Ilusões Populares e a Loucura das Massas

Caça às Bruxas

Em um trimestre em que a humanidade está relembrando o genocídio em Ruanda ocorrido há vinte anos, isto é, o massacre perpetrado por extremistas hutus contra tutsis e hutus moderados ocorrido lá, entre 6 de abril e 4 de julho de 1994, ressurge a falsa esperança de “Desumanidade Nunca Mais”…

Vários acontecimentos recentes nos leva à misantropia e à descrença na Civilização Humana. Esta se caracteriza pela proteção contra as forças cegas da natureza e autocontrole dos nossos instintos primitivos. Os instintos humanos básicos são os instintos de defesa, de proteção, de competição e de reprodução. Nenhum deles pode ser exacerbado sob pena de atingir os direitos alheios.

A História da Cidadania registra as conquistas sociais do ser humano ao longo dos três últimos séculos. Ser cidadão é ter direito à vida, à liberdade, à propriedade, à igualdade perante à lei, em resumo, ter direitos civis. É também eleger e participar do destino da sociedade, votar, ser votado, ter direitos políticos. Os direitos civis e políticos não asseguram plena democracia sem ter direitos sociais, aqueles que garantem a participação do indivíduo na riqueza coletiva: o direito à educação, à saúde, a uma aposentadoria. A luta contemporânea é para obter também direitos econômicos, ao trabalho, ao salário justo, de acesso aos bancos e a crédito, a uma renda mínima.

Infelizmente, uma loucura coletiva empolga muito mais do que uma verdade individual. “Ilusões Populares e a Loucura das Massas” é um clássico estudo psicológico do comportamento irracional das pessoas em “manada”. Ao agir de forma totalmente irracional, em espécie de delírio coletivo, as multidões compostas de seres individuais supostamente racionais geram loucura coletiva. A plebe rude, em turba, é ignara

Em abril de 1994, a série de massacres contra os tutsis iniciou-se logo após o assassinato do presidente de Ruanda e do presidente de Burundi, que pegava carona no avião que sofreu o ataque de míssil, orquestrado por uma facção extremista do próprio regime hutu, então no Poder. As milícias hutus, chamadas Interahamwe, foram treinadas e equipadas com facões pelo exército ruandês, em meio a incitação radiofônica (“exterminar as baratas”) à confrontação com os tutsis. Estima-se que mais de 900.000 pessoas foram assassinadas, em média: 10.000 por dia, 417 por hora, 7 por minuto! Quase todas as mulheres tutsis foram estupradas. Muitos das 5.000 crianças nascidas dessas violações foram assassinadas. Muitas mães solteiras estão com Aids devido ao estupro coletivo.

Aqui e ali, os atos desumanos se repetem. Os extremistas islâmicos do grupo Boko Haram reivindicaram o sequestro de 276 meninas de Chibok, no norte da Nigéria, ocorrido no dia 14 de abril de 2014. O movimento prometeu tratar as adolescentes como escravas, vendê-las em países vizinhos e forçá-las a casar. O líder do grupo radical afirmou: “Eu capturei suas meninas. Nós vamos vendê-las no mercado, por Alá. Alá diz que eu devo vendê-las. Ele me ordenou que as venda. Vou vender mulheres. Eu vendo mulheres. Eu disse que a educação ocidental deve parar. Vocês, meninas, devem deixar a escola e se casar”. O Boko Haram prega o fim da educação para mulheres e quer fundar um Estado islâmico no norte nigeriano. O grupo extremista faz uso de uma interpretação controversa e marginal do Alcorão, rejeitada pela maioria dos muçulmanos.

O grupo radical islâmico Boko Haram surgiu quando um candidato oposicionista irresponsável criou uma milícia e a dispersou logo após a eleição, nada fazendo para cuidar de seus membros. Um dos líderes conseguiu explorar a frustração dos integrantes e combiná-la a uma agenda islâmica que acusa as falhas do governo laico. A seita ganhou o apelido de Boko Haram que, em tradução livre da língua hausa, significa “educação ocidental é pecado”.

Estima-se que, desde o início da sua atuação, em 2009, a organização já tenha deixado mais de 3.000 mortos em ataques contra escolas, igrejas, mesquitas e símbolos do Estado nigeriano. Pobreza, desemprego e desespero ante a debilidade do governo central se provaram terreno fértil entre jovens desencantados, muçulmanos pobres atraídos pela seita islâmica.

Algumas das estudantes sequestradas já teriam sido vendidas a US$ 12 (R$ 26) como esposas em mercados na fronteira com o Chade e Camarões. Das 276 adolescentes (entre 16 e 18 anos) capturadas, só 43 conseguiram fugir do cativeiro. Elas denunciaram que as reféns sofrem até 15 estupros diários.

Aqui, no Brasil, o país que mais teve assassinatos em 2012, ou seja, 50.108, 11,4% de todos os homicídios ocorridos no planeta, casos de justiçamento sempre ocorreram, principalmente fora dos grande centros. A diferença é que a internet potencializou essa cultura de ódio. O que está em xeque é a ausência do Estado, pois onde ele não está, e a religião em vez de aplacar incita a fúria, a chamada “justiça popular” aparece sob forma de julgamento primário e linchamento imediato.

Por exemplo, crimes macabros passaram a ser atribuídos à figura de um retrato falado feito pela Polícia Civil do Rio em 2012 e divulgado, irresponsavelmente, pela página do Facebook “Guarujá Alerta”. Ela era descrita como uma suposta sequestradora que matava crianças em rituais de magia negra. O boato terminou com a morte de uma dona de casa, mãe de duas crianças. Confundida com a suposta criminosa, ela foi linchada. A sessão de espancamento foi presenciada por dezenas de moradores do lugar, entre eles, mulheres e crianças.

Outro exemplo, um auxiliar de serviços gerais de 23 anos confessou ter arrancado e atirado a privada que matou outro torcedor de futebol. Integrante da fanática torcida organizada, Inferno Coral, do Santa Cruz (Recife-PE), ele é reincidente em brigas de torcidas organizadas.

Finalmente, os rapazes de 19 e 22 anos acusados acender o rojão que causou a morte de um cinegrafista em manifestações de rua respondem pelo crime de explosão e por homicídio doloso (intencional) triplamente qualificado: com motivo torpe, sem chance de defesa e com uso de explosivo. Poderão pegar até 30 anos de detenção, se condenados. Os jovens ganhavam R$ 150 para promover depredações durante protestos no Rio. Isto deveria ser mais divulgado antes que irresponsáveis, inclusive jornalistas e blogueiros, inflamem novas manifestações de selvageria coletiva e consequências desumanas.

Leia mais:

20 Anos Após: O Genocídio em Ruanda (por Ban-ki-moon)

Sequelas do Genocídio em Ruanda

Genocídio em Ruanda: Malthus na África

Malthusianismo em Ruanda

Linchamento ou Lei de Lynch é o assassinato de um indivíduo, geralmente por uma multidão, sem processo judical e em detrimento dos direitos básicos de todo cidadão.

Muitos autores atribuem a origem da palavra ao coronel Charles Lynch, que praticava o ato por volta de 1782, durante a guerra de independência dos Estados Unidos, ao tratar dos pró-britânicos. Entretanto, é mais seguidamente atribuída ao capitão William Lynch (17421820), do condado de PittsylvaniaVirgínia, que manteve um comitê para manutenção da ordem durante a revolução, por volta de 1780.

A « lei de Lynch » deu origem à palavra linchamento, em 1837, designando o desencadeamento do ódio racial contra os índios, principalmente na Nova Inglaterra, apesar das leis que os protegiam, bem como contra os negros perseguidos pelos “comitês de vigilância” que darão origem ao Ku Klux Klan. No sul, é a desconfiança da lei e a reivindicação de anarquia que favoreceram seu desenvolvimento.

Nos Estados Unidos, antes da Guerra Civil, o linchamento era usado principalmente contra defensores dos direitos civis, ladrões de cavalos e trapaceiros. No entanto, por volta de 1880, seu uso se expandiu para grupos de status social supostamente mais baixo, como negros, judeus, índios e imigrantes asiáticos.

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