Bilhões e Lágrimas: A Economia Brasileira e Seus Atores

Economia Brasileira e Seus Atores

O perfil que a Consuelo Dieguez esboçou do Luiz Cezar Fernandes, ex-dono do Pactual (hoje BTG Pactual) foi fundamental para eu entender a psicologia dos (ex)donos dos bancos de negócios no Brasil, tema que tratei no capítulo sobre bancarrotas no meu livro Brasil dos Bancos. Por essa e algumas outras reportagens que li escritas por ela, quero ler todo o livro “Bilhões e Lágrimas – A Economia Brasileira e Seus Atores“, da jornalista Consuelo Dieguez, que Edson Pinto de Almeida (Valor, 08/04/14) resenhou. “Ele abre uma fresta para tentar jogar um pouco de luz sobre fatos e personagens cuja atuação segue sempre o princípio do informante Deep Throat do escândalo de Watergate: siga o dinheiro!

A economia brasileira produz mais do que bilhões de reais. Tão importante quanto as cifras envolvidas nos negócios são os personagens que se movimentam à luz do dia – alguns sorrateiramente – em meio a contratos e arranjos nem sempre tão claros. Para o jornalista é sempre um desafio desvendar esse universo em que se misturam empresários, executivos, banqueiros, políticos e, por que não, aproveitadores. O mundo dos negócios e das finanças, muitas vezes, parece reproduzir o que ocorre no jogo de pôquer: se você não sabe quem é o pato na mesa, é porque o pato é você. 

Resultado de seu trabalho como colaboradora na revista “Piauí”, desde 2006, as 12 reportagens dividem-se em dois capítulos. O primeiro tem como foco a área financeira, em que quatro personagens se destacam: Luiz Cezar Fernandes, ex-dono do Pactual (hoje BTG Pactual), o banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity, o administrador de recursos Luis Stuhlberger, sócio da Credit Suisse Hedging Griffo, Sergio Rosa, quando ainda era presidente da Previ, fundo de pensão do Banco do Brasil, e Luciano Coutinho, presidente do BNDES. Completam o primeiro capítulo reportagens sobre a venda da Sadia para a Perdigão e sobre o Banco Central. O segundo capítulo contém reportagens sobre a descoberta do pré-sal, sobre a crise do etanol e seus efeitos na economia de Sertãozinho, em São Paulo, e sobre o fim melancólico da companhia aérea Varig.

O objetivo do livro, segundo a autora, é contribuir para a compreensão de uma parte da história atual do Brasil. Mesmo que não tenha sido a intenção inicial, como ela explica na apresentação, as reportagens (pelo menos a maioria delas) acabam apontando para a mesma direção: a forte presença do Estado na economia, o que, de acordo com Dieguez, vem ocorrendo por uma ação deliberada dos governos do PT. “Por trás dos embates, das falências, das fusões, das mudanças de legislação, existia um projeto de governo de colocar de novo o Estado no papel de protagonista”, afirma. A ação do governo desde 2003, segundo ela, ocorre não de forma ostensiva como no regime militar, mas sutilmente, por meio das operações dos fundos de pensão e do BNDES. “Talvez sejam necessários outros dez anos para saber aonde tudo isso nos levará.”

[FNC: Enfim, os argutos jornalistas estão começando a entender que, para desenvolver social e economicamente o Brasil, configurou-se um Capitalismo de Estado Neocorporativista, ou seja, há necessidade de associações entre capitais de origem privada nacional e estrangeira, estatal e trabalhista.]

O risco de se publicar em livro conteúdo jornalístico é proporcional à natureza perecível da atividade e do produto final. A angústia do fechamento (edição final) para o jornalista na redação é pequena diante do que deve sentir o autor em transpor em livro algo que terá forma definitiva e não poderá ser corrigido ou esclarecido no dia seguinte. Nesse aspecto, a obra de Consuelo Dieguez ganharia se contivesse um índice onomástico ou remissivo, tal a quantidade de nomes, entidades, empresas e tramas envolvidas. O leitor também poderá sentir falta de notas explicativas, que atualizem – na medida do possível – cargos, nomes de empresas, desdobramentos de assuntos, e atual condição profissional de personagens.

Há alguns descuidos com questões de datas e também omissões. A reportagem sobre o Banco Central, por exemplo, não diz que Gustavo Franco foi presidente da entidade (apenas menciona “sua passagem pelo governo”). Nada é dito sobre o período em que o atual sócio da Rio Bravo Investimentos comandou o BC e sobre sua saída, o que logo em seguida resultou na desvalorização do real, em 1999.

Das cinco reportagens do segundo capítulo (Questões Estatais), três são dedicadas à descoberta do pré-sal, publicadas na revista “Piauí” em períodos diferentes (2008, 2009 e 2012). Como são complementares, poderiam ser reeditadas para evitar repetições, já que aparecem em sequência e não perderiam o sentido. As narrativas sobre a Varig e a Sadia, por sua vez, trazem com detalhes dois casos emblemáticos de má gestão. Poderiam ficar próximas, sem prejuízo da edição.

É nos perfis que a autora consegue desvencilhar-se das amarras do texto jornalístico mais duro e pode exercitar aquilo que nos anos 1960 se convencionou chamar de novo jornalismo. Como ela própria define, significa ir além do relato pessoal, acompanhar de perto o personagem para identificar sentimentos, entender suas razões e buscar um pouco da alma de cada um e as circunstâncias que determinaram suas decisões. Nesse sentido, destaca-se o perfil de Luis Stuhlberger, cujo capítulo dá nome ao livro. Apontado como um dos mais bem-sucedidos administradores de recursos, sua história revela nuanças de personalidade e desmitifica – até pela sinceridade do personagem em se autoflagelar – o estereótipo de mestres do universo empregado para os chamados Magos das Finanças.

Em Todos contra Dantas, Consuelo procura desvendar a personalidade obsessiva do banqueiro do Opportunity ao mesmo tempo em que relata os bastidores da privatização das empresas de telecomunicações em 1998 e seus desdobramentos até hoje. Uma operação que também revela como os interesses do Estado e da iniciativa privada podem se misturar de maneira bem pouco transparente.

É interessante notar que o livro de Consuelo Dieguez caminha na direção oposta ao que se prevê como o futuro do jornalismo – com a extinção anunciada da mídia impressa e pouco espaço para a reportagem de fôlego que demanda tempo e investimento. Resta saber o que acham os leitores.”

“Bilhões e Lágrimas – A Economia Brasileira e Seus Atores”

Consuelo Dieguez, Portfolio Penguin, 343 páginas, R$ 44,90

Em meados de 2006, Consuelo Dieguez se tornou colaboradora da revista piauí, que seria lançada em outubro daquele ano. A primeira reportagem que lhe foi encomendada, um perfil do banqueiro Luiz Cezar Fernandes (leia pdf abaixo), lhe pareceu inusitada. Afinal, a história do ex-dono do banco Pactual, que passara de elefante a formiga do mercado financeiro, já era conhecida por todos. Mas depois de acompanhar o dia a dia de Fernandes, Dieguez entendeu que o melhor jornalismo é feito de histórias não contadas, detalhes ignorados, frases despretensiosas. O melhor perfil conta o avesso dos perfilados. 

A partir daí, com o brilhantismo que lhe é peculiar, a jornalista concentrou-se em desvendar figuras centrais da história recente do país – como Daniel Dantas, Luciano Coutinho, Sérgio Rosa, entre outros – para revelar o momento econômico por que vimos passando desde a posse de Lula. A partir de histórias individuais, Dieguez aponta como se deu o expressivo aumento da participação do Estado na economia, fato essencial para compreensão do Brasil de hoje. 

Pela primeira vez reunidos em livro, os ensaios de Bilhões e lágrimas apresentam um análise contundente da economia atual, a partir do melhor e do pior traço da personalidade de cada um de seus atores.

Se não há no mundo nada mais interessante do que gente, pode-se dizer que o perfil – gente posta em palavras – é o mais interessante dos gêneros jornalísticos.” – Humberto Werneck

Leia o Sumário e o Primeiro Capítulo em pdf: De Elefante à Formiga

3 thoughts on “Bilhões e Lágrimas: A Economia Brasileira e Seus Atores

  1. Então eram tipos como como Luiz Cesar e Lemann, sempre bem relacionados com o governo, que encheram as burras de dinheiro com a mesma inflação alta que deixava apurada a vida de tantos brasileiros nos anos 80. É bom saber o nome dos bois.

  2. Pingback: BNDES-Friboi, JBS, Maior Exportadora de Carnes do Mundo

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