Mercado Bancário e Perspectivas de Negócios

Sindicato dos Bancários de Campinas - 60 anos

Fui convidado a dar uma aula/palestra na quarta-feira, dia 14/05/2014, sobre “Sistema Financeiro e Financiamento da Acumulação de Capital” no Curso de Doutoramento do IE-UNICAMP.

A Diretoria do Sindicato dos Bancários de Campinas e Região me convidou  a participar do debate “Reestruturação do Sistema Financeiro: para onde caminham os bancos” como palestrante.

Será a segunda etapa do Ciclo de Debates “60 anos”, na sede do Sindicato, às 19h. O professor de economia da Unicamp, Fernando Nogueira da Costa, a técnica do Dieese Regina Camargos e o secretário de Organização do Ramo Financeiro da Contraf-CUT, Miguel Pereira, vão abordar a reestruturação do sistema financeiro e buscar uma resposta para a seguinte indagação: Para onde caminham os bancos?

O evento será realizado dia 15 de maio de 2014, quinta-feira às 19:00h, na sede do Sindicato, localizado na Rua Ferreira Penteado, 460, Centro, Campinas-SP.

Com denominações e dimensões diversas, pois ocultarei alguns slides nas exposições orais, a apresentação básica é a seguinte:

Palestra FERNANDO COSTA – Mercado Bancário e Perspectivas dos Negócios

Resumo:

O Brasil dos bancos não pode ser apenas o Brasil dos brancos! Esta talvez seja a grande lição da história bancária brasileira: todo banco que se volta, exclusivamente, ao atendimento da “elite branca” torna sua presença insignificante, para o povo brasileiro, embora o banqueiro possa ser muito bem-sucedido em termos pessoais, principalmente, vendendo seu banco para estrangeiros. Embranquece, enriquece, desaparece… da construção da nação!

Essa foi a história dos bancos estrangeiros, especialmente, a dos norte-americanos aqui. Acompanhando apenas seus clientes, seja grandes corporações, seja a colônia de imigrantes oriundos de seus países, restringiram-se aos negócios com câmbio, remessas de dinheiro e/ou financiamento do comércio externo. Não atenderam às atividades internas nem ao povo brasileiro. Perderam significado no varejo.

Os grandes bancos brasileiros, públicos e privados, pelo contrário, colaram suas estratégias comerciais aos rumos recentes do País. Perceberam a necessidade de investir em automação bancária para atender em massa.

Seus gastos em tecnologia de informações (TI) representavam 10,4% de seus gastos totais. Os serviços financeiros representavam 11,7% dos gastos totais em TI no Brasil. Os gastos em tecnologia bancária são crescentes: de R$ 12,6 bilhões em 2008 para R$ 20,1 bilhões em 2012.

O acesso popular ao sistema de pagamentos com moeda bancária só se viabilizou pelo avanço tecnológico da indústria bancária brasileira. O barateamento do atendimento através de cartões eletrônicos, devido à automação bancária, possibilitou ampliar o acesso de clientes pobres.

Enquanto uma transação na agência custava ao banco US$ 1,07, no telefone saía por US$ 0,54, nas máquinas de autoatendimento, US$ 0,27, no home banking a US$ 0,15 e na internet por apenas US$ 0,10. Em média, cada uma da mais de 36,2 bilhões de transações bancárias realizadas em 2012 custou R$ 0,27.

Existiam 166 milhões de contas correntes em 2012, mas com 127,6 milhões de CPFs cadastrados com relacionamentos ativos no sistema financeiro nacional, ou seja, 77% das contas correntes. Esses números, respectivamente, da FEBRABAN e do Banco Central do Brasil, divergem da (sub)estimativa do Banco Mundial de que apenas 55,9% da população adulta brasileira estaria “bancarizada” em 2011.

Também não parecem ser muito verdadeiros os números de clientes divulgados pelos grandes bancos. Somando as contas correntes (Itaú, 26 milhões; Bradesco, 26,4 milhões; Caixa, 20,8 milhões; Banco do Brasil, 36,1 milhões) atinge-se 109,3 milhões. Porém, somando-se as bases de clientes, só do Bradesco (74,1 milhões), do Itaú (57,8 milhões), da Caixa (62 milhões) e do BB (56 milhões), ultrapassam 242,5 milhões, ou seja, mais do que toda a população brasileira!

Os meios de pagamentos eletrônicos são estratégicos para banco, pois quanto mais comum for seu uso por parte dos seus correntistas, menores serão os saques em papel-moeda e maior será o multiplicador monetário. Reter seus depósitos à vista, via fidelização de seus clientes ao uso de cartões e/ou internet banking, passou a ser estratégia fundamental dos bancos. Se a cadeia comercial entre compradores e vendedores se constituir entre os próprios clientes, não haverá vazamento de recursos de seu sistema de fluxos eletrônicos, e o multiplicador torna-se endógeno!

Outra ideia-chave, para se entender o sistema financeiro nacional, é que as Instituições Financeiras Públicas Federais (IFPF) podem gerar políticas públicas cujo gasto efetivo sai por cerca de 10% do custo fiscal potencial. Em termos de custo fiscal e orçamentos governamentais, IFPF podem “fazer mais por menos”. São 9 vezes mais, se comparar o valor em dinheiro necessário para executar diretamente políticas públicas com a mesma quantidade de recursos capitalizados pelo Tesouro Nacional nas IFPF para alavancar empréstimos e tomar depósitos.

Uma inovação financeira recente é que grandes empresas não-financeiras emitem títulos de dívida direta (debêntures e notas promissórias) com longo prazo de vencimento, cujos lançamentos são operações estruturadas por bancos que oferecem “garantia firme” de colocação junto aos investidores e/ou na própria carteira de ativos. Bancos emitem como passivos dessas operações as Letras Financeiras (Subordinadas ou não), com dois ou cinco anos para vencimento, que segregam em “administração de recursos de terceiros”, isto é, nos fundos de investimentos. Os investidores desses fundos, devido à baixa taxa de juros de referência, em termos reais, estão agora dispostos a assumir maior risco, diversificando entre o risco privado e o risco soberano, com a finalidade de aumentar o retorno financeiro.

As captações, em geral, têm características de taxas, prazo e liquidez bastante distintas das apresentadas pelos empréstimos concedidos. Ao produzirem esse descasamento entre os fluxos de caixa dos passivos e dos ativos, os bancos expõem-se ao risco de variação de taxa de juros. O risco de refinanciamento ocorre também quando capta-se recursos por meio de depósitos a taxas flutuantes (pós), sujeitas a frequentes ajustes, e se empresta com taxas prefixadas (ou vice-versa). O valor de mercado de qualquer ativo é igual aos seus fluxos futuros de caixa descontados, isto é, trazidos para seu valor atual. O aumento da taxa de juros básica eleva a taxa de desconto aplicável a esses fluxos de caixa e reduz o valor de mercado do ativo.

Somente com o casamento das durações médias de seus ativos e passivos, ou seja, levando em conta o momento exato de ocorrência de fluxos de entrada ou saída de caixa, poderia o banco proteger-se contra o risco de variação de taxa de juros. Como isso não ocorre, na realidade, ele precifica todos os riscos, inclusive o da inadimplência, e os repassa para os devedores adimplentes. “Os justos (adimplentes) pagam pelos pecadores (inadimplentes)”… E o crédito fica caro!

Outro componente importante dos “spreads”, que não depende dos bancos, são os impostos diretos e indiretos e demais encargos fiscais e parafiscais, tais como o custo do compulsório, dos subsídios e do direcionamento de crédito. Esses custos no Brasil são mais altos do que a média internacional e, em conjunto, representam cerca de 25% na composição dos “spreads”. Já os custos administrativos assumidos pelos bancos, que representam 12% dos “spreads”, são outro fator que poderia estar mais controlado pelos bancos, por exemplo, o excessivo custo da publicidade repassado para o devedor. É possível diminuir o custo do crédito no Brasil!

A História do Crédito Rural no País é relativamente fácil de se sintetizar e memorizar. Considerando-o deflacionado, ele se elevou de 1969 a 1979, pois foi amplamente subsidiado com custo abaixo da correção monetária. Entretanto, foi parcamente fiscalizado. Houve desvio para compra de terras, elevando a concentração fundiária, e aplicações no mercado financeiro, aumentando a concentração de riqueza. Com a crise final do regime militar e a reestruturação das finanças públicas, inclusive com o fim da Conta de Movimento entre o Banco do Brasil e o Banco Central do Brasil, ele declinou até o final do primeiro mandato do Governo FHC. Em aparente paradoxo, o PIB agrícola se elevou durante todo esse período, demonstrando que não havia correlação entre as duas séries… E muito menos causalidade!

As fontes de recursos para o crédito rural se alteraram. Os recursos obrigatórios (alíquota de 34% dos depósitos a vista com remuneração de 5,5% aa) que atingiam cerca da metade entre 2006 e 2011, em 2012 baixaram para 34% em contrapartida da alta da participação dos depósitos de poupança rural (de 18,7% para 31,8%) no mesmo período. Fundos constitucionais (FCO, FNE, FINOR) giraram em torno de 8%, enquanto o BNDES apoia, crescentemente, atingindo 9,9%. O fato é que pouco se usa de recursos livres para financiar o agronegócio – menos de 5% – em que pese o Brasil ter se tornado “o celeiro do mundo”. Bancos privados só emprestam obrigados.

No Brasil, o subsídio está, basicamente, no crédito agrícola. Este possui taxa de juros não só abaixo da taxa de referência do mercado de dinheiro, como também seu custo chega a ser inferior às variações do índice geral de preços. Dessa forma, há a tradição histórica dos produtores adotarem a “regra do terço” em seus financiamentos: 1/3 com recursos próprios, 1/3 em crédito comercial dos fornecedores de insumos e maquinarias e 1/3 em crédito bancário.

O subsídio agrícola ao crédito rural no Brasil é relativamente diminuto face às experiências de outros países, sendo equivalente de 3 a 4% da renda agrícola. Nos Estados Unidos, atinge 18%. Na Europa, chega a 34% dessa renda. Lá o Estado chega a subsidiar até 90% não é no crédito, mas sim no prêmio do seguro rural.

A adoção de política preventiva, seja via seguro rural, seja via instrumentos de hedge no mercado de derivativos, para o agrobusiness exportador, seria o caminho para se evitar os recorrentes perdões das dívidas propostos pela “bancada ruralista”. Em dezembro de 2003, foi implantada nova legislação referente a esse seguro, cujo objetivo principal é garantir 70% da renda em caso de sinistro climático. O Banco do Brasil já condiciona o financiamento de custeio à aquisição do seguro.

O governo brasileiro pretende adotar mecanismos capazes de assegurar a convergência entre o valor do prêmio que o produtor pode pagar e o que a seguradora julga economicamente viável. Assim, os riscos climáticos e sanitários seriam mitigados com o seguro rural e os riscos de mercado, com o mercado formal de derivativos agropecuários em operações de hedge. As transações com derivativos envolveriam instrumentos contratuais de venda antecipada e proteção contra variações cambiais. Tratar-se-ia de transição histórica: da economia de endividamento, via BB, para economia de mercado de capitais, via seguradoras ou BM&F.

Também a História do Financiamento Imobiliário no Brasil pode ser sintetizada. No final do regime militar (1979-1982), com a prefixação da correção monetária e o choque cambial (maxidesvalorização da moeda nacional) e consequente choque inflacionário, sob o comando do Delfim Netto, provocou-se, inicialmente, o aumento da contratação, e, posteriormente, a inadimplência dos mutuários. O período 1983-1986 foi “a crise do sub-prime brasileira”, inclusive com a quebra do BNH e a criação do FCVS (Fundo de Compensação da Variação Salarial), dívida pública que só será resgatada em 2027. A gestão da massa de inadimplência manteve-se até 2001 (com sua transferência para a EMGEA) sem expansão significativa do crédito imobiliário, exceto a derivada do “Margaridaço” (originada com a Ministra Margarida Procópio do Governo Collor), a alta artificial da concessão de crédito habitacional sem avaliação de risco, realizada em 1991. A sociedade brasileira ficou, praticamente, 20 anos (1983-2003) sem acesso fácil ao crédito imobiliário!

No final de 2004, levei um estudo de minha equipe da VIFIN ao presidente da Caixa, Jorge Mattoso, mostrando que a Caixa não concedia crédito imobiliário com recursos dos depósitos de poupança desde 1992, pois estava “sobreaplicada” acima de 65% da exigibilidade. Tomamos a decisão de transferir esses recursos até então aplicados em Tesouraria de volta ao financiamento do SBPE. A VIURB, Vice-presidência de Desenvolvimento Urbano, foi mudada em abril de 2005, assumindo-a o Jorge Hereda, atual presidente da Caixa. Desde então, houve um re-evolução no crédito imobiliário no Brasil, acentuada pelo programa social MCMV (Minha Casa Minha Vida)!

O MCMV já contratou 3.316.430 unidades habitacionais, 1.857.815 foram construídas e 1.614.820 entregues. A média anual do financiamento imobiliário por governo está a seguinte: FHC, 181,6 mil; Lula, 474 mil; Dilma, 1.095,5 mil.

O crédito imobiliário é o que cresce mais rapidamente entre todas as modalidades de financiamentos, sua participação no PIB, mesmo subestimada pelo Banco Central, em 2013 atingiu 8,2%, certamente alcançará 12% até o final da década, porém em um patamar bem inferior ao dos países que passaram por “bolha imobiliária”, como Estados Unidos (68,8%) e Espanha. Nesses, fizeram securitização do crédito imobiliário. Há vantagens de emissão de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI): realização de lucro antecipada; redução dos riscos pela transferência para companhias securitizadoras e, daí, para investidores institucionais (fundos de pensão); e ganho de liquidez com a maior rotação de capital para a concessão de novo crédito.

Finalmente, vale citar a área estratégica de negócio bancário relacionada à mobilidade social, pois a Classe Média (C) passou de 38%, em 2002, para 55,3%, em 2012, e as Classes AB passaram de 7,4% para 11,7%. Cerca de 104 milhões de pessoas pertencem à Classe Média, cujo limite inferior de renda é R$ 291 per capita. Ela tem hoje 37 milhões de pessoas a mais do que tinha há uma década.

Com isso, o País passou a ter cerca de 3,5 milhões de vendas anuais de automóveis e se aproximou de 2 milhões de motos. O índice de habitantes por veículo (5,7) ainda é relativamente alto. O financiamento a veículo está estacionado em torno de 7% do saldo total de crédito. O País tem o 4o. maior mercado de automóveis do mundo em vendas, embora seja o 7o. maior produtor. Da sua frota de 40,8 milhões de veículos somente 30% é segurada. Portanto, tanto em financiamento, como em vendas de seguros, esta área automobilística possui um futuro promissor no Brasil.

Cabe, por fim, registrar que embora o País tenha o 7o. maior PIB no ranking mundial de 2013, na relação prêmios / PIB (3,7%) ele ficou em 13o. lugar com apenas 1,88% do mercado global de seguros. Há apenas 10% das residências seguradas, planos de saúde cobrem 24% da população e planos odontológicos, 8%. Como 29,7% será a parcela de idosos na população brasileira, em 2050, haverá imensa janela de oportunidade histórica aberta para os negócios bancários nas áreas de seguros, previdência complementar e crédito consignado para aposentados.

O crédito educativo (também consignado no primeiro emprego) será outra oportunidade, em um País futuro exportador de petróleo, cujo Fundo Social de Riqueza Soberana investirá 75% em Educação e 25% em Saúde. A qualidade de vida do povo brasileiro melhorará muito!

 

One thought on “Mercado Bancário e Perspectivas de Negócios

  1. A relação entre desregulamentação bancária e desigualdade racial vem sido estudada pelo Ross Levine e seus co-autores.

    Bank Deregulation and Racial Inequality in America
    https://www.law.berkeley.edu/files/Levine_banks_and_racial_inequality.pdf

    Abstract
    We use the cross-state, cross-time variation in bank deregulation across the U.S. states to assess how improvements in banking systems affected the labor market opportunities of black workers. Bank deregulation from the 1970s through the 1990s improved bank efficiency, lowered entry barriers facing nonfinancial firms, and intensified competition for labor throughout the economy. Consistent with Becker’s (1957) theory of racial discrimination, we find that in economies where employers have sufficiently strong racial biases, deregulation-induced improvements in the banking system boosted black workers’ relative wages by facilitating the entry of new firms and reducing the manifestation of racial prejudices in labor markets.

    Esse é o link do working paper. O publicado final está em
    http://www.nowpublishers.com/articles/critical-finance-review/CFR-013

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