Islã no Tempo

Ramadã muçulmano

O surgimento do islã tem data e local demarcados: começo do século VII, na Península Árabe. Séculos antes, no mesmo lugar ocorreu a revolução monoteísta – a fé em um deus único, introduzida pelo judaísmo e pelo cristianismo –, tradição que talvez tenha facilitado a recepção da nova crença.

A Arábia vivia então à margem das duas superpotências do Oriente Médio da época: a Pérsia (que se tornou o Iraque após 1930) e o Império Bizantino. Este, cuja capital era Constantinopla (hoje Istambul na Turquia), surgira com a divisão do Império Romano em dois, o do Ocidente e o do Oriente, na década de 330 d.C. Essa estrutura bizantina absolutista sobreviveu mais de mil anos, até a conquista turca em 1453.

Em 395, o cristianismo tornara-se a religião oficial, completando sua transformação de fé contestatória das classes inferiores (escravos e estrangeiros no Império Romano) em uma Igreja poderosa, cuja autoridade estava sobreposta à do Estado. O Império Bizantino nunca conheceu a separação entre Igreja e Estado, característica da cristandade ocidental. O “cesaropapismo” foi fenômeno que serviria de modelo para sobreposição entre religião e política no islã.

Disputas religiosas transformavam-se automaticamente em conflitos políticos – e vice-versa. Rivais políticos eram considerados hereges. Por exemplo, houve o debate sobre a natureza de Cristo: ser divino ou ser humano? Após vários concílios ecumênicos, ficou determinada a natureza dual do “filho de deus”, a um só tempo divina (sobrenatural) e humana (natural), paradoxo doutrinário aceito até hoje nas Igrejas Ortodoxa e Católica.

O monofisistas, que acreditavam apenas na natureza divina de Jesus, logo se viram transformados em hereges e foram alvo da intolerância imperial. Quando o islã, vindo do deserto árabe, surgiu em cena no chamado Crescente Fértil – região em forma de meia-lua, situada entre a costa leste do Mediterrâneo e o golfo Pérsico – aproveitou-se da frustração e da insatisfação daqueles perseguidos, etnicamente mais próximos dos árabes do que dos bizantinos.

Bizâncio sofreu reduções periódicas e significativas de seu território, devido às invasões de nômades da Ásia Central e de inúmeros confrontos como os persas, inclusive exaurindo militarmente os bizantinos. O Império Persa, herdeiro da antiga civilização do zoroastrismo, cujo profeta-fundador mítico no século VI a.C. era Zaratustra (Zoroastro), constituíra o único Estado à altura do Império Romano e do Império Bizantino.

Guerras intermináveis inviabilizaram a Rota da Seda, eixo comercial de caravanas que carregavam produtos de luxo oriundos da China, através da Pérsia, para o mundo mediterrâneo controlado por Constantinopla. Os comerciantes buscaram caminhos alternativos, alcançando região semisselvagem, em particular a cidade de Meca, tradicional centro de peregrinação graça a um meteorito negro de 30 centímetros de diâmetro, reverenciado como pedra sagrada.

Maomé ou Muhammad (570-632 d.C.) foi o profeta fundador do islã. Nem todos os habitantes do deserto da Arábia eram beduínos, ou seja, nômades e pastores. No Iêmen, área meridional chamada de “Arábia feliz” por ser mais chuvosa e fértil, havia reinos e civilizações avançados e laços históricos com Estados africanos. Meca era um entreposto comercial para os nômades.

O estilo de vida beduíno valorizava, acima de tudo:

  1. a liberdade de movimento,
  2. a honra ligada, em particular, ao controle da sexualidade feminina, e
  3. a solidariedade para com os membros do clã.

A organização social era tribal: a linhagem de uma pessoa, seu parentesco, superava quaisquer outras lealdades.

A maioria dos beduínos era constituída de pobres. Brigavam pelos recursos escassos disponíveis, por exemplo, água e animais, provocando ciclos de vingança. A população, em geral, era politeísta, ainda que tribos judaicas e cristãs pudessem ser encontradas ao norte da península, nas regiões mais próximas à Síria e à Palestina.

O islã pretendia superar tais tradições, mas a ética beduína não desapareceria. Na verdade, com as conquistas árabes sob a bandeira verde do islã, ela disseminou-se por todo o Oriente Médio.

Maomé foi criado como mercador em Meca. Casou-se aos 25 anos com uma rica viúva bem mais velha. Em suas viagens, entrou em contato e foi influenciado por árabes judaicos e cristãos. Aos 40 anos, começou a receber visões e ouvir vozes, que acreditou serem de origem divina, por revelarem “a palavra de deus”. Dizia que ele era um deus único e onipotente, perante o qual cada ser humano teria de se submeter e venerar: a palavra islam significa exatamente submissão.

Ao se considerar “o escolhido por deus”, passou a assumir o papel de profeta, isto é, de revelador das mensagens divinas no sentido de:

  1. pregar e converter seus compatriotas;
  2. organizar uma comunidade de crentes.

Contudo, o Alcorão (recitação), compilação de todas as revelações concedidas a Maomé, só receberia sua versão definitiva 30 anos após sua morte. Face às ameaças de dissidência, houve por bem a redação de um texto consensual.

Dada a insistência de Maomé em destruir as imagens dos deuses politeístas, a elite comercial de Meca, cuja renda do turismo religioso ficou ameaçada, tratou de expulsá-lo com seus seguidores no ano de 622 d.C.. Essa fuga (hijira ou migração) para al-Medina, situada a 300 Km de Meca, marca o início do calendário muçulmano.

Em Medina, os muslimin (submetidos, origem da palavra muçulmanos) impuseram sua superioridade militar. Medina foi a primeira comunidade a viver sob as leis muçulmanas. Os novos fiéis, recém convertidos, se comprometiam a realizar uma guerra de expansão do islã. Impuseram a substituição das tradicionais solidariedades tribais por religiosas. Maomé transformou-se de pregador desprezado pela elite em líder político e militar. Pouco antes de morrer, ainda fez uma peregrinação à Meca, lugar doravante dedicado ao deus único.

1 thought on “Islã no Tempo

  1. Prezado Fernando,

    em minha opinião as crenças monoteístas ou politeístas em entidades ou deuses, talvez sejam a pior ilusão humana de todos os tempos. Não existem deuses, entidades ou qualquer outro tipo figurativo, isso é fruto de uma imaginação dominada pelo medo e pela ignorância.
    A sorte do ser humano é que o mundo hoje é gerido pela ciência e tecnologia, caso contrário, estaríamos perdidos se fôssemos conduzidos apenas por uma fé cega. Abs.

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