Só Negação da Política e Cidadania Incompleta

soneguei

Os diálogos entre Mario Sergio Cortella e Renato Janine Ribeiro, reproduzidos no livro “Política: para não ser idiota”, permitem lembrar que, no passado, havia algo de sagrado nas reuniões políticas. A ideia de uma ekklesia (o vocábulo grego para reunião, o qual deu origem à palavra igreja) referia-se a uma comunidade de fé, uma assembleia como “eclésia”.

A política era vista como arte que nos faz humanos. A la Aristóteles, nossa classificação seria – gênero próximo: humano; diferença específica: racional; diferença específica entre os humanos: político. O contrário disso é o idiota – que, portanto, é menos humano. O que nos torna mais humanos é justamente a capacidade do exercício da Política como convivência coletiva e como conexão de uma vida.

Hoje existem sociabilidades intensas, mas parciais. As pessoas conseguem se reunir e se entusiasmar com movimentos de reivindicação dos direitos dos negros, dos gays, das mulheres, entre outros. Mas o que caracteriza essa sociabilidade intensa de hoje?

Nas ações coletivas contemporâneas há uma certa relação de espelho: o indivíduo se reúne com pessoas parecidas com ele. Pessoas que são ricas como ele se reúnem no Clube São Paulo, por exemplo, ou pessoas que são gays, ou feministas, ou petistas, ou religiosas, ou torcedoras, etc. Militantes são assim: eles atuam, participam, vão a todas as passeatas e tal, mas são apenas um grupo, uma proporção mínima da sociedade.

Exemplo que ilustra esse ponto são as assembleias de associações docentes e de funcionários na Universidade, nas quais geralmente só comparecem os que estão de acordo entre si. Viram amigos, até fazem festas. Mas quem discorda não vai à assembleia nem à festa!

Então, a dificuldade que enfrentamos é conseguir estabelecer um laço social entre todos os membros da sociedade, pelo menos um laço social forte a ponto de permitir o exercício mesmo da democracia. Porque, se nos reunirmos só com quem é parecido conosco, não desenvolveremos as potencialidades da democracia, do convívio e do aprendizado com quem é diferente de nós – e o laço social ficará frágil, como parece que ficou.

Quando intelectuais vão a um jantar com muitas pessoas, provavelmente, nenhum presente vota na direita, nenhum tem uma fé religiosa intensa. E por aí vai… Não há relações sociais entre pessoas heterogêneas. É sempre mais do mesmo: “eu comigo”. Convivemos com gente muito parecida conosco. É muito comum encontrarmos as mesmas pessoas nos mesmos locais. Quase sempre as vemos em determinado cinema, bar ou restaurante – ou pedaço de praia…

Há certa identidade de participação que dá origem a um sentimento de ligação. Algo nos conecta. Essa conectividade é o que leva alguns a frequentarem o “feicebuque”, a seguirem gente semelhante na rede social. Hoje se supõe que a política se faz nessas redes, onde o indivíduo consegue ser seguido. Assim, ele se sente participante. Mas ele consegue adesões de pessoas que pensam de maneira distinta?

Estamos no campo das aparências; há certa satisfação na aparência. O fato de alguém pertencer a um pequeno grupo que organiza uma mobilização que chateia e interrompe a mobilidade de muitas pessoas não significa que aquela pessoa está “transformando a sociedade”. Significa que ela está apenas fazendo um happening, um evento. Na sociedade dos espetáculos, será que não acabamos deixando de lado a política como história para só praticar a política como evento, como fragmento, da prática do ato excêntrico para ele ser publicado na mídia?

As mobilizações, as reivindicações e os protestos de “meia-dúzia” dão resultados? Muitos estão convictos de que tudo isso não leva a nada. Como alguém que faz uma passeata reivindicando a qualidade dos serviços públicos para o povo e acaba sendo manipulada pela mídia como sendo contra o governo de esquerda, pode se considerar bem-sucedido?!

A verdade é que, muitas vezes, só se consegue substituir um bom governante por um arrivista. O risco é chegar ao poder quem se determinou a triunfar a qualquer preço, mesmo prometendo medidas impopulares em prejuízo futuro de quem o elege.

Para estimar a Política, é importante a ação coletiva ser eficaz: o indivíduo precisa sentir que sua iniciativa tem um retorno, produz algum resultado. Se ele nunca tiver uma resposta positiva, acabará desistindo de agir. Se frequentar assembleias para sempre ser derrotado, desistirá de comparecer – a não ser que tenha uma mentalidade de testemunha ou de herói.

Na realidade, as pessoas não sabem exatamente o que esperar da política. Elas sentem que os resultados obtidos são limitados. Desde a democratização do País, em 1985, tivemos uma sequência de avanços sociais. Entretanto, não se nota crescer a sensação de que as pessoas sejam senhoras da própria vida, coletivamente.

O que entendemos por cidadania no Brasil não se esgota na democracia como ato de votar e ser votado. Para um norte-americano, cidadão é aquele que pode votar e ser votado, que tem seus direitos e deveres, entre os quais, pagar impostos. Para nós, quando falamos, na política, em cidadania plena, estamos nos referindo a escola de qualidade para todos, atendimento de saúde adequado, possibilidade de trabalho digno, etc. Em resumo, nós mesclamos a noção de cidadania com direitos humanos e direitos sociais. Não aceitamos que sejam só os direitos civis ou políticos.

Os brasileiros, de maneira geral, acham que o Estado deve dar aos cidadãos determinadas coisas, e não que o cidadão deve construir o Estado que forneça tais coisas. A ideia do povo norte-americano, por exemplo, é outra. Para eles, a noção de contribuinte, de quem é cidadão porque paga impostos, é fundamental, ao passo que, para nós, falar nisso nos causa certa vergonha. No Brasil, temos dificuldade em construir uma ideia de cidadania que tenha uma de suas bases no pagamento de impostos. Parece coisa de mau gosto. Melhor é sonegar… Só negar a política!

5 thoughts on “Só Negação da Política e Cidadania Incompleta

  1. Excelente. É o que senti nas manifestacoes de Junho de 2013. Nao há participação efetiva, há uma festa individual de grupos usufruindo do patrimonio publico (parando ruas, no caso da minha cidade- Floripa, a ponte de acesso) para sua festividade/evento particular.

    Claro que existiram os movimentos com objetivo, mas em geral, não havia um ideal maior. Apesar de ser um pequeno começo ter esse movimento, as pessoas nao engajaram e ainda nao sentem que sao parte da construção daquilo que almejam.

    Acho qeu nossa cultura é muito de receber e nao de atuar para fazer acontecer. Nao imagino da onde veio isso. Estou errado?

    Por que o brasileiro espera tanto e não quer atuar/ser cidadao para tanto? Por que tanto querer cuidar do “proprio rabo” e esquecer que estamos a todo momento construindo a sociedade e para todos, nao somente para seu próprio usufruto?

    Posso estar errado na minha analise, mas precisamos de se sentir um povo. Com sua experiencia, qual seu sentimento arespeito disso? e o que tem mudado nas ultimas decadas?
    abraço,

    pS: achei muito boa a ideia de que devemos ter contato com nossos contrários. A vida fica fácil quando vivemos no nosso mundo intelectual sempre igual, sem abrir a cabeça para novas ideias/ideias contrarias. mas é natural do ser humano gregar com pessoas semelhantes e se afastar de diferentes.

    Como desenvolver a sociedade se nao enxergarmos os outros pontos de vista? Como se resolve isso? Acho que somente a humildade… mas isso é condição complexa para nossa individualidade humana para virar condição comum. Dificil saber.

    1. Prezado Saulo,
      participar de um happening é um direito, e de um movimento social e político é um dever de formação. Porém, sempre deve estar atento para os direitos dos outros. Não se pode impedir, violentamente, o movimento dos não participantes. Não se pode depredar o patrimônio público ou privado. Não se pode atentar, irresponsavelmente, contra a vida dos outros, como foi o caso do cinegrafista da TV Bandeirantes morto por um rojão.

      Quanto à convivência com os outros “diferentes de nós”, sinto que é difícil, porém tento fazê-lo, virtualmente, através deste blog. Em vez em quando, há leitores intolerantes que me agridem nestes Comentários. Antes eu os respondia, depois vi que não adiantava, então, jogo esse tipo de Comentário mal educado e agressivo para o “lixo”.

      Presencialmente, estou com dificuldades até de reunir-me com “os nossos”…
      att.

  2. Prezado Fernando,

    no Brasil a política se transformou no inimigo público número um, e ninguém gosta de pagar impostos, pois realmente não estamos vendo um retorno, muito pelo contrário, pagamos demais para ter menos, essa é a lógica do país hoje. De que adianta pagar uma carga tributária imensa (a obrigação do cidadão), depois pagamos pelos serviços ofertados no âmbito particular, pois sabemos que os públicos não funcionam.

    Vejo a política como gratificante e positiva, mas os personagens que estão lá cuidando da política a estupram, depredam e fazem dela uma aberração, um pesadelo constante para nós que estamos aqui assistindo a esse espetáculo. E quem é o responsável pelo dano causado ao estado? É o próprio povo que ao serem eleitos, fazem do cargo uma mina de ouro e enchem todos os dias os cofres dos paraísos fiscais: via contratos superfaturados, acordos fraudulentos, laranjas, etc.

    Mas o culpado da política não funcionar como deveria é o próprio povo que possui um DNA infectado pelo vírus da corrupção que de tão avançado, daqui a pouco, não precisará nem do hospedeiro para se proliferar, terá criado braços e pernas – acho até que já está andando por aí. Abs.

    1. Prezado Reinaldo,
      acho que tempos de diferenciar a Política com “P” maiúsculo, que é ação necessária de convivência coletiva em um ambiente democrático da “politicagem”, que é a ação individualista de “se dar bem com o toma-lá-dá-cá”, tipo troca-de-favores, clientelismo, “curral-eleitoral”, visão paroquial voltada apenas para seu distrito, município ou estado, etc.

      Quanto à questão da “carga tributária e retorno”, agendei um post a respeito para hoje às 12:00.
      abs.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s