O Brasil do “Eu Acredito”

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Eliane Brum (Ijuí-RS, março de 1966) é excelente jornalista e escritora. Formou-se pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS) em 1988 e ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de um romance – Uma Duas (LeYa) – de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo) -, e de um livro de crônicas: A Menina Quebrada (Arquipélago Editorial, Prêmio Açorianos 2013), que reúne 64 de suas colunas escritas no site da revista Época, além de ter participado da compilação de reportagens especiais sobre os Médicos sem Fronteiras Dignidade!, que incluiu também autores como Mario Vargas Llosa. É codiretora de dois documentários: Uma História Severina e Gretchen Filme Estrada. Recentemente, lançou uma autobiografia: Meus Desacontecimentos: A História de Minha Vida com As Palavras (Casa da Palavra, 2014).

Escreveu crônicas de costumes, para a Folha de S. Paulo e El País, durante a Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Reproduzo abaixo extratos de uma que é um verdadeiro ensaio de Antropologia sobre os comportamentos religiosos dos jogadores e torcedores da seleção brasileira.

Eu acredito, eu acredito.” Uma pequena parte da torcida brasileira ainda repetia o bordão depois de a seleção brasileira já ter levado uma goleada dos alemães no Mineirão. Era uma pequena grande cena. A realidade se impunha como o inacreditável, as bolas iam estourando na rede brasileira como ficção, quem não tinha deixado o estádio olhava para o campo tomado pela anestesia que assinala a tragédia. A inversão da expectativa é tão avassaladora que passa a ser interpretada como irrealidade, num estado delirante, em que qualquer gesto parece destinado ao nada. A goleada era da Alemanha no Brasil, mas era ainda mais profundo do que isso: era realidade 7×1 pensamento mágico. Um? Não. Zero.

Essa foi a seleção do pensamento mágico. E, nesse aspecto, não podia ser mais brasileira nesta Copa de 2014. Não o pensamento mágico como fonte de explosão criativa, mas como um produto de consumo. Vende-se que o espetáculo é a verdade profunda sobre o Brasil e o seu futebol. Confunde-se marketing publicitário com realidade. Os jogadores da seleção comportam-se como astros. Não mais astros de rock, mas astros de um show religioso. Confinados, assistem a palestras de “motivação”, são treinados no pensamento de autoajuda mais do que no campo, com a bola no pé.

Age-se como se houvesse uma predestinação. Se você acreditar muito, você consegue. Se você rezar muito, acontece. A arrogância enorme de achar que “deus” é torcedor do seu time porque você é o mais merecedor expressa nas cenas de joelhos dentro do campo, os dedos apontando para o céu, a oração em transe nos momentos-limite.

Só que acreditar não foi o suficiente para fazer acontecer. A realidade deu de goleada. Diante da força avassaladora da verdade em alemão, os torcedores brasileiros reagiram como se tivessem sido traídos. Apresentadores de TV que desempenharam o papel de, em vez de fazer uma narração crítica, serem o mestre cerimônias de um espetáculo no qual a realidade era matéria ordinária, passaram a sangrar os “vilões” com o mesmo empenho com que antes os tinham transformado em “heróis”. É fácil perceber por que o espetáculo, com tanto dinheiro envolvido, precisa continuar o mais rapidamente possível. No mundo de negócios a lealdade não importa, os puxa-sacos que antes só faltavam lustrar a careca de Felipão com a língua, agora mostram caninos afiados, ávidos por sangue.

Não há inocentes nessa trágica história de futebol. Nem mesmo os torcedores. O que se convencionou chamar de “povo brasileiro” embarcou alegremente na lógica do espetáculo. Era visível nos estádios, onde proporcionalmente havia muito mais negros em campo do que nas arquibancadas, que a preocupação com a câmera para muitos era maior do que com o jogo que se jogava no chão. Nas entrevistas com torcedores fantasiados de verde-amarelo, a maioria deixava claro que se produzia para virar imagem na TV. Na entrada da Granja Comary, eram mais numerosos os que tentavam vender alguma coisa, aproveitando a presença das câmeras — em geral a si mesmos. A torcida era mais um produto. E um produto sem constrangimento de apresentar-se como produto.

Todos cumpriram o seu papel, então como não deu certo? Como parecem descobrir agora o que alguns têm dito, a um alto custo pessoal e profissional, que o futebol brasileiro não é mais o futebol brasileiro?

(…)

Mantém-se a narrativa do “trauma”, que atravessou a campanha brasileira nessa Copa. Primeiro, eram os jogadores em permanente estado de “trauma“, fosse por quase perder do Chile, fosse por perder Neymar, agora por perder de goleada. É a marca dessa geração, treinada para acreditar que o pensamento mágico de poder tudo é a realidade. Tudo o que é da vida não é da vida, mas “trauma”. A vida “traumatiza”. Acaba o jogo da Alemanha e são as crianças brasileiras as “traumatizadas”. Como se uma derrota, mesmo acachapante, não fizesse parte de qualquer existência humana. Completa-se a transmutação: uma seleção de traumatizados, uma torcida de traumatizados. E, mais uma vez, explora-se o choro a exaustão, agora das crianças. Não é trauma na seleção, não é trauma na torcida. Trauma é de outra ordem.

O espetáculo continua, parece que pouco se aprendeu com a goleada da realidade. Neymar desembarcou na Granja Comary, “para dar apoio” aos companheiros, aos “caras”. O único que não estará em campo em Brasília, na partida pelo terceiro lugar, foi o escolhido pela CBF para dar coletiva à imprensa. Torna-se explícito qual é o jogo que realmente importa. O drama real é insuficiente, o espetáculo precisa seguir. É vetado se retirar do palco. O herói alquebrado será explorado até o fim. Todos usando todos.

O que aconteceu não foi um “apagão” de seis minutos no jogo contra a Alemanha. Seria fácil se fossem só seis minutos. Na vida real, o “apagão” dura anos, abarca o país inteiro e continuará como espetáculo depois da Copa, se o bordão “eu acredito” não mudar para “eu duvido“.

PS (FNC):

Amém (Hebraico: אָמֵן, Árabe: آمين, ’Āmīn) é a palavra hebraica que indica uma afirmação ou adesão às vezes matizada de desejo, e pela qual terminam muitas orações no Cristianismo, no Islamismo e no Judaísmo. Pode traduzir-se em português, pelas expressões “assim seja”, “verdadeiramente”, etc., ainda que Amém seja um anagrama da frase hebraica “Ani Maamim” que a tradução literal para a língua portuguesa é “Eu Acredito”. Tendo adquirido como o passar do tempo o significado na vulgata popular de concordância de pensamento ou sinônimo de expressão em relação à esperança futura, as torcidas do Atlético, Vasco, Botafogo, Fluminense, etc., deveriam gritar Amém! Amém! Amém! 🙂

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1 thought on “O Brasil do “Eu Acredito”

  1. Prezado Fernando,
    o texto reflete precisamente o comportamento do brasileiro diante do fiasco da seleção na copa e não somente isso, mostra também que está mais do que na hora de substituir a crença pela dura realidade que não pode ser conceituada com sentimentalismos – como pudemos ver nos estádios -, mas com determinação e foco no possível, no preparo, na busca pelo melhor sempre!
    Crença = ilusão = irrealidade
    Que isso sirva de lição pra uma nação que precisa acreditar menor e produzir mais, ter menos religião e mais consciência, procurar o verdadeiro ser e não o nada que é igual ao vazio produzido por uma falsa noção de que existe um além, uma irrealidade mágica ao nosso redor. Nada disso existe, quem pensa ou age assim, será o verdadeiro mico neste circo. Abs.

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