Malthusianismo em Ruanda

genocidio rwanda

Os relatos habituais dos genocídios ocorridos em Ruanda e no Burundi, há vinte anos, os classificam como resultados de ódios raciais preexistentes insuflados em proveito próprio por políticos inescrupulosos. Este genocídio resultou da escolha deliberada da elite dominante para espalhar ódio e medo para se manter no poder. Em toda a Ruanda, à medida que o genocídio de 1994 continuava e o número de tutsis declinava, os hutus passaram a atacar-se uns aos outros. Jared Diamond procura, então, outros fatores que contribuíram para o genocídio afora o ódio racial.

Ruanda e Burundi já eram regiões densamente povoadas, no século XIX, antes da chegada dos europeus, devido à dupla vantagem de:

  1. chuvas moderadas; e
  2. a localização em altitudes demasiado elevadas para os mosquitos da malária e as moscas tsé-tsé.

Em 1990, mesmo após as matanças e exílios em massa da década anterior, a densidade populacional média de Ruanda era de 293 pessoas por Km2, mais alta do que a do Reino Unido (236). Só que a agricultura lá era muito menos eficiente e não mecanizada: a maioria das pessoas tinha de ser agricultores, embora apenas com o trabalho manual produzissem pouco ou nenhum excedente que pudesse sustentar as outras pessoas.

Quanto vários tutsis fugiram ou foram mortos nos anos 1960 e em 1973, a disponibilidade de suas antigas terras insuflou a ambição de que cada fazendeiro hutu podia então, finalmente, ter terra bastante para alimentar a si mesmo e sua família com folga. Em 1985, toda terra arável afora os parques nacionais estavam sendo cultivadas. Surge o dilema malthusiano: mais comida, mas também mais gente, portanto, nenhuma melhora na produção de comida por indivíduo.

Além disso, pressentia-se um desastre ecológico: até colinas íngremes estavam sendo cultivadas até o topo. A erosão do solo não estava sendo prevenida. Os rios transportavam pesadas cargas de lama. A derrubada de florestas levou ao ressecamento de cursos de água e chuvas ainda mais irregulares. Nos fins da década de 1980, a fome voltou a aparecer. Em 1989, uma seca provocou séria escassez de comida.

Como toda a terra nas comunas já estava ocupada, os jovens encontravam dificuldade para casar, sair de casa, adquirir uma fazenda e formar o próprio lar. Nenhum homem solteiro com vinte e poucos anos era independente de seus pais em 1993. Isso contribuiu para tensões familiares letais que irromperam em 1994. Era impossível alimentar tanta gente com tão pouca terra.

A concentração fundiária contribuiu ainda mais para a divisão cada vez maior da sociedade entre os que tinham e os desapossados, com os ricos se tornando cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Fazendas já minúsculas, que precisavam desesperadamente de mais terras, tornaram-se ainda menores através da venda de terras em emergências para grandes fazendas, que financiavam a compra com sua renda extra-fazenda.

A maioria das pessoas era pobre, faminta e desesperada. A cada ano, cada domicílio tinha um ou mais conflitos que pediam intervenção externa. A disputa de terra estavam na origem da maioria dos conflitos mais sérios. Em seguida, vinha uma disputa pessoal – marido versus mulher, ou familiar – relacionado com a disputa de algum pedaço de terra. A perda de proteção solidária vitimou especialmente os grupos vulneráveis da sociedade.

Por exemplo, as famílias originais não aceitavam a volta de mulher e filhos abandonados pelo ex-marido. Filhos de casamento desfeito, quando o pai voltava a casar, e tinha filhos com a nova mulher, eram expulsos de casa pelos meio-irmãos. As disputas de terras mais dolorosas e socialmente desagregadoras eram as de pais contra filhos.

Essa situação de conflito crônico e progressivo forma o cenário no qual as mortes de 1994 aconteceram. As taxas de criminalidade na faixa de 21-25 anos correlacionavam-se com a densidade populacional e a disponibilidade per capita de calorias: alta densidade populacional e fome eram associadas a mais crime.

Havia conexão direta entre pressão populacional e assassinatos. O detonador do genocídio foi o ódio racial estimulado por políticos inescrupulosos preocupados em se manter no poder. A decisão de matar foi tomada por motivos políticos, mas repercutiu, massivamente, porque havia gente demais em pouca terra.

Não cabe o “determinismo ecológico”, no sentido de qualquer “explicação” do porquê do genocídio pode ser interpretadas como “desculpa” para que tivesse acontecido. Mesmo essa explicação simplista de fato único não altera a responsabilidade pessoal dos perpetradores do genocídio de Ruanda por suas ações. Não se deve confundir explicação com desculpa.

É justificável rejeitar a visão simplista de que a pressão populacional foi a única causa do genocídio de Ruanda. Outros fatores também contribuíram:

  1. a história da dominação dos tutsis sobre os hutus,
  2. as grandes matanças de hutus feitas por tutsis no Burundi e menor escala em Ruanda,
  3. a invasão tutsi de Ruanda,
  4. a crise econômica de Ruanda e sua exacerbação pela seca e fatores internacionais, como preços de commodities em baixa e medidas de austeridade impostas pela ideologia neoliberal predominante no Banco Mundial,
  5. os milhares de jovens deslocados para campos de refugiados que foram recrutados por milícias,
  6. a competição entre grupos políticos rivais em Ruanda pela disputa de poder.

A pressão populacional se uniu a esses outros fatores. Era um dos fatores importantes por trás do genocídio de Ruanda. O cenário de pior hipótese entrevisto por Malthus pode às vezes se realizar quando não há no território delimitado nenhuma inovação que propicie aumento da produtividade. Problemas graves de superpopulação, impacto ambiental e mudança climática não podem persistir indefinidamente e provocam uma tentativa de resolução desesperada e, portanto, irracional e criminosa.

Em Ruanda, ainda hoje a população cresce 3% ao ano, as mulheres têm seu primeiro filho aos 15 anos de idade, e a família média tem entre cinco e oito filhos. Isto ocorria no Brasil até inventarem pílula anticoncepcional a população se urbanizar nos anos 1960. Além disso, elevaram-se o nível de escolaridade, a saúde pública preventiva, inclusive campanha antiaids com uso massivo de “camisinha”, e a inserção das mulheres no mercado de trabalho, provocando a queda da taxa de natalidade e o “bônus demográfico”.

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