Automação Robótica na Indústria Automobilística: Adeus ao Proletariado

Nissan inaugura complejo automotriz de ,500 MDD en Brasil

Após a seleção alemã golear a brasileira no campo do Mineirão, na Copa de 2014 em Belo Horizonte, uma piada comparava a velocidade dos gols da Alemanha com o ritmo de produção de Gols, o carro mais popular do país, pela Volkswagen (VW).

“Nem a fábrica da Volkswagen faz cinco gols em 30 minutos”, dizia um dos posts mais populares nas redes sociais. Outro, de cálculo mais próximo da realidade, estimava que a “produção” de quatro gols em seis minutos – outro feito da equipe de Joachim Löw – representava um novo recorde mundial, digno de felicitações da montadora.

Tudo não passa de uma brincadeira, mas, de fato, a eficiência do ataque alemão chegou perto da produtividade de uma linha de montagem da Volkswagen durante parte do jogo. Modelo mais vendido do país há quase três décadas, o Gol é produzido nas fábricas da Volks em São Bernardo do Campo e Taubaté, no interior paulista. Cada uma delas tem capacidade de produzir um Gol por minuto.

No jogo da Copa, a Alemanha precisou de apenas quatro minutos para fazer três gols, com Miroslav Klose – no tento em que o atacante germânico superou a artilharia de Ronaldo em Copas – e Toni Kroos.

Assim, no prazo em que saíram o segundo, o terceiro e o quarto gol, a seleção alemã fez apenas um gol a menos do que uma fábrica da Volks teria condições de produzir em tempo equivalente. Quando se inclui os demais modelos, a comparação é descabida porque a montadora, nesse caso, tem potencial de produzir dois carros em menos de um minuto em suas três fábricas no país!

Eduardo Laguna (Valor, 17/06/14) informa que, vinte anos após a onda de investimentos em inovação tecnológica desencadeada pela abertura comercial do início da década de 90, seguida pela chegada de montadoras francesas e japonesas, a indústria automobilística brasileira vive um novo ciclo de modernização com a inserção do país na rota das plataformas de produção globais.

Tomadas por robôs e equipamentos inteligentes, as fábricas que estão sendo inauguradas por montadoras novatas, ou atualizadas pelas marcas de longa data no país, são o melhor retrato do progresso na automação industrial desse setor. Elas reúnem tecnologias que chegam não apenas para alinhar os carros daqui aos padrões de qualidade dos mercados mais exigentes, mas também para melhorar a produtividade das linhas, o que tem sido considerado um dos maiores desafios da indústria com a escalada dos custos de mão de obra e matéria-prima dos últimos anos.

Duas décadas atrás, as montadoras empregavam quase 80 trabalhadores a cada mil veículos produzidos. Hoje, chegam a igual volume com menos da metade dessa força de trabalho: 35 operários a cada mil unidades.

A automação é maior nas linhas de pintura e soldagem, onde a presença maciça de robôs praticamente dispensa a atuação humana. E como os equipamentos são mais eficientes, as novas fábricas, segundo montadoras que finalizaram investimentos recentes, ainda conseguem reduzir em até 40% o custo com insumos como energia e água a cada automóvel que sai da linha de montagem. Somam-se a isso ganhos de ergonomia – dado o menor esforço braçal dos operários -, maior controle da produção e flexibilidade para interferências nas linhas de produção.

Entre os exemplos, a fábrica que a Fiat está erguendo em Goiana (PE) para a produção de modelos da marca Jeep, da controlada Chrysler, será a mais moderna do grupo no mundo, segundo já declararam dirigentes da própria montadora. Em Taubaté, no interior paulista, a linha de pintura do Up! – subcompacto lançado no início deste ano pela Volkswagen – consome 20% menos água e 30% menos energia na comparação com processos do tipo convencionais. Não à toa, a montadora de origem alemã destinou a esse setor quase R$ 430 milhões do montante de R$ 1,2 bilhão em investimentos na produção desse carro.

Na unidade da Hyundai em Piracicaba (SP), onde é montado o HB20, a automação chega a 100% no setor de soldagem, ocupado por robôs fabricados pela empresa de máquinas e equipamentos do próprio conglomerado coreano. Já em fábricas da Nissan, inaugurada em abril na cidade de Resende (RJ), ou da Mercedes-Benz em Juiz de Fora (MG), onde são fabricados caminhões extrapesados, as peças e os próprios veículos são transportados durante o processo de montagem em plataformas móveis que seguem uma trilha magnética no chão da fábrica.

Além de tirar peso dos operários, a tecnologia, se comparada ao sistema mais tradicional movido por correntes, dá maior flexibilidade para alterações e otimização da linha de produção, uma vez que o traçado magnético pode ser facilmente alterado. Também reduz o risco de interrupções: se houver algum problema em uma dessas plataformas, basta retirá-la da linha, sem que seja necessário parar toda a produção.

Dentro do investimento de R$ 2,6 bilhões na fábrica de Resende, a Nissan trouxe do Japão 88 robôs. Eles realizam, por exemplo, o fechamento da carroceria do March, o modelo produzido no local. Segundo Wesley Custódio, diretor de manufatura da fábrica, a automação reduz em 40% a necessidade de mão de obra e gera economia de igual proporção em custos com matérias-primas. “É um nível de automação expressivo para o início de produção de um carro popular”, diz Custódio. “Temos aqui tudo o que se vê nas outras fábricas da Nissan no exterior.”

Para monitorar melhor a produção, a qualidade e a necessidade de manutenção das máquinas, a Ford implementou um sistema no qual todos os equipamentos se comunicam com uma central de gerenciamento sem fio (wi-fi) na nova fábrica de motores em Camaçari, na Bahia. O posicionamento correto de cada peça do propulsor que vai equipar a nova geração do modelo compacto Ka também é acompanhado por meio de câmeras de alta definição.

Frank Sowade, vice-presidente da SAE Brasil, associação que reúne engenheiros ligados à tecnologia da mobilidade, diz que a modernização do parque fabril das montadoras veio na esteira da substituição de carros regionais por modelos globais, desenvolvidos para produção em diferentes países com pequenas adaptações. Isso tem forçado a atualização nos processos industriais, já que fabricantes nacionais estavam atrasados em relação aos países onde os modelos globais são desenvolvidos. “Há uma tendência cada vez mais forte de se ter processos comuns em todas as fábricas do mundo”, afirma Sowade.

Ou seja, produtos globais trazem consigo sistemas de produção também globais, o que, para o Brasil, significa reduzir a defasagem industrial em relação a outros países, até mesmo os desenvolvidos. Essa evolução tecnológica tende a chegar a um novo patamar com a instalação no país das fábricas de carros premium.

Em Araquari (SC), onde a BMW ergue sua primeira unidade fabril na América do Sul – com inauguração prevista para outubro -, estão sendo instalados 15 robôs, a maioria nos setores de armação da carroceria e de pintura. “Vamos seguir os mesmos padrões de qualidade, tecnologia e sustentabilidade encontrados em todas as unidades produtivas do grupo BMW no mundo”, garante Gerald Degen, vice-presidente responsável pela fábrica da marca de luxo alemã no norte catarinense.

Por fim, vale registrar que, mesmo com a queda nas vendas, o Brasil segue na frente da Alemanha e segura neste ano a quarta colocação entre os maiores mercados automotivos do mundo, segundo balanço feito pela Jato Dynamics, tendo como base os emplacamentos registrados até abril de 2014. Nos quatro primeiros meses do ano, as vendas de carros no Brasil ficaram em 3,3 mil unidades acima das do país europeu. Ambos os países consumiram pouco mais de 1 milhão de automóveis e utilitários leves no período.

A China, com 6,8 milhões de carros licenciados até abril, ampliou a liderança no mercado global, agora 1,7 milhão de unidades à frente dos Estados Unidos, onde as vendas somaram 5,1 milhões de automóveis. Em recuperação, o mercado japonês segue como o terceiro do mundo, registrando quase 2,2 milhões de carros no período de janeiro a abril, uma alta de 15,5%.

A Jato também faz um ranking das marcas mais vendidas no mundo, liderado pela Toyota, com 2,1 milhões de unidades entregues até abril, 1% a mais do que o volume de um ano antes. Na segunda colocação, a Volkswagen vendeu quase 2 milhões de carros nos quatro meses, 2,7% acima do desempenho de igual período de 2013.

Tanya Powley e Chris Bryant (Financial Times apud Valor, 17/06014) publicaram reportagem a respeito da robótica nos EUA. Reproduzo-a abaixo.

“As seções de funilaria e pintura da fábrica da BMW em Spartanburg, Estados Unidos, há muito são dominadas por robôs industriais, que realizam tarefas monótonas, perigosas ou de alta precisão, como soldagem e trabalhos pesados.

Mas os robôs são mais escassos na linha de montagem final, uma vez que os trabalhadores precisam realizar tarefas complexas no interior dos veículos, sem o risco de serem machucados pelo braço pesado de um robô.

Mas agora a BMW está tirando os robôs de suas gaiolas para trabalhar lado a lado com os trabalhadores na linha de montagem. Robôs leves “colaborativos” fabricados pela Universal Robots da Dinamarca ajudam a instalar portas com isolamento acústico e contra humidade, uma tarefa que antes exigia que os trabalhadores usassem um laminador manual que provocava luxações nos pulsos dos funcionários mais velhos.

“Poder tirar um robô da ‘gaiola de segurança’ com confiabilidade e fazê-lo trabalhar com um humano é uma mudança enorme para o setor, e significa que você pode ter um robô forte e preciso ajudando um humano habilidoso mas fraco”, diz Rich Walker da Shadow Robots, uma companhia de pesquisa de robótica do Reino Unido.

A colaboração Homem-máquina é uma das várias grandes tendências da robótica que estão abrindo novos mercados e aplicações para além da produção automobilística e de semicondutores, onde os robôs são uma grande presença há décadas. Os avanços em sensores, hidráulica, mobilidade, inteligência artificial, visão mecânica e “big data” estão tornando os robôs mais sensíveis, flexíveis, precisos e autônomos.

Isto significa que os robôs podem ser empregados além de áreas como a produção industrial, como as cuidados com a saúde, laboratórios, logística, agricultura e até mesmo a indústria cinematográfica.

Esses robôs de serviços deverão ser a grande área de crescimento para a robótica no futuro. A Federação Internacional de Robótica (IFR, na sigla em inglês), um órgão setorial sediado na Alemanha, estima que cerca de 95 mil robôs de serviços para uso profissional – como defesa e agricultura – poderão ser vendidos entre 2013 e 2016.

A indústria automobilística, que foi pioneira a robótica na década de 1960, continua sendo o principal condutor da automação no mundo. Segundo a IFR, o setor respondeu por 70 mil das vendas totais de 179 mil robôs em 2013, um ano recorde de vendas.

A indústria eletrônica é a segunda que mais usa os robôs, respondendo por 35 mil unidades das vendas totais. O setor de alimentos comprou no ano passado 6.200 robôs, cujos preços estão caindo e seu uso ficando mais intuitivo, o que significa que pequenas e médias empresas também podem pensar em usá-los na produção e na cadeia de fornecimento.

“É claro que os robôs não podem imitar totalmente a destreza e as capacidades sensoriais e cognitivas de um ser humano. Mas estamos tentando torná-los mais flexíveis. Hoje, ferramentas de aperto e outras podem ser alteradas rapidamente e o uso crescente de sensores permite a adaptação dos robôs à tolerância das peças de trabalho e mudanças em seus ambientes de trabalho”, afirma Martin Haegele, do instituto de pesquisas alemão Fraunhofer IPA.

Um braço robótico flexível e leve da Universal Robots, a companhia dinamarquesa que é uma das maiores fabricantes de robôs colaborativos do mundo, custa de € 20 mil a € 30 mil, número que pode chegar a seis dígitos no caso de um robô industrial.

A Factory in a Day, uma iniciativa criada há quatro anos e bancada pela União Europeia, tem como objetivo encorajar mais pequenas e médias empresas a usar tecnologia robótica avançada e melhorar sua produtividade com o desenvolvimento de sistemas que possam operar 24 horas por dia, sejam baratos e possam ser arrendados.

No ano passado, a China tornou-se o maior mercado mundial de robôs industriais, em termos de robôs comprados, superando o Japão pela primeira vez, de acordo com dados da IFR. Hans-Dieter Baumtrog, diretor de robótica e automação da associação de empresas mecânicas alemã VDMA, diz: “Dada a densidade relativamente baixa de robôs na China… o potencial de crescimento é enorme”.

Outros mercados asiáticos como Taiwan, Índia e Indonésia também estão crescendo muito, mas as vendas continuam pequenas em comparação ao Japão, Coreia do Sul, Estados Unidos e Alemanha, que juntos respondem por metade das vendas mundiais. A Índia comprou apenas 1.917 robôs em 2013.

Empresas e governos estão investindo milhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento, para transferir as tecnologias robóticas para novas áreas dos setores industrial e de serviços. Somente a Comissão Europeia já comprometeu quase € 1 bilhão em recursos para o desenvolvimento da robótica.

O Google está em meio a uma onda de compra na área de robótica. No ano passado ele adquiriu oito companhias “start-ups”, incluindo a Boston Dynamics, uma fabricante de robôs militares, e a Deepmind, uma companhia britânica de inteligência artificial.

Mas o Google ainda tem de se esforçar mais se quiser alcançar os gigantes dos robôs industriais – Yaskawa e Fanuc do Japão; ABB da Suíça; e Kuka da Alemanha -, que juntos controlam a maior parte do mercado mundial.

Muitos fabricantes americanos e europeus estão usando a produtividade proporcionada pelos robôs para restabelecer a produção que havia sido transferida para a Ásia por causa dos custos menores.

Jim Lawton, diretor de marketing da Rethink Robotics, a companhia americana que fabrica o “co-bot” (robô colaborativo) conhecido como Baxter, diz: “Nos próximos dez a 15 anos, toda empresa do setor industrial no mundo estará usando os robôs colaborativos”.

 

One thought on “Automação Robótica na Indústria Automobilística: Adeus ao Proletariado

  1. Obrigado pelo artigo,
    As invenções tecnológicas têm que ser o substrato da nova economia. Os investidores, as empresas precisam de avanços contínuos. A automatização industrial é o futuro e uma parte dela são os sistemas de OCR, aparelhos e sistemas de reconhecimento óptico de caracteres podem ser muito úteis nos próximos anos. As aplicações são muitas, na industria sobretudo, mais também como produto de consumo.

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