Crescimento: Ilusões e Realidades

 

Crescimento Mundial 0-2012Crescimento da população mundial 1700-2012Taxa de crescimento da população mundial 0-2100

processo de, nas áreas subdesenvolvidas, a industrialização requerer um esforço deliberado, intenso, orientado, é denominado de “a grande arrancada” (Paul Rosenstein-Rodan), “a decolagem” (Walt W. Rostow), “o grande salto” (Alexander Gerschenkron), “o mínimo esforço crítico” (Harvey Leibenstein), “os encadeamentos para trás” (backward linkage ou efeito de arrasto) “e para frente” (forward linkage ou efeito de propulsão), segundo Albert Hirschman, ou, a partir da nova contribuição de Thomas Piketty à Teoria do Desenvolvimento, de catch-up. No entanto, esse processo é delimitado, historicamente, a determinado período. Minha hipótese é que a economia brasileira já ultrapassou essa fase caracterizada por altas taxas de crescimento econômico e demográfico — e entrou no padrão de crescimento normal (ou modal) na história global.

Um processo de convergência global, em que os países emergentes estão a aproximar-se dos países desenvolvidos, parece estar bem encaminhado, hoje, embora desigualdades substanciais entre países ricos e pobres permaneçam. Não há evidências de que esse processo de convergência é, principalmente, “um resultado do investimento por parte dos países ricos nos pobres”. Na verdade, o contrário é verdadeiro: a experiência passada mostra que a obtenção de um bom resultado é mais bem sucedida quando os países pobres são capazes de investir em si mesmos.

Além dessa questão central da convergência, no entanto, o ponto que Thomas Piketty quer enfatizar no segundo capítulo de seu livro “O Capital no Século XXI” é que o século XXI pode ver um retorno a um regime de baixo crescimento. Mais precisamente, o que vamos encontrar em pesquisa histórica é que o crescimento, de fato, sempre foi relativamente lento, exceto em períodos excepcionais, nos pós-guerra, ou quando catch-up está ocorrendo. Além disso, todos os sinais são de que o crescimento, ou pelo menos o do seu componente demográfico, vai ser ainda mais lento no futuro.

Para entender o que é colocado em questão por Piketty, e sua relação com o processo de convergência e as dinâmicas da desigualdade, é importante se decompor o crescimento da produção em dois termos:

  1. o crescimento da população e
  2. o crescimento do produto per capita.

Em outras palavras, o crescimento inclui sempre um componente puramente demográfico e um componente puramente econômico, e apenas este último permite uma melhoria no padrão de vida.

No debate público, esta decomposição é muitas vezes esquecida, quando muitas pessoas parecem assumir que o crescimento da população tenha deixado totalmente de ter importância econômica. Isto ainda não é o caso, longe disso, na verdade, apesar de todos os sinais indicarem que estamos caminhando lentamente nessa direção.

Em 2013-2014, por exemplo, o crescimento econômico global, provavelmente, irá exceder 3% — que foi a taxa média de crescimento anual no século entre 1913-2012 –, graças ao progresso muito rápido nos países emergentes. Mas a população mundial continua a crescer a uma taxa anual próxima de 1%, de modo que a produção per capita global está realmente crescendo a uma taxa pouco acima de 2%, aliás, como é a taxa de crescimento histórico da renda mundial per capita.

Antes de apresentar as tendências atuais, Piketty volta no tempo e apresenta as etapas e as ordens de magnitude de crescimento global desde a Revolução Industrial. Considera primeiro a Tabela 2.1 (acima), que indica as taxas de crescimento durante um longo período de tempo.

Dois fatos importantes se destacam:

  1. a decolagem em crescimento, que começou no século XVIII, envolveu taxas de crescimento anual relativamente modestas.
  2. os componentes do crescimento demográfico e econômico foram mais ou menos semelhantes em magnitude.

De acordo com as melhores estimativas disponíveis, a produção mundial cresceu a uma taxa média anual de 1,6% entre 1700 e 2012, sendo que 0,8% reflete o crescimento da população, enquanto outro 0,8% veio do crescimento da produção ou renda per capita.

Tais taxas de crescimento podem parecer baixas em comparação com o que se ouve frequentemente nos debates atuais, onde as taxas de crescimento anuais abaixo de 1% são frequentemente descartadas como insignificantes. Desavisadamente, é comumente assumido que “o crescimento real não começa até que se tenha alcançado 3-4% ao ano ou até mais”, como a Europa obteve em trinta anos após a Segunda Guerra Mundial e como a China está obtendo hoje.

De fato, o crescimento da ordem de 1% por ano, tanto na população, quanto no produto per capita, se manteve durante um longo período de tempo desde 1700. No entanto, é extremamente rápida, especialmente quando comparada com a virtualmente taxa zero de crescimento que observamos nos séculos anteriores à Revolução Industrial!

Na verdade, de acordo com os cálculos de Maddison, as taxas de crescimento tanto demográfico quanto econômico, entre o ano 0 e 1700, ficaram abaixo de 0,1% (mais precisamente, 0,06% para o crescimento da população e 0,02% para o da produção per capita).

Certamente, a precisão dessas estimativas é ilusória. Nós realmente possuímos muito pouca informação sobre o crescimento da população mundial entre o ano 0 e 1700 e ainda menos sobre a produção per capita. No entanto, não importa o quanto de incerteza exista a respeito dos números exatos – que, no caso, não são assim tão importantes –, não há dúvida de que o ritmo de crescimento foi bastante lento desde a antiguidade até a Revolução Industrial, certamente não mais do que 0,1-0,2% ao ano.

A razão é muito simples: caso as taxas de crescimento fossem mais elevadas, isto implicaria, de modo implausível, que a população do mundo, no início da Era Comum, era muito minúscula, ou então que o padrão de vida era muito substancialmente abaixo do nível comumente aceito como o de subsistência. Pela mesma razão, o crescimento econômico, nos séculos futuros, provavelmente, voltará ao nível muito baixo, pelo menos na mesma medida que o do componente demográfico em causa.

Para entender melhor este argumento, Piketty leva em consideração o que pode ser chamado de “a Lei do Crescimento Acumulado”. Ela sustenta que a baixa taxa de crescimento anual, durante um período muito longo de tempo, dá origem a um progresso considerável.

Concretamente, a população do mundo cresceu a uma taxa média anual de apenas 0,8% entre 1700 e 2012. Ao longo de três séculos, no entanto, isso significou que a população mundial aumentou mais de dez vezes! Um planeta com cerca de 600 milhões de habitantes em 1700 passou para mais de 7 bilhões em 2012 (ver Figura 2.1). Se esse ritmo continuar pelos próximos três séculos, a população mundial ultrapassará 70 bilhões em 2300!

Para dar uma imagem clara dos efeitos explosivos da Lei do Crescimento Acumulado, Piketty indica na Tabela 2.2 (abaixo) a correspondência entre a taxa de crescimento anual (a figura geralmente apresentada) e o multiplicador de crescimento em longo prazo. Por exemplo, uma taxa de crescimento de 1% ao ano vai multiplicar a população por um fator de 1,35, depois de trinta anos, a 3 após cem anos, 20 depois de 300 anos, e mais de 20.000 depois de mil anos. A conclusão simples, que salta à vista a partir dessa tabela, é que as taxas de crescimento superiores a 1-1,5% em um ano não pode ser sustentada, indefinidamente, sem gerar vertiginosos aumentos da população.

Lei do Crescimento Acumulado

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