Mercado Bancário: Perspectivas de Negócios II

 

Evolução Real do Crédito RuralMédia Anual de UH FinanciadasA História do Crédito Rural no País é relativamente fácil de se sintetizar e memorizar. Considerando-o deflacionado, ele se elevou de 1969 a 1979, pois foi amplamente subsidiado com custo abaixo da correção monetária. Entretanto, foi parcamente fiscalizado. Houve desvio para compra de terras, elevando a concentração fundiária, e aplicações no mercado financeiro, aumentando a concentração de riqueza. Com a crise final do regime militar e a reestruturação das finanças públicas, inclusive com o fim da Conta de Movimento entre o Banco do Brasil e o Banco Central do Brasil, ele declinou até o primeiro ano do segundo mandato do Governo FHC. Em aparente paradoxo, o PIB agrícola se elevou durante todo esse período de queda, demonstrando que não havia correlação entre as duas séries… E muito menos causalidade!

As fontes de recursos para o crédito rural se alteraram. Os recursos obrigatórios (alíquota de 34% dos depósitos a vista com remuneração de 5,5% aa) que atingiam cerca da metade entre 2006 e 2011, em 2012 baixaram para 34% em contrapartida da alta da participação dos depósitos de poupança rural (de 18,7% para 31,8%) no mesmo período. Fundos constitucionais (FCO, FNE, FINOR) giraram em torno de 8%, enquanto o BNDES apoia, crescentemente, atingindo 9,9%. O fato é que pouco se usa de recursos livres para financiar o agronegócio – menos de 5% – em que pese o Brasil ter se tornado “o celeiro do mundo”. Bancos privados só emprestam obrigados.

No Brasil, o subsídio está, basicamente, no crédito agrícola. Este possui taxa de juros não só abaixo da taxa de referência do mercado de dinheiro, como também seu custo chega a ser inferior às variações do índice geral de preços. Dessa forma, há a tradição histórica dos produtores adotarem a “regra do terço” em seus financiamentos: 1/3 com recursos próprios, 1/3 em crédito comercial dos fornecedores de insumos e maquinarias e 1/3 em crédito bancário.

O subsídio agrícola ao crédito rural no Brasil é relativamente diminuto face às experiências de outros países, sendo equivalente de 3 a 4% da renda agrícola. Nos Estados Unidos, atinge 18%. Na Europa, chega a 34% dessa renda. Lá o Estado chega a subsidiar até 90% não é no crédito, mas sim no prêmio do seguro rural.

A adoção de política preventiva, seja via seguro rural, seja via instrumentos de hedge no mercado de derivativos, para a agrobusiness exportador, seria o caminho para se evitar os recorrentes perdões das dívidas propostos pela “bancada ruralista”. Em dezembro de 2003, foi implantada nova legislação referente a esse seguro, cujo objetivo principal é garantir 70% da renda em caso de sinistro climático. O Banco do Brasil já condiciona o financiamento de custeio à aquisição do seguro.

O governo brasileiro pretende adotar mecanismos capazes de assegurar a convergência entre o valor do prêmio que o produtor pode pagar e o que a seguradora julga economicamente viável. Assim, os riscos climáticos e sanitários seriam mitigados com o seguro rural e os riscos de mercado, com o mercado formal de derivativos agropecuários em operações de hedge. As transações com derivativos envolveriam instrumentos contratuais de venda antecipada e proteção contra variações cambiais. Tratar-se-ia de transição histórica: da economia de endividamento, via BB, para economia de mercado de capitais, via seguradoras ou BM&F.

Também a História do Financiamento Imobiliário no Brasil pode ser sintetizada. No final do regime militar (1979-1982), com a prefixação da correção monetária e o choque cambial (maxidesvalorização da moeda nacional) e consequente choque inflacionário, sob o comando do Delfim Netto, provocou-se, inicialmente, o aumento da contratação, e, posteriormente, a inadimplência dos mutuários. O período 1983-1986 foi “a crise do sub-prime brasileira”, inclusive com a quebra do BNH e a criação do FCVS (Fundo de Compensação da Variação Salarial), dívida pública que só será resgatada em 2027. A gestão da massa de inadimplência manteve-se até 2001 (com sua transferência para a EMGEA) sem expansão significativa do crédito imobiliário, exceto a derivada do “Margaridaço” (originada com a Ministra Margarida Procópio do Governo Collor), a alta artificial da concessão de crédito habitacional sem avaliação de risco, realizada em 1991. A sociedade brasileira ficou, praticamente, 20 anos (1983-2003) sem acesso fácil ao crédito imobiliário!

No final de 2004, levei um estudo de minha equipe da VIFIN ao presidente da Caixa, Jorge Mattoso, mostrando que a Caixa não concedia crédito imobiliário com recursos dos depósitos de poupança desde 1992, pois estava “sobreaplicada” acima de 65% da exigibilidade. Tomamos a decisão de transferir esses recursos até então aplicados em Tesouraria de volta ao financiamento do SBPE. A VIURB, Vice-presidência de Desenvolvimento Urbano, foi mudada em abril de 2005, assumindo-a o Jorge Hereda, atual presidente da Caixa. Desde então, houve um re-evolução no crédito imobiliário no Brasil, acentuada pelo programa social MCMV (Minha Casa Minha Vida)!

O MCMV já contratou 3.316.430 unidades habitacionais, 1.857.815 foram construídas e 1.614.820 entregues. A média anual do financiamento imobiliário por governo está a seguinte: FHC, 181,6 mil; Lula, 474 mil; Dilma, 1.095,5 mil.

O crédito imobiliário é o que cresce mais rapidamente entre todas as modalidades de financiamentos, sua participação no PIB, mesmo subestimada pelo Banco Central, em 2013 atingiu 8,2%, certamente alcançar 12% até o final da década, porém em um patamar bem inferior ao dos países que passaram por “bolha imobiliária”, como Estados Unidos (68,8%) e Espanha. Nesses, fizeram securitização do crédito imobiliário.

Há vantagens de emissão de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI):

  1. realização de lucro antecipada;
  2. redução dos riscos pela transferência para companhias securitizadoras e, daí, para investidores institucionais (fundos de pensão); e
  3. ganho de liquidez com a maior rotação de capital para a concessão de novo crédito.

Finalmente, vale citar a área estratégica de negócio bancário relacionada à mobilidade social, pois a Classe Média (C) passou de 38%, em 2002, para 55,3%, em 2012, e as Classes AB passaram de 7,4% para 11,7%. Cerca de 104 milhões de pessoas pertencem à Classe Média, cujo limite inferior de renda é R$ 291 per capita. Ela tem hoje 37 milhões de pessoas a mais do que tinha há uma década.

Com isso, o País passou a ter cerca de 3,5 milhões de vendas anuais de automóveis (e se aproximou de 2 milhões de vendas anuais de motos). O índice de habitantes por veículo (5,7) ainda é relativamente alto. O financiamento a veículo está estacionado em torno de 7% do saldo total de crédito. O País tem o 4o. maior mercado de automóveis do mundo em vendas, embora seja o 7o. maior produtor. Da sua frota de 40,8 milhões de veículos somente 30% é segurada. Portanto, tanto em financiamento, como em vendas de seguros, esta área automobilística possui uma perspectiva de negócios bancários promissora no Brasil.

Cabe, por fim, registrar que embora o País tenha o 7o. maior PIB no ranking mundial de 2013, na relação prêmios de seguro / PIB (3,7%) ele ficou em 13o. lugar com apenas 1,88% do mercado global. Há apenas 10% das residências seguradas, planos de saúde cobrem 24% da população e planos odontológicos, 8%. Como 29,7% será a parcela de idosos na população brasileira, em 2050, haverá imensa janela de oportunidade histórica aberta para os negócios bancários nas áreas de seguros, previdência complementar e crédito consignado para aposentados. O crédito educativo (também consignado no primeiro emprego) será outra oportunidade, em um País futuro exportador de petróleo, cujo Fundo Social de Riqueza Soberana investirá 75% em Educação e 25% em Saúde. A qualidade de vida do povo brasileiro melhorará muito!

2 thoughts on “Mercado Bancário: Perspectivas de Negócios II

  1. Caro Prof. Fernando
    Tomei conhecimento desta postagem, somente agora e, fiquei um pouco confuso com os dados sobre “classe média” e, também de que os riscos climáticos e sanitários do financiamento agrícola, poderiam ser mitigados com operações de hedge. O Professor poderia definir “Classe média” e como as operações de hedge mitigariam o financiamento agrícola ? Um grande abraço !!!

    • Prezado Nilson,
      neste post de 14 de abril de 2014 está claramente definida qual é a estratificação social adotada: “a Classe Média (C) passou de 38%, em 2002, para 55,3%, em 2012, e as Classes AB passaram de 7,4% para 11,7%. Cerca de 104 milhões de pessoas pertencem à Classe Média, cujo limite inferior de renda é R$ 291 per capita. Ela tem hoje 37 milhões de pessoas a mais do que tinha há uma década”.

      Quanto aos “riscos climáticos e sanitários do financiamento agrícola”, não achei nada disso no post. Entretanto, caso se refiram ao seguro rural, cuja produção agrícola corre riscos climáticos e pecuária corre riscos sanitários (doenças), talvez tenha contraposto o hedge como uma alternativa ao seguro no caso das grandes empresas exportadoras do agronegócio.
      att.

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