção e do mercado do capitalismo competitivo ancorado em empresas individuais e familiares para o capitalismo de grandes corporações oligopolistas ou mesmo monopolistas. Moraes e Silva (2013: 32) afirmam que “na virada do século, ocorreu uma espécie de segunda ou terceira etapa da Revolução Burguesa, se considerarmos a Guerra da Independência como a primeira, seguida da Guerra Anglo-Americana de 1812 e da Guerra Civil (1861-1865) entre os industriais do Norte e a aristocracia latifundiária do velho Sul”.

A Guerra de 1812, ou a Guerra Anglo-Americana, foi a guerra entre os Estados Unidos, e o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda e suas colônias, incluindo o Canadá Superior (Ontario), o Canada Inferior (Quebec), Nova Escócia, Bermuda e a ilha da Terra Nova. Ela ocorreu entre 18 de junho de 1812 e 23 de março de 1815, embora o seu tratado de paz tenha sido assinado em 1814. O Massacre do Fort Dearborn, Indiana, em 15 de agosto de 1812, a detonou, levando os americanos à guerra contra os britânicos.

A Revolução Francesa provocou conflitos políticos nos Estados Unidos, devido às diferenças entre as facções federalistas (admiradores da Inglaterra) e os republicanos (admiradores da França revolucionária), e a acentuada hostilidade da França napoleônica com a Inglaterra. Esta, por sua vez, não aceitava como “fato” a independência da ex-colônia norte-americana. Além disso, os britânicos ainda tinham ligações comerciais com os sulistas. Eles tentaram de todas as maneiras impedir os acordos entre franceses e nortistas, inclusive utilizando-se da força via:

  1. o apresamento de navios da ex-colônia, desafiando a soberania nacional e prejudicando as indústrias;
  2. o recrutamento forçado de norte-americanos por ingleses;
  3. causando problemas com índios, no oeste, instigados por britânicos estabelecidos no Canadá; e,
  4. dificultando, para os Estados Unidos, a conquista do almejado território indígena.

Entre 1812 e 1814, durante o governo do presidente James Madison,ocorreu o conflito. Apesar dos desastres sofridos, o Tratado de Gand, que acabou com a guerra, não promoveu modificações no mapa dos Estados Unidos. No entanto, reforçou o sentimento nacionalista da população e consolidou a União.

Quanto à terceira etapa da Revolução Burguesa norte-americana, seria marcada pela ascensão de:

  1. um novo perfil de líder empresarial;
  2. um novo tipo de empresa dominante; e
  3. uma nova estrutura de relações de propriedade com rebatimentos na estrutura política e institucional do país.

Essa grande ruptura com a “velha ordem” ocorreu em um período de dez anos, entre 1895 e 1905, e foi caracterizada como o encontro da indústria manufatureira e a Bolsa de Valores. O caminho rumo ao capitalismo corporativo foi traçado em duas etapas.

  1. Antes de 1890, eram poucas as manufaturas organizadas segundo esse padrão, pois as grandes empresas privadas corporativas eram híbridas, quase agência governamentais, licenciadas pelo Estado, concentradas em áreas como infraestrutura, transporte, comunicações e crédito. Depois, isso se estendeu às manufaturas.
  2. Até então, indústria e capital financeiro viviam em atividades separadas sob o ponto de vista institucional: os títulos financeiros negociados em Wall Street concentravam-se nos negócios como ferrovias, telégrafos, obras públicas de Estados e Municípios. A junção dessas duas atividadesWall Street (finanças) e Main Street (indústria e comércio) – foi a Revolução Corporativa, com transformações radicais da Bolsa de Valores nos anos 1897-1898.

Esse processo provoca transformações nos direitos de propriedade com a separação entre gestão e propriedade e alavanca uma nova fração de classe capitalista. Distancia-se a “representação em papel” do capital e a sua materialização em objetos físicos que o incorporam. Negocia-se a riqueza do país em pedaços. A propriedade torna-se mais líquida e alienável. Pode ser parcelada e vendida sem afetar diretamente a administração e a operação, criando uma forma de lucro ou ganho de capital distinta das rendas e gastos da companhia.

Embora no capitalismo empreendedor a escritura da propriedade seja, literalmente, separada dos objetos que produzem as commodities, a propriedade da escritura garante o direito ao controle da produção, pois a transferência da escritura significa a transferência do controle da fábrica. O capitalismo financeiro é, essencialmente, um sistema mercantil no qual valores mobiliários – ações e debêntures – são comercializados em lançamento primário e em mercado secundário, podendo ter mais liquidez do que as próprias mercadorias fabricadas.

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