Lógica do Mercado e da Família X Lógica Cívica

Política para não ser idiota

Os diálogos entre Mario Sergio Cortella e Renato Janine Ribeiro, reproduzidos no livro “Política: para não ser idiota”, são inspiradores para se rever alguns conceitos. Um deles é o de idiota. Eu o uso de maneira contumaz para classificar o “interniota”, isto é, aquele frustrado que não tem consciência do mal que faz a si e aos outros ao se aproveitar do recurso do anonimato para navegar na Web 2.0 injuriando as ideias alheias. Com sua agressividade acaba por desestimular uma plataforma social de discussão que poderia ser civilizada e educativa.

Anencefalia generalizadaCortella ensina o conceito original de idiota. A expressão idiótes, em grego, significa aquele que só vive a vida privada, que recusa a política, que diz não à Política. Cabe a retomada desse conceito para designar aquele que vive fechado dentro de si e só se interessa pela vida no âmbito pessoal? Um lugar-comum é dizer: “Não me meto em política”.

Outro conceito que adoto é o de Política como ação coletiva não só para conquistar direitos e proteção social, mas também para a defesa de interesses particulares. Janine, por sua vez, afirma que “atualmente há certa convergência de conceituação entre Política e Democracia”.

De fato, ambas passam pela fala, pela conversa, pelo diálogo. Elas se opõem às ditaduras, onde predomina a lógica militar para conquistar (e manter) o Poder, porque nestas não há liberdade de expressão. Mas, nesse sentido estrito, o conceito não caberia em regimes escravocratas, ou seja, durante a maior parte da história da humanidade. Na República Romana, por exemplo, mesmo excluindo as mulheres, os estrangeiros e os escravos, não haveria política entre as facções de senadores? Será que essa longa tradição não se mantém ainda hoje? A política do Congresso não permanece restrita aos deputados e senadores? Não se mantém a “política de coronéis e seu curral eleitoral paroquial”? Pouca importância dão eles à satisfação de seus eleitores a não ser nos dois meses de campanha eleitoral, quadrienal no caso de deputados, e a cada oito anos, dos senadores.

Quando Cortella e Janine conversam a respeito do desinteresse contemporâneo pela Política a reflexão recai sobre o falso moralismo com o diagnóstico simplista: “boa parte das pessoas está enojada pela descoberta ou pelo avanço da corrupção”. Aliás, eles reconhecem que é discutível se ela realmente aumentou ou apenas se tornou mais visível.

De fato, muitas pessoas se sentem assim em relação a um determinado modo de fazer “politicagem” – política de interesses pessoais, de troca de favores, ou de realizações insignificantes. Não corresponde à ideia mais abrangente de Política. Há conexão entre Liberdade, Democracia e Política. O idiota não é livre porque toma conta apenas da própria vidinha. Na realidade, só é verdadeiramente livre aquele que se envolve na vida pública, na vida coletiva.

A liberdade pessoal é fundamental. Mas, e as pessoas que se submetem a uma conformidade religiosa? Tal escolha de lógica religiosa não implica necessariamente uma postura política, já que é uma submissão coletiva?

Há convergência entre liberdade política e liberdade pessoal. Esta se tornou possível com o avanço da noção de indivíduo, desde a Renascença. Contudo, o individualismo se transformou em obsessão em vários momentos, o que é especialmente evidente na substituição do indivíduo pelo individual, entendido como exclusivo. A indústria cultural-ideológica cria alguns padrões de comportamento, possibilitando apenas algumas pessoas (aquelas com mais condições econômicas ou mais autonomia intelectual) a, de fato, fazer escolhas mais livres. Outras são constrangidas a seguir uma série de práticas rituais.

Uma propaganda maciça pode nos levar a escolher entre opções muito restritas. Somos alvo de muitos constrangimentos. A Política seria, justamente, “uma maneira de lançarmos luz sobre essas teias invisíveis que nos dominam e tentarmos controlá-las”.

Nesse caso, a Política é vista como ação e/ou convivência coletiva. Mesmo que moremos cada um em sua própria domus, ou seja, em sua casa, nos só temos con-domínios. Viver é conviver, seja na cidade, ainda que em casa ou prédio, seja no país, seja no planeta. A vida humana é condomínio. E só existe Política como capacidade de convivência, exatamente, em razão desse condomínio. Daí o indivíduo idiota pergunta: “Mas, e meu direito de sair com meu carro quando eu quiser, ou de fazer ruído na minha casa até a hora que eu desejar?”.

Essa lógica do proprietário, isto é, “do meu”, significa “eu faço o que quero na minha e com a minha propriedade, sou livre porque paguei por isso”. Ora, afirma Cortella, “esse exercício da liberdade como soberania é algo que se aproxima da ideia da idiótes”. Ninguém é soberano em uma Res-pública. Entretanto, o indivíduo idiota afirma: ‘Eu sou soberano sobre mim mesmo’. “Mas ser soberano sobre si mesmo não é Política.” É apenas justificativa para seu individualismo egoísta.

Alguns idiotas entendem Liberdade e Direito como uma propriedade ou como um objeto de consumo. Tentam entender o mundo a partir de uma visão consumista. Tendem a pensar que possuem direitos de propriedade sem obrigações.

Nas ideias de Direito, Justiça e Liberdade está embutido, indiretamente, certo sentido de dever. Os direitos ligados à vida em sociedade estão ligados a obrigações. O indivíduo não pode ter direitos se não cumprir certos deveres. Tanto isso é verdade que pode perder o direito à liberdade de movimento se não for capaz de viver em sociedade. O consumismo chegou ao ponto de até entender o Direito, Dever e Liberdade enquanto objetos de consumo e/ou propriedade.

Existe um asco pela política, pois ela é associada à política partidária dos acordos espúrios e da corrupção. Existe um desprezo por se supor que política (com p minúsculo) é uma coisa menor. Os idiotas passaram a tomar o homem “apolítico” como homem de bem! Na Antiga Grécia, o homem de bem era o oposto, justamente aquele que participava da política. O idiota hoje diz frases do gênero: “Ele é um homem de bem, nunca se meteu em política”.

Temos direitos humanos que os antigos gregos não tinham. Atingimos uma prosperidade econômica que eles não conheceram. Porém, ao falar de Democracia, somos menos capazes que os atenienses!

Atentemos para os verbos usados na expressão “temos de enobrecer (ou enriquecer) a nossa capacidade de convivência”. Significam que nós, os proletários, que só cuidamos da nossa prole, temos de viver a Política, isto é, a ação coletiva de convivência, como os nobres ou os ricos. Nesse sentido que a Política seria uma atividade “nobre” ou “rica”. Não apenas para cuidar dos próprios interesses particulares, mas sim do Reino ou da Nação. Nós, os cidadãos, homens comuns que conquistamos direitos e cumprimos deveres, temos de apropriar da Política para cuidar da defesa dos interesses coletivos da Sociedade.

Os laços sociais se enfraqueceram muito, pois a autonomia e as possibilidades de escolha de cada indivíduo concorreram para tornar as relações mais frágeis e vulneráveis. Em que medida conseguimos estabelecer uma relação de prazer na companhia alheia, de convívio e crescimento com o outro?

Cada lógica de ação – um conceito de inspiração weberiana que alguns chamam de lógica institucional – pode ser definida como um sistema de regras socialmente compartilhadas de pensamento e comportamento envolvendo a definição de um domínio ou esfera de ação, incluindo suas fronteiras e as pessoas, seus papéis ou posições, os agentes coletivos e os objetos pertencentes a esse domínio. Associados aos papéis ou posições há objetivos ou obrigações.

Destacam-se entre as lógicas de ação a lógica do mercado, da família e a cívica, correspondentes aos mais importantes domínios de provisão econômica. A provisão é o ato ou efeito de prover. O provimento refere-se a um conjunto de artigos de consumo e uma reserva pecuniária necessários à manutenção de uma comunidade, uma família ou um pessoa durante certo período.

Diferentes lógicas de ação coexistem ou podem ser contrapostas umas às outras, o que gera um tipo de complexidade, por exemplo, misturando Política e Economia. Se existe um asco pela Política, porque ela é associada à política partidária dos acordos espúrios e da corrupção, o que predomina nesse enojamento é que a instituição Parlamentar não deve misturar a lógica cívica referente ao cidadão como elemento integrante do Estadocom a lógica do mercado ou mesmo com a lógica da família. No nepotismo — favoritismo para com parentes, especialmente pelo poder público — até netos de políticos profissionais se sentem na obrigação de seguir a carreira do avô! É como apenas eles – e não o civil comum – tivessem a “nobre” vocação para a “velha política”…

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