Previsões “bullshit” de charlatães como economistas, professores universitários e jornalistas de opinião

Cisne Negro

Phillipa Leighton-Jones e Jon Sindreu (The Wall Street Journal, 11/07/14) informa que as previsões do Goldman Sachs para a Copa do Mundo, superadas até certo ponto por um polvo, foram pegas de surpresa pela realidade. Um modelo complicado que previa que o Brasil ganharia o torneio ao vencer a Holanda deixou a desejar depois que os dois times ficaram de fora da final.

Os economistas do banco compilaram dados de 14 mil jogos para chegar a um relatório de 67 páginas, que estimou resultados para todos os jogos, publicado em 30 de maio. Depois da primeira fase, ficou claro que a realidade não corresponde 100% a dados históricos.

Analisando as previsões originais, feitas antes do início da Copa, apenas 37,6% dos jogos da primeira fase terminaram da forma que o modelo do Goldman Sachs previu. O banco calculou uma das três possibilidades – vitória, derrota ou empate – corretamente em pouco mais de 33% das vezes, quase o mesmo de uma previsão aleatória. Dos jogos calculados corretamente, o Goldman conseguiu prever o número de gols em 17% dos casos, ou seja, em três ocasiões: Argentina x Bósnia, Coreia do Sul x Rússia e Argélia x Rússia.

Quando o banco atualizou suas previsões no fim da primeira fase do torneio, ele acertou o resultado das partidas – vitória, derrota ou empate – em 60% das vezes. Mas fracassou na tentativa de acertar os resultados das semifinais e acabou prevendo equipes erradas na final.

Parece justo fazer algumas observações essenciais.

Em primeiro lugar, uma cláusula fundamental nas previsões do Goldman: “Se um jogador essencial que foi responsável pelo sucesso recente do time for machucado, isso não tem peso nas nossas previsões.” Neymar sofreu uma lesão nas costas no jogo contra a Colômbia e não jogou a semifinal contra a Alemanha. Talvez mais importante tenha sido a ausência de Thiago Silva, que devido a uma infração boba levou o segundo cartão amarelo e foi suspenso do jogo seguinte, contra a Alemanha. O banco poderia argumentar que foi a ausência do melhor defensor brasileiro que provocou a derrota de 7 a 1.

Em, segundo lugar, o banco chegou a calcular originalmente que a Argentina chegaria à final. Mas quando atualizou suas previsões depois da fase inicial, substituiu a Argentina pela Holanda. Esta perdeu para a Argentina na semi-final, nos pênaltis. O banco seguiu atualizando suas posições à medida que a competição avançava. Ele agora aponta uma “ligeira” vantagem para a Alemanha na final.

Enquanto as avaliações feitas com base em análises do desempenho passado e valor de mercado tiveram suas limitações, apostadores na rua tiveram mais sorte? Alguém apostou com sucesso no resultado mais surpreendente da Copa, a vitória de 7 a 1 da Alemanha sobre o Brasil?! 

Este foi um evento aleatório – um “cisne negro” – praticamente inesperado. Porém, nos fez lembrar de que “baixíssima probabilidade” não significa “impossibilidade”! Alguma vez ocorrerá, não se sabe quando

A Lógica do Cisne NegroNassim Nicholas Taleb pertence ao restrito grupo de pessoas que, antes da quebra do banco Lehman Brothers, em 2008, publicaram livros prevendo o colapso financeiro. “A Lógica do Cisne Negro – O Impacto do Altamente Improvável“, que chegou às livrarias em 2007 (editora BestSeller), demonstrava estatisticamente como eventos muito improváveis podem destruir sistemas robustos, “grandes demais para quebrar”. Mesmo o mais rigoroso analista deixa passar despercebido o risco do improvável e do aleatório, achando que seu sistema é resistente.

Um feito, realmente. Ainda assim, Taleb considera que “Antifrágil – Coisas Que Se Beneficiam Com o Caos” (Record, 768 págs., R$ 60,00), agora publicado no Brasil, que estende a outras áreas da vida os argumentos do livro anterior, é um sucesso mais importante. Isso porque, embora “A Lógica do Cisne Negro” tenha se tornado um best-seller mundial (no Brasil, vendeu 30 mil cópias), “Antifrágil” obteve uma resposta mais direta dos leitores. Taleb, que falou ao Diego Viana (Valor-Eu&Fim-de-Semana, 11/07/14) de seu escritório na Universidade de Nova York, afirma que sua caixa de correio está sempre atulhada de cartas e projetos enviados por pessoas que sentem suas intuições expressas pela primeira vez nesse livro mais recente.

Em linhas gerais, o sentido do conceito de “antifrágil” é simples. O contrário do sistema “frágil”, diz Taleb, não é o sistema “robusto”, mas o “antifrágil”. Enquanto a robustez se refere à capacidade de resistir a eventos traumáticos e inesperados, o neologismo antifrágil cunhado por Taleb expressa a capacidade de fortalecer-se ou aperfeiçoar-se com esses contratempos. A natureza é, portanto, “antifrágil”, porque usa a desordem para aperfeiçoar-se. Já o sistema financeiro é frágil porque a quebra de um banco provoca a queda de todos os demais [risco sistêmico].

Taleb aplica o conceito que cunhou a áreas tão díspares como os sistemas políticos e a vida pessoal. Aparelhos de ginástica, por exemplo, fomentam a fragilidade do corpo, porque não o submetem a uma pequena dose de estresse necessário, como práticas esportivas mais rústicas. Na economia, um dos conceitos atacados em “Antifrágil” é a ideia de que economias de escala sejam benfazejas, levando à concentração de mercados em oligopólios – hoje, eufemisticamente conhecida como “consolidação”. Para Taleb, a concentração do mercado em enormes corporações significa que eventos traumáticos, ainda que improváveis – e os improváveis são os mais perigosos, porque a única coisa previsível é que eventualmente algum deles vai ocorrer -, deixam de representar só um abalo temporário e se tornam um risco sistêmico de colapso.

À primeira vista, a ideia de “antifragilidade” faz pensar no Friedrich Nietzsche de “Crepúsculo dos Ídolos“, com a célebre afirmação de que “o que não me mata me torna mais forte”. Mas aqui não se trata de um filósofo, e sim de um especialista em risco e aleatoriedade que trabalhou durante 20 anos em Wall Street. Após a crise de 2008, ocasião em que suas apostas heterodoxas lhe valeram uma fortuna suficiente para dedicar-se a seus verdadeiros interesses, Taleb concentrou suas atenções em estudos técnicos e se tornou professor da Universidade de Nova York.

Atualmente, Taleb prepara a criação de um instituto, no interior da universidade, para desenvolver seus conceitos. O Instituto de Eventos Extremos (Extreme Events Institute) tem absorvido grande parte de seu tempo. O objetivo da iniciativa é agregar pesquisadores em torno de modelagens em risco e em antifragilidade e conseguir financiamento para essas pesquisas. Taleb afirma, com veemência, que influenciar políticas públicas e aconselhar governos não estão em pauta.

Em paralelo, Taleb pretende reunir seus escritos sobre probabilidade em um único volume. No website Silent Risk (Risco Silencioso: http://www.fooledbyrandomness.com/; leia versão preliminar do livro: TALEB, Nassim. Silent Risk ), ele atualiza a produção da obra, que recebe contribuições de leitores e internautas. “A internet mudou o modo como fazemos tudo, e uma coisa que está mudando monstruosamente é a publicação de textos científicos. Podemos contornar as revistas acadêmicas e distribuir nossa produção amplamente, com agilidade.” O autor sai fortalecido, porque recebe contribuições e comentários de pessoas ao redor do mundo, cujo interesse é melhorar os argumentos, e não de um editor, cujo interesse, segundo Taleb, é encaixar o texto na linha da revista.

Nascido em Beirute de uma família libanesa tradicional e afluente, Taleb testemunhou a perda da fortuna familiar durante a guerra civil naquele país, antes de transferir-se para os EUA. Enquanto ainda trabalhava no mercado financeiro, publicou “Fooled by Randomness“, em 2001 (Enganados pela aleatoriedade“), em que explorava o papel do acaso e da sorte nos mercados de capitais, e desmentia ideias sobre a competência de “traders” renomados. Com suas obras mais recentes, como um livro de aforismas chamado “The Bed of Procrustes” (“O Leito de Procrustes“), passou a estender seus argumentos para além do mundo financeiro, o que lhe valeu ser considerado um filósofo em perfis publicados pela mídia americana.

Ele mesmo não se define assim. “O que faço, para resumir, é estudar probabilidades e a tomada de decisões. Mas a probabilidade é algo que se mistura com muitos outros campos, então é por isso que muitas pessoas consideram que faço Filosofia“, afirma Taleb. “Estou interessado em problemas práticos, matemáticos e filosóficos, todos sob o ponto de vista da probabilidade. Estou juntando todos os meus livros em um só volume e ele vai chamar-se ‘Um Ensaio Filosófico sobre a Incerteza’.”

Parte da atenção que as obras de Taleb atraem, tanto de seguidores quanto de detratores, resulta de um estilo particular de escrita. De um lado, seu texto é agressivo. Ele não hesita em escrever que suas fórmulas são estatísticas sem “bullshit”, ao contrário do que fazem “esses charlatães”, como chama economistas, professores universitários e jornalistas de opinião (“Meu problema maior é nos Estados Unidos, em outros países não é assim”). Formalmente, ele escreve de modo solto, iniciando uma explicação com exemplos do dia a dia e terminando com extensos comentários, que podem envolver impérios do passado e silogismos filosóficos.

Ambas as características são fruto de sua convicção de que alguém que escreve ou toma qualquer atitude na esfera pública deve estar pessoalmente engajado naquilo que faz, arriscando-se a grandes perdas. (…)

De longe, o maior alvo das críticas acerbas de Taleb é o establishment americano, particularmente, o governo, a mídia, a academia e as grandes corporações. Sobre a mídia nos EUA, Taleb considera que as grandes empresas de comunicação, como o “New York Times“, não conseguem ter independência em relação ao governo e às grandes corporações – “eles apoiaram até mesmo a guerra no Iraque”. Há opções: “Quando quero informação de verdade, vou procurar no ‘The Guardian‘”, o jornal britânico cujo acesso pela internet é livre. “Por que faço isso? Porque aí sei que consigo uma opinião livre, que absolutamente não existe na imprensa americana.”

Se o problema em política e na economia é a concentração excessiva e a ilusão dos ganhos de escala, a solução passaria por uma maior fragmentação das comunidades, áreas de influência que se tornariam razoavelmente autônomas, favorecendo ideias que têm ganhado terreno nos últimos anos, como a de “bottom-up” (de baixo para cima) no lugar de “top down” (de cima para baixo) e o mantra “small is beautiful”, segundo o qual o pequeno é preferível ao grande. “Todas as grandes transformações da história da humanidade aconteceram assim.”

Taleb é um defensor renhido da ideia de cidade-Estado, em oposição ao Estado-nação. Argumenta, com exemplos históricos, que a única forma de centralização política necessária é uma confederação com fins militares, para evitar guerras. Entram nesse conceito a liga de cidades-Estado da Grécia antiga, o império austro-húngaro (em que os povos balcânicos teriam convivido muito melhor do que sob a Iugoslávia centralizada), a Suíça e até mesmo a França do Antigo Regime – “que era centralizada, mas incompetente para administrar. Quando aprenderam a administrar com competência, o país entrou em crise.” A Organização das Nações Unidas (ONU) seria um bom exemplo, também, “mas é uma instituição completamente burocrática e, por isso, incompetente”.

Leia maishttp://www.blackswanreport.com/blog/

4 thoughts on “Previsões “bullshit” de charlatães como economistas, professores universitários e jornalistas de opinião

  1. Prezado Fernando,

    o autor escreveu excelentes livros, segue o download:

    The Black Swan – Nassim Nicholas Taleb – Epub: http://www5.zippyshare.com/v/63548219/file.html

    Antifragile – Things That Gain from Disorder by Nassim Nicholas Taleb – Epub:http://www51.zippyshare.com/v/64138376/file.html

    The Bed of Procrustes Philosophical and Practical Aphorisms – Nassim Nicholas Taleb – Epub:http://www45.zippyshare.com/v/11049775/file.html

    Fooled by Randomness – Nassim Nicholas Taleb – Epub:http://www3.zippyshare.com/v/99616099/file.html

  2. Fico imaginando, esse esquema de sistemas antifrágeis pode ajudar a explicar porque as previsões de Marx que as contradições do capitalismo iriam destruí-lo. Será que é possível que as contradições do capitalismo o tornem mais forte ao invés de mais fraco? Afinal, Taleb foi um crítico do Piketty, dizendo que o Piketty incentivava a inveja. Mas, talvez eu não conheça ambos o suficiente para opinar, mas esse pensamento passou pela minha cabeça.

    • Prezado Rafael,
      se Taleb disse que Piketty incentivava a inveja, era uma confissão: ele sentia inveja dele!
      Será mais uma “querelle des écoles” ou pura vaidade que transborda dos intelectuais midiáticos?
      Não sei, mas sei que o sistema financeiro “frágil”, devido ao risco sistêmico, é componente fundamental do capitalismo…
      att.

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