Finanças para Aposentadoria

Retrato do Futuro Atual

Sérgio Tauhata (Valor, 12/06/14) avalia que, na busca por entender o futuro, as pessoas costumam olhar para o passado. Entretanto, esse apoio na segurança das experiências já vividas ou testemunhadas pode gerar expectativas que, em grande parte das vezes, não se concretiza. O mesmo efeito ocorre quando se fala em aposentadoria. É o que mostra pesquisa feita pela consultoria Mercer com 1,5 mil aposentados que contribuíram com Planos de Previdência Complementar.

O estudo revela um quadro no qual, para a maioria, a vida ficou mais difícil após a saída do mercado de trabalho. Do total de entrevistados, 63% viram suas despesas permanecer iguais ou aumentar ao mesmo tempo que a renda diminuiu significativamente. Conforme o levantamento, 50% passaram a receber entre 40% e 80% do salário, mesmo se somado o benefício recebido pelo INSS, enquanto outros 40% tiveram uma redução dos recursos da ordem de 60% ou mais em relação à época ativa, também incluída a pensão oficial.

Os dados reforçam a percepção de que, em geral, as condições válidas para uma geração quase nunca vão funcionar para a próxima. O estudo revelou alguns dados e informações muito interessantes e contrárias ao que todo mundo achava.

Uma das ideias correntes sugere que, após a aposentadoria, ocorre uma redução de custos devido ao fim de gastos antes usuais, como transporte, educação e outros. Segundo a pesquisa, há uma realidade totalmente diferente para a maioria. Embora exista diminuição de algumas despesas, outras sobem muito mais. É o caso da saúde. Junto com uma maior necessidade de consultas, exames e remédios, a pessoa passa a bancar sozinha o plano de saúde, antes subsidiado pela empresa. Além disso, a renda na aposentadoria no máximo é revisada pela inflação e, como os custos da saúde sobem acima da inflação, pode se tornar algo impagável.

Há essa disparidade entre o que se espera e a realidade. Em geral, as pessoas acreditam que vão precisar de 70% da renda depois de se aposentar. É equivocada essa conta. As pessoas pensam que vão ficar de pijama em casa, mas vão querer viajar, sair, comprar um smartphone, ver tevê por assinatura. São muitos novos gastos.

Dentro de um cenário no qual os benefícios advindos do INSS e da Previdência Complementar podem não ser suficientes para pagar as contas, muitos optam por se manter na ativa. De acordo com o estudo, quase metade dos aposentados, ou 49%, continua a trabalhar. E não necessariamente para se manter ativos, mas para buscar uma adequação de renda nessa fase da vida.

A pesquisa confirma ainda uma conta salgada que as pessoas deveriam pagar, mas têm preferido adiar. O brasileiro vai precisar praticamente dobrar seu esforço de acumular reservas, realizado atualmente, se quiser garantir uma renda confortável na aposentadoria. De acordo com os cálculos da Mercer, a média atual das contribuições para a Previdência Privada, em torno de 10% do salário, garante um benefício de apenas 48% a 52% sobre o rendimento na ativa.

Se a pessoa ganha de R$ 4 mil a R$ 10 mil, precisa elevar a contribuição de 10% para 19%, ao longo de 30 anos, caso queira assegurar uma renda equivalente a 100% da época da ativa. Ainda conforme a pesquisa, aqueles com remuneração superior a R$ 10 mil, necessitam elevar o valor destinado ao plano privado de 10% para 18% para garantir recursos na aposentadoria da ordem de 80% do último holerite.

Já para quem recebe até R$ 4 mil, segundo os cálculos da Mercer, os aportes, hoje equivalentes a 5% da renda, vão ter de subir para 8% ao longo de 30 anos, como forma de assegurar uma rendimento de 120% do salário – isso porque o aumento dos gastos para essa faixa é maior relativamente à renda.

O peso dessa “poupança”, no entanto, é menor o quanto antes se começar a fazê-la. É preciso criar uma cultura de longo prazo desde tenra idade. Como acontece em outros países, a pessoa tem de ter essa consciência de que, desde quando ganhar o primeiro salário, tem de guardar parte desse recurso.

Uma simulação da Mongeral Aegon ilustra o quanto mais leve fica o esforço com maior tempo. Segundo os cálculos da seguradora, com juros nominais de 6% anuais, se um trabalhador começar aos 20 anos a fazer aportes de R$ 500 por mês vai ter R$ 1 milhão quando alcançar 60 anos. Se, no entanto, postergar por 10 anos o início desse plano terá de poupar R$ 980, ou seja, 96% a mais para obter o mesmo montante. Quem investe 10% do salário e percebe que tem de dobrar o aporte é porque começou tarde.

Outro fator que tem mudado de maneira acelerada, e certamente será diferente para as próximas gerações, é a expectativa de vida. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos anos 70 para cá os brasileiros ganharam 24% a mais na média de suas existências. Essa longevidade ampliou as fronteiras da aposentadoria. De várias maneiras.

A consequência mais óbvia é a maior necessidade de recursos para suportar os anos a mais de vida. Entretanto, ao mesmo tempo, permite aos brasileiros compensar a diminuição da rentabilidade real das aplicações ocorrida nas últimas décadas com mais anos de trabalho e contribuição.

Há também aqueles que comemoram a longevidade. É o caso do engenheiro Renato Petry, de 62 anos, que há três se aposentou pelo INSS e, ao mesmo tempo, converteu em renda vitalícia o plano de previdência privada para o qual contribuiu por mais de 20 anos. “Tenho uma consultoria na área de transportes, mas não penso em deixar de trabalhar”, diz. Para o engenheiro, as rendas significam uma segurança nessa fase da vida e também uma nova possibilidade: a de desacelerar o ritmo. “Cada vez mais estou intercalando o trabalho com viagens de turismo, de conhecimento, cursos e outras atividades mais pessoais“, conta o consultor, que enxergou nos anos a mais a possibilidade de optar por um recomeço em lugar de um final feliz.

Benefício Fiscal no Longo Prazo

“A gente não acredita que vai ficar velho, mas esse dia chega.” O economista Felipe Westin tinha 35 anos quando essa consciência tomou conta de seus pensamentos a ponto de se tornar impossível de ignorar. Hoje, com 61 anos, considera-se feliz pela decisão tomada lá atrás de planejar – e executar – os planos para o momento de sua saída do mercado de trabalho.

Aposentado pelo INSS desde 2008 e com uma renda vitalícia conferida pelo seu plano de previdência privada, que passou a ter neste ano, Westin recebe ainda aluguéis de alguns imóveis comerciais, comprados ao longo dos 35 anos de carreira em multinacionais, dos quais 20 como diretor de recursos humanos. “É comum as pessoas chegarem a certa idade com muita dificuldade financeira e dependendo de filhos. Não queria isso para mim”, afirma o ex-executivo.

Mesmo com a independência financeira garantida, o economista não quis parar de vez. Em lugar de vestir o pijama, mantém há quase 10 anos uma consultoria na área de RH junto com uma das filhas. “Enquanto tiver clientes eu continuo na ativa. Mas agora posso ficar na ativa com tranquilidade.”

A história do economista ilustra a importância de, literalmente, ser previdente. As pessoas precisam se conscientizar da necessidade de se fazer uma poupança cada vez mais cedo.

No planejamento ideal, o futuro aposentado, além da contribuição para o INSS, deveria começar sua previdência privada na casa dos 20 anos. Assim, aos 60 anos, teria acumulado quatro décadas de aportes. Nessa situação, 10% do salário mensal seria suficiente para se obter um benefício entre 80% e 100% do último rendimento, quando somadas a pensão oficial e a renda do plano privado.

Porém, o mais comum no Brasil é que os trabalhadores comecem a poupar para a aposentadoria mais tarde, entre 30 e 40 anos. Em qualquer fase da vida, “a poupança adequada é a possível”. O o esforço de economia não deve prejudicar os projetos de curto e médio prazos. Porque muitas vezes estão ligados à educação, ao desenvolvimento profissional, à família e à construção de patrimônio.

Mesmo quem não conseguiu um volume de recursos confortável até o momento de se aposentar, pode ainda otimizar o patrimônio. Muita gente deixa de considerar o patrimônio na longevidade. Um apartamento ou casa muito grande, por exemplo, adquirido para ser a residência da família, pode ser vendido para a compra de um imóvel menor e a diferença ser aplicada como recurso para a aposentadoria.

É preciso tomar cuidado, por exemplo, com a parte imobilizada do patrimônio que gera custos, alguns inesperados. Foi o que aconteceu com o engenheiro aposentado José Tanaka, de 76 anos. “Tenho um terreno na praia que comprei há 30 anos para fazer uma casa. Mas nunca construí”, conta. Em 2014, o aposentado recebeu uma multa de R$ 3 mil por não ter limpado a área.

O primeiro passo para um final – ou um início – feliz na aposentadoria começa por fazer as contas e saber o quanto será necessário para manter o padrão de vida e qual a capacidade de poupança. Quando não se tem esses números, é impossível planejar.

Esse planejamento pode ser feito por etapas. Uma dica é estabelecer objetivos de médio prazo em lugar de apenas um com horizonte demasiado amplo. Tem gente que começa a poupar para aposentadoria, outros para abrir um negócio, para viajar, morar fora ou tendo como foco a educação. À medida que o tempo passa,  é preciso revisitar esses objetivos. É importante fazer planos intermediários. E, por mais que acabe gastando parte da poupança, você criou a disciplina de economizar no longo prazo.

O planejamento também deve levar em conta o tipo de renda na aposentadoria. Nos planos abertos, como os PGBLS e VGBLS, ao final do período de contribuição, o cliente pode optar por ser vitalícia ou por tempo determinado. Essa renda pode ser revertida ao cônjuge ou aos filhos em caso de morte do titular. Essa conta deve ser feita, porque a mesma reserva gera diferentes rendas, de acordo com as condições desejadas

Um “instrumento” fundamental para um bom planejamento financeiro é o orçamento.

O orçamento nos auxilia a acompanhar, de uma forma organizada, de onde vem e aonde vai o nosso dinheiro. É uma peça fundamental para a otimização das nossas receitas, pois nos ajuda a:

1) Ter uma visão mais precisa da nossa pauta de despesas;

2) Avaliar se estamos direcionando nossas receitas para o que realmente é necessário e importante;

3) Possibilitar que sejam feitos os ajustes necessários e/ou possíveis.

A estrutura orçamentária serve, também, para projetar a renda futura desejada/necessária após a saída da ativa. Desta forma podemos estabelecer um valor mais adequado para os cálculos da longevidade.

Qual deveria ser o montante de reservas/patrimônio no momento da saída da vida ativa para suportar a longevidade?

Algumas considerações:

a) Prazo na aposentadoria – em função do aumento da longevidade, os patamares usados serão de 35 e 40 anos.

b) Renda futuraR$ 20.000,00;

c) Juro real – trabalhar apenas com juro real (juro nominal descontada a inflação e o imposto de renda), sem considerar a inflação na montagem do fluxo de caixa.

d) Momento da aposentadoriacálculos feitos como se o início da aposentadoria fosse imediata. Cabe ressalvar que diferentes prazos até a aposentadoria resultarão em valores diferentes para as reservas necessárias.

Partindo-se de uma renda futura desejada de R$ 20.000,00 e dos parâmetros descritos, com prazo na longevidade de 35 anos, as reservas necessárias estimadas são de R$ 6.542.697,00, com 1,5% de juro real ao ano; de R$ 6.054.469,00, com 2% ao ano; e R$ 5.618.203,00, com 2,5% ao ano.

Com prazo de 40 anos, as reservas são de R$ 7.229.030,00, com 1,5% ao ano; de R$ 6.625.282,00, com 2% ao ano; e R$ 6.093.391,00 para 2,5% ao ano.

Esses valores de patrimônios milionários poucos alcançam. O efeito do nível da taxa de juros real é extremamente relevante. Melhor tomar decisões profissionais que garantam a manutenção do último salário durante a aposentadoria. Ou investir em imóveis que garantem renda de aluguel nesse montante. Em valor presente nominal, lembre-se que 0,5% ao mês de depósito de poupança (ou alugueis) de 4 milhões de reais que resultam em um rendimento mensal de R$ 20.000…

Buscar um maior patamar de retorno para as reservas aumentando o grau de risco da carteira de investimento, não apenas em renda variável e como em outras modalidades de ativos/operações, é absolutamente pertinente e deve ser analisado quando é ainda jovem. No entanto, cabe lembrar que “correr mais risco” requer uma avaliação consistente e criteriosa sobre o seu perfil de investidor para verificar a sua “disposição” e a sua capacidade de assumir possíveis oscilações (volatilidade) e perdas decorrentes do maior risco.

 

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