Mercado Bancário: Perspectivas de Negócios I

Mapa Mundial de Bancarização - Estudo de Caso de Angola

O Brasil dos bancos não pode ser apenas o Brasil dos brancos! Esta talvez seja a grande lição da história bancária brasileira: todo banco que se volta, exclusivamente, ao atendimento da “elite branca” torna sua presença insignificante, para o povo brasileiro, embora o banqueiro possa ser muito bem-sucedido em termos pessoais, principalmente, vendendo seu banco para estrangeiros. Embranquece, enriquece, desaparece… da construção da nação!

Essa foi a história dos bancos estrangeiros, especialmente, a dos norte-americanos aqui. Acompanhando apenas seus clientes, seja grandes corporações, seja a colônia de imigrantes oriundos de seus países, restringiram-se aos negócios com câmbio, remessas de dinheiro e/ou financiamento do comércio externo. Não atenderam às atividades internas nem ao povo brasileiro. Exceto o Santander, que adquiriu o Banespa, os demais têm baixa participação no mercado bancário de varejo.

Os grandes bancos brasileiros, pelo contrário, colaram suas estratégias comerciais aos rumos recentes do País. Perceberam a necessidade de investir em automação bancária para atender em massa. Seus gastos em tecnologia de informações (TI) representam 10,4% de seus gastos totais. Os serviços financeiros representam 11,7% dos gastos totais em TI no Brasil. Os gastos em tecnologia bancária são crescentes: de R$ 12,6 bilhões em 2008 para R$ 20,1 bilhões em 2012.

O acesso popular ao sistema de pagamentos com moeda bancária só se viabilizou pelo avanço tecnológico da indústria bancária brasileira. O barateamento do atendimento através de cartões eletrônicos, devido à automação bancária, possibilitou ampliar o acesso de clientes pobres. Enquanto uma transação na agência custava ao banco US$ 1,07, no telefone saía por US$ 0,54, nas máquinas de autoatendimento, US$ 0,27, no home banking a US$ 0,15 e na internet por apenas US$ 0,10. Em média, cada uma da mais de 36,2 bilhões de transações bancárias, realizadas em 2012, custou R$ 0,27.

Existiam 166 milhões de contas correntes em 2012, mas com 127,6 milhões de CPFs cadastrados com relacionamentos ativos no sistema financeiro nacional, ou seja, 77% das contas correntes. Esses números, respectivamente, da FEBRABAN e do Banco Central do Brasil, divergem da (sub)estimativa do Banco Mundial (fonte do quadro acima) de que apenas 55,9% da população adulta brasileira estaria “bancarizada” em 2011. Também não parecem ser muito verdadeiros os números da base de clientes divulgados pelos grandes bancos. Somando as contas correntes (Itaú, 26 milhões; Bradesco, 26,4 milhões; Caixa, 20,8 milhões; Banco do Brasil, 36,1 milhões) atinge-se 109,3 milhões. Porém, somando-se as bases de clientes, só do Bradesco (74,1 milhões), da Caixa (62 milhões) e do BB (56 milhões), ultrapassam 242,5 milhões, ou seja, mais do que toda a população brasileira!

Os meios de pagamentos eletrônicos são estratégicos para banco, pois quanto mais comum for seu uso por parte dos seus correntistas, menores serão os saques em papel-moeda e maior será o multiplicador monetário. Reter seus depósitos à vista, via fidelização de seus clientes ao uso de cartões e/ou internet banking, passou a ser estratégia fundamental dos bancos. Se a cadeia comercial entre compradores e vendedores se constituir entre os próprios clientes, não haverá vazamento de recursos de seu sistema de fluxos eletrônicos, e o multiplicador torna-se endógeno!

Outra ideia-chave, para se entender o sistema financeiro nacional, é que as Instituições Financeiras Públicas Federais (IFPF) podem gerar políticas públicas cujo gasto efetivo sai por cerca de 10% do custo fiscal potencial. Em termos de custo fiscal e orçamentos governamentais, IFPF podem “fazer mais por menos”. São 9 vezes mais, se comparar o valor em dinheiro necessário para executar diretamente políticas públicas com a mesma quantidade de recursos capitalizados pelo Tesouro Nacional nas IFPF, a partir do endividamento público, para alavancar empréstimos e tomar depósitos.

Outra inovação financeira recente é que grandes empresas não-financeiras emitem títulos de dívida direta (debêntures e notas promissórias) com longo prazo de vencimento, cujos lançamentos são operações estruturadas por bancos que oferecem “garantia firme” de colocação junto aos investidores e/ou na própria carteira de ativos. Bancos emitem como passivos dessas operações as Letras Financeiras (Subordinadas ou não), com dois ou cinco anos para vencimento, que segregam em “administração de recursos de terceiros”, isto é, nos fundos de investimentos. Os investidores desses fundos, devido à baixa taxa de juros de referência, em termos reais, estão agora dispostos a assumir maior risco, diversificando entre o risco privado e o risco soberano, com a finalidade de aumentar o retorno financeiro.

As captações, em geral, têm características de taxas, prazo e liquidez bastante distintas das apresentadas pelos empréstimos concedidos. Ao produzirem esse descasamento entre os fluxos de caixa dos passivos e dos ativos, os bancos expõem-se ao risco de variação de taxa de juros. O risco de refinanciamento ocorre também quando capta-se recursos por meio de depósitos a taxas flutuantes (pós), sujeitas a frequentes ajustes, e se empresta com taxas prefixadas (ou vice-versa). O valor de mercado de qualquer ativo é igual aos seus fluxos futuros de caixa descontados, isto é, trazidos para seu valor atual. O aumento da taxa de juros básica eleva a taxa de desconto aplicável a esses fluxos de caixa e reduz o valor de mercado do ativo.

Somente com o casamento das durações médias de seus ativos e passivos, ou seja, levando em conta o momento exato de ocorrência de fluxos de entrada ou saída de caixa, poderia o banco proteger-se contra o risco de variação de taxa de juros. Como isso não ocorre, na realidade, ele precifica todos os riscos, inclusive o da inadimplência, e os repassa para os devedores adimplentes. “Os justos (adimplentes) pagam pelos pecadores (inadimplentes)”… E o crédito fica caro!

Outro componente importante dos “spreads”, que não depende dos bancos, são os impostos diretos e indiretos e demais encargos fiscais e parafiscais, tais como o custo do compulsório, dos subsídios e do direcionamento de crédito. Esses custos no Brasil são mais altos do que a média internacional e, em conjunto, representam cerca de 25% na composição dos “spreads”. Já os custos administrativos assumidos pelos bancos, que representam 12% dos “spreads”, são outro fator que poderia estar mais controlado pelos bancos, por exemplo, o excessivo custo da publicidade repassado para o devedor. É possível diminuir o custo do crédito no Brasil!

Conclui-se o artigo no post seguinte.

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