A História é A Mesma, Os Historiadores Mudam…

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Como um país altamente civilizado, que se vangloriava da sua superioridade moral e cultural, considerando-se a “terra de escritores e pensadores, pode chegar ao extremo barbarismo fanático? Os historiadores encaram os fatos da História da Alemanha (leia: https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2014/07/09/historia-da-alemanha/) de maneira variável.

Uma explicação foi que havia uma longa tradição de um nacionalismo agressivo, antissemitismo, autoritarismo, veneração do herói e uma obediência subserviente à autoridade que tornou algo como o nacional-socialismo (nazismo) praticamente inevitável.

Outra é que o que pareceu, retrospectivamente, inevitável foi resultado de um número quase infinito de variáveis fortuitas. Por exemplo, a ascensão de Hitler no Congresso de Nuremberg de 1934. O pesado ônus do passado resultou em uma surpreendente ausência de resistência a um regime que desprezava todas as tradições positivas das ideias de cidadania surgidas em 1789 com a Revolução Francesa.

O argumento de que o nacional-socialismo era fruto de certas tendências comuns em toda a Europa, tal como se espelharam também nos fascismos italiano e espanhol, encerrava alguma verdade. Também é verdade que, pelo menos em parte, ele foi uma reação ao comunismo russo.

Porém, nada disso indica que a Alemanha não foi plenamente responsável pelo que aconteceu entre 1933 e 1945, ou que o nazismo não estivesse completamente fundamentado em algumas deploráveis tradições do passado na Alemanha. Acima de tudo, ele não foi um “acidente”, como argumentaram alguns historiadores.

O debate se tornou ainda mais confuso graças a uma discussão entre “funcionalistas” e “intencionalistas”.

  • Os funcionalistas argumentavam que o extremismo do regime nazista era uma consequência da estrutura do Estado, com:
  1. as suas divisões e rivalidades internas,
  2. o seu confuso processo de tomada de decisões, e
  3. a imprevisibilidade da liderança carismática.
  • Os intencionalistas insistiam que tudo era essencialmente o resultado das intenções obsessivas de Hitler.

Depois de muitas discussões, os dois lados fizeram concessões e os historiadores mais serenos sugeriram que a verdade residia em uma combinação das duas abordagens.

Por sorte, a história da Alemanha encerra muito mais do que a busca das origens do nacional-socialismo e a análise dos doze anos durante os quais o Partido Nazista esteve no poder, cuja metade foi amplamente determinada pelas exigências da guerra.

O livro de Martin Kitchen (História da Alemanha Moderna. São Paulo; Cultrix; 2013) também apresenta a tradição liberal e democrática, a qual torna sem sentido a afirmação de que o nazismo resultou de um defeito no caráter alemão. Essa ideia não consegue explicar o fato de que, com esse mesmo caráter, isto é, com a assustadora herança atávica e seu propósito antissemita, os alemães vivam hoje no que é uma democracia exemplar, firmemente integrada à Europa e livre de qualquer ambição territorial. Talvez pelo próprio trauma histórico…

No decorrer da maior parte de sua história a Alemanha foi uma federação aberta de estados amplamente diferentes. Até mesmo o Império Guilhermino (1890-1914) era formado por quatro reinos separados com quatro exércitos distintos e uma série de entidades semiautônomas. Foi somente durante o breve Terceiro Reich (1933-1945) que o país foi um Estado centralizado.

As diferenças regionais eram, e ainda são, extremamente fortes. A Prússia protestante era muito diferente da Baviera católica e a hostilizava. As lealdades locais, seja cidades orgulhosamente independentes como Hamburgo ou Frankfurt, seja uma cidade específica, como Berlim, permanecem intensas e são reforçadas por costumes e práticas locais.

Os grandes historiadores nacionalistas se concentravam na Prússia, pois ela era a força propulsora por trás da unificação, e exaltavam a Alemanha de Bismarck, que era dominada pela Prússia. Historiadores posteriores continuaram a escrever como se a história da Alemanha fosse a história da Prússia ampliada. Somente depois da Segunda Guerra Mundial que foram escritas importantes histórias regionais e locais, as quais nos dão uma ideia das complexidades e da riqueza da história alemã.

É difícil imaginar que algo tão super abrangente como um caráter nacional da “mente alemã” pudesse ser compreendido a partir de circunstâncias tão diferentes.

Kitchen escreve uma história narrativa. A história, como sugere a palavra, envolve, essencialmente, contar uma história. Ela consiste em uma série de eventos autênticos colocados em ordem cronológica de maneira a mostrar como uma coisa levou – submetida a não importa quantas eventualidades – a outra.

Durante muitos anos, essa abordagem foi rejeitada por aqueles que tentavam aplicar ao estudo da história abordagens rigorosamente teóricas, derivadas das ciências sociais. Os marxistas buscavam sempre “comprovar o acerto de Karl Marx”, os weberianos, o de Max Weber, e assim por adiante. Sem essa abordagem narrativa os duzentos anos de história alemã fariam pouco sentido e se dissolveriam em uma série de eventos, tendências e informações desconexos.

Entretanto, Kitchen está perfeitamente consciente de que os eventos ocorrem dentro de estruturas sociais, fatores econômicos e atitudes culturais, e por eles são moldados. Coloca ênfase maior nessas questões, mas não abandona uma discussão detalhada das peculiaridades, por exemplo, da ex-Alemanha Oriental.

Poderíamos ficar tentados a chamar a doença ocupacional dos historiadores de simplificação excessiva se ela não fosse a ocupação deles. Sempre ocorrerão inúmeras simplificações excessivas, omissões e descuidos em uma narrativa histórica. Senão, ninguém leria os livros de História, pois seriam compostos de infinitas descrições de “tudo sob o sol”…

No entanto, quando os leitores acham interessante a história que o historiador tem para contar, a leitura os inspirará a buscar mais ideias em outros livros e/ou fontes de pesquisa.

 

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