Discriminações Islâmicas Contra As Mulheres

 

Imagens da semana 204 - MDigAo longo da história do islã, três grupos foram excluídos da igualdade que, em princípio, regeria as relações entre os fieis: escravos, não muçulmanos e mulheres. Sendo que as escravas mulheres serviam unicamente ao prazer do homem, em concubinato indicado por juristas islâmicos como alternativa ao vício. Os descendentes de tais laços eram muitas vezes alforriados e contribuíram para o processo de mestiçagem no Oriente Médio.

O número de escravas que um homem podia ter era em princípio ilimitado, ao contrário do casamento com mulheres livres, restrito a quatro esposas ao mesmo tempo. Estas se distinguiam das escravas por sinais exteriores de respeitabilidade como o véu.

As mulheres no mundo muçulmano constituem objetos de fascínio para o Ocidente: ontem, a fantasia da sensual criatura do harém; hoje, vítima de opressão, velada e genitalmente mutilada. Ambas as imagens representam um Oriente estereotipado. Ambas, segundo Peter Demant (O Mundo Muçulmano, Editora Contexto, 2013: 148), são “exageros que não descrevem a realidade social da esmagadora maioria das muçulmanas, correspondendo apenas a fragmentos da realidade.

Ao contrário do islã tradicional, a modernidade ocidental se caracteriza, entre outros fatores:

  1. por reivindicações pela igualdade civil entre mulheres e homens e
  2. por tentativas para melhorar a posição delas na sociedade.

A cidadania, marca da posição do indivíduo na sociedade, não faz distinção entre os sexos – nem entre classes, raças, etnias, etc. O mundo muçulmano não está isento desta influência.

Porém, no pensamento islâmico, a posição da mulher é inferior à do homem, situação que reflete a realidade sociológica da sociedade pré-islâmica da qual o islã emergiu. Ela se encontrava, sob formas diversas, em quase todas as sociedades pré-modernas.

Limitações biológicas ditavam, na maioria das sociedades, uma partilha de funções socioeconômicas e condenavam a mulher a uma vida voltada à maternidade e a funções econômicas subalternas. Essencialmente, a fecundidade da mulher era considerada um recurso econômico do grupo da mesma forma que o gado, o trigo ou o dinheiro. O islã teve sua origem em uma sociedade pastoril.

Os muçulmanos consideram que a posição jurídica da mulher dentro do islã é melhor do que nas outras civilizações hierárquicas. Em vez de ser vista como posse, a mulher passou a ter existência jurídica e direito à propriedade. Por ocasião do casamento, o marido paga um mahr (preço da noiva) que pertence à própria mulher (e não a seus parentes masculinos) e lhe é devido em caso de divórcio. A mulher também tem direito à herança, embora herdam somente a metade da quantia em relação aos homens. A xaria mantém a poligamia, mas a limita a quatro esposas simultaneamente – o que é considerado progressista!

Em casos de litígios, o testemunho feminino é válido – ainda que valha somente a metade do masculino. Maridos tinham o direito de chicotear e castigar suas esposas, apesar de os ulemás se esforçarem para limitar esse direito.

Todas essas regras discriminatórias refletem, mantêm e reproduzem a situação desigual dos sexos na sociedade árabe peninsular do século VII, berço do islã. A partir daí elas se disseminaram nas demais sociedades que o adotaram.

Entretanto, no decorrer do tempo, a posição das muçulmanas declinou. Durante o período dos impérios muçulmanos medievais, elas foram cada vez mais excluídas. Expressões misóginas atribuídas a Maomé, como “um povo cujos afazeres são regidos por mulheres não prosperará” foram usadas para justificar sua exclusão de posições de autoridade.

Iniciou-se, em nome da proteção dos homens contra a tentação sexual, um processo de segregação da mulher que continua até os dias de hoje. Para não distrair os homens, elas rezavam separadamente dos homens. A imposição do véu ou hijab (lenço), atualmente considerada em meios fundamentalistas como a marca característica da muçulmana praticante, começou para distinguir as mulheres “livres” de escravas e concubinas.

Essa segregação sexual, em casos extremos, como no Paquistão e Afeganistão contemporâneos, leva a adotar a purdah (“cortina”), que chega a cobrir todo o corpo e rosto da mulher fora de casa. Aliás, ela nunca pode sair sem acompanhante. Dentro de casa, ela se descobre somente em frente ao marido ou parentes com quem ela não pode casar.

O ideal da tradição que se forma é o da mulher que deixa a casa somente duas vezes na vida adulta:

  1. no dia de seu casamento, e
  2. no dia de seu enterro.

Em ambos casos, completamente coberta. Isto é visto como um modelo “elitista”, que só os abastados cujas esposas estão isentas do ônus do trabalho podem-se permitir.

Essa situação caracterizada pelo isolamento e pelo controle da sexualidade não é redutível a fatores materiais, mas foi consequência de uma contradição psicológica entre:

  • por um lado, uma forte associação da mulher à sexualidade e,
  • por outro, a dependência da honra do homem do controle dessa sexualidade.

Seu descontrole é visto tanto como perigo social quanto como atentado à identidade sexual e social do indivíduo masculino. Tal contradição só foi solucionada com o enclausuramento do objeto do desejo.

No Oriente Médio, a mulher é considerada em primeiro lugar como objeto do desejo masculino, sendo a sexualidade primeiramente associada ao sexo feminino. Ao contrário do cristianismo, existe no islã uma apreciação positiva da sexualidade em si. O celibato é proibido; não se encontra no islã nenhuma equivalente do ascetismo quanto ao coito [tipo Virgem Maria, mãe de Jesus] característico do cristianismo. O sexo é imprescindível para a reprodução (preferencialmente de uma prole masculina), mas é igualmente um dos prazeres sensuais da existência, valor reconhecido em si.

Contudo, a sexualidade é também uma força perigosa – antissocial, caótica, necessitada de rígidos controles –, daí sua “prisão” dentro do casamento e, concomitantemente, a rejeição da contracepção, do aborto, da homossexualidade e de outros “desvios contrários à natureza”.

Tal, no entanto, é a teoria; na realidade social, os casamentos correspondem mais a alianças econômicas entre famílias do que a casais intencionados aos romantismo ou à satisfação sexual recíproca. A maioria deles é arranjada – muitas vezes sem que os parceiros se conheçam. Ainda que o consentimento dos futuros esposos seja necessário, a realidade é que ainda ocorrem casamentos forçados em regiões mais atrasadas.

A grande maioria dos casamentos sempre foi, aliás, monogâmico, pois o islã condiciona a poligamia ao tratamento igual para as esposas, sendo que a maioria dos homens não atinge condições financeiras para tal. Atualmente, a poligamia é praticada na península árabe, mas proibida na Tunísia, Turquia e outros países.

Na visão que predomina no mundo muçulmano, a força sexual emana em primeiro lugar da mulher, vista como ativa, possessiva, incansável. O poder de atração que ela exerce sobre o homem é, portanto, irresistível e quase demoníaco.

A sexualidade fora do casamento equivale à devassidão e à corrupção. Assim, o homem é obrigado a satisfazer sua esposa, ou esposas, para manter sua virtude – caso contrário, ela necessariamente satisfará seu desejo fora de casa, destruindo a honra da família. Em outras palavras, a honra da família é condicionada à pureza sexual das mulheres:

  1. a virgindade das filhas,
  2. a fidelidade das esposas e
  3. a castidade das divorciadas e viúvas.

O adultério é crime contra o islã, tradicionalmente punível com cem chicotadas ou a morte por apedrejamento. “Assassinatos de honra” tanto a lei quanto o costume social tendem a perdoar…

A segregação das mulheres leva ao desenvolvimento de duas dimensões sociais separadas por gênero:

  1. fora do círculo dos parentes diretos, mulheres socializam apenas com outras mulheres;
  2. filhos e homens só se confraternizam com outros do sexo masculino.

Peter Demant (2013: 155) tira três conclusões desse quadro:

  1. A sociedades muçulmanas constituem um mundo marcado por forte tensão sexual, cujo fascínio da “promiscuidade” nas sociedades ocidentais modernas provoca do lado fundamentalista uma rejeição agressiva.
  2. A situação da mulher no islã reflete antes valores e necessidades de uma sociedade tribal do que valores especificamente religiosos, a ponto de hoje permitir a muçulmanas feministas uma releitura das fontes muito mais liberal e mais favorável às mulheres.
  3. O contato com o Ocidente leva a uma interação cada vez mais intensa e não controlada entre os sexos que causa uma confusão psicológica, instigando as reações fundamentalistas.

Mulher muçulmana no Ocidente

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s