Amor em Pedaços X O Mito do Amor Romântico

Amor em pedaços

Em Sobre A Arte De Viver, Roman Krznaric analisa as lições que o passado oferece, no caso, a respeito do amor.

A ideia do amor apaixonado, romântico, que emergiu no Ocidente durante o último milênio é uma de nossas heranças culturais mais destrutivas. Isso porque sua principal aspiração – a descoberta de uma alma gêmea – é praticamente inatingível.

Podemos passar anos à procura dessa pessoa elusiva que satisfará todas as nossas necessidades emocionais e nossos desejos sexuais, que nos proporcionará amizade e autoconfiança, conforto e risos, estimulará nossas mentes e compartilhará nossos sonhos. Imaginamos que existe alguém no éter amoroso que é nossa outra metade perdida, e que nos fará sentir completos, bastando apenas que possamos fundir nosso ser com o dele na sublime união do amor romântico.

Essa calamidade cultural desenvolveu-se em cinco estágios, começando nos desertos da Arábia, onde eros tornou-se a base do amor romântico. Agape foi acrescentado ao ideal romântico na Europa medieval tardia, ao passo que philia e pragma foram incorporados durante um terceiro estágio, no século XVII. O movimento do Romantismo aprofundou a importância de eros e, por fim, philautia e ludus tornaram-se parte de nossas esperanças românticas no século XX. A consequência é que estamos agora oprimidos pela crença infundada e muitas vezes perigosa de que todas as variedades de amor podem e devem ser encontradas numa única pessoa.

O amor romântico nasceu por volta do fim do primeiro milênio, em contos, poesias e música da Pérsia, no início da Idade Média. O culto europeu medieval da cortesia ou amor cortês foi o segundo estágio na evolução do amor romântico. O beijo sensual era quase desconhecido na Europa durante a Idade Média, embora um beijo molhado seja melhor que um coito às pressas…

A originalidade do amor cortês não estava tanto em ser uma atrevida reação contra a condenação das paixões físicas pela Igreja, mas em elevar o amor romântico heterossexual a um ideal de vida. Viver – e até morrer – por amor tornou-se uma nova ambição pessoal, pelo menos no seio da aristocracia, devido à ideologia da cortesia.

Eros não fazia parte do ideal do casamento, ainda considerado um arranjo para a geração de herdeiros e a garantia do patrimônio. A dedução era “o amor não pode estender seu domínio sobre marido e mulher”.

Uma peculiaridade ainda maior da cortesia era a presença de ágape, um amor altruísta por desconhecidos. O amor cortês foi muitas vezes descrito como um relacionamento casto. A dama era inatingível por possuir uma posição social superior à do homem, ou devia ser admirada apenas a distância. Mas eram precisamente essas barreiras à consumação sexual, subjacentes a uma grande parte do romance medieval, que intensificavam a paixão e o erotismo.

Hoje, vemos a marca dessa tradição trágica na maneira como tantas pessoas procuram amores inalcançáveis ou inacessíveis de alguma maneira, por exemplo, por já serem casados ou muito mais jovens ou com grande diferença entre idades. Evidentemente, essa estratégia perversa serve tanto para aumentar a excitação sexual – a emoção da caça – quanto para satisfazer um desejo inconsciente de sofrimento e risco. Muitas vezes nos preparamos para fracassar

O terceiro estágio na história do amor romântico foi o casamento de companheirismo. Talvez seu maior legado tenha sido transformar o casamento de um contrato quase totalmente utilitário em uma união apaixonada de genuíno companheirismo. Os holandeses do século XVII foram pioneiros na fronteira dos casamentos amigáveis, amorosos. Ajudaram a substituir a prática dominante do casamento arranjado pela ideia de casamento por amor. Mas isso resultou também no maior afunilamento do amor em direção a um só relacionamento.

Os burgueses dos Países Baixos viam no casamento o lugar apropriado para entregar-se aos prazeres de eros. O leito nupcial não era apenas um local conveniente para a procriação eficaz, mas um local a compartilhar na sensualidade da conversação carnal.

Esperava-se também que os casamentos corporificassem pragma, o amor maduro que envolve o compartilhamento das responsabilidades de ter uma família e manter um lar. Uma vida conjugal deveria proporcionar philia, a amizade marcada pelo companheirismo alheio ao conceito medieval de casamento.

O amor conjugal romântico passou a ser cada vez mais apreciado como fonte de realização pessoal e deixou-se de se estranhar que um homem desenvolvesse profunda amizade pela esposa. Somente no final do século XIX, com a expansão da educação para as mulheres, passou a ser comum que os maridos tratassem as esposas como iguais, merecedoras de amizade tanto intelectual quanto emocional.

Logo após o aparecimento do casamento de companheirismo, a história do amor foi incendiada pelo quarto desenvolvimento: a explosão do movimento romântico. Atraiu a concepção emergente do amor ocidental para uma perigosa paixão dominada pela busca de eros.

Com o advento do amor capitalista no século XX, o amor tornou-se uma mercadoria que podia ser comprada e vendida, com os relacionamentos contaminados – e até deformados – pela ideologia do mercado. As pessoas sempre compraram sexo, mas a compra do amor foi um desenvolvimento novo.

Cada vez mais, nos vendemos como objetos de desejo. O ethos consumista que se infiltra na cultura pública estimulou-nos também a tratar a procura de um amor como uma forma de ida às compras. Duas pessoas enamoram-se quando encontram o melhor objeto de desejo disponível no mercado. Hoje, somos propensos a descartar companheiros potenciais com base em uma lista de traços preferidos. A eficiência do mercado está tomando o lugar de um feliz encontro casual!

Há mais que eficiência de mercado em ação. Podemos ter uma tendência semelhante a trocar de amante se vemos outro melhor em oferta – alguém que preencha o maior número de requisitos necessários, tratando nossos companheiros quase como bens materiais que podemos descartar à vontade.

O resultado é nos tornamos excessivamente concentrados na obtenção de satisfação individual – a gratificação de nossos próprios desejos –, e não em dar amor a outrem. A cultura capitalista nos atraiu pouco a pouco para uma forma doentia de philautia ou amor-próprio.

Com a expansão da philautia egoísta, houve um crescimento do ludus, ou amor brincalhão. Isso foi em parte gerado pelo movimento do amor livre, dos anos 60, que se libertou de inibições e sentimentos de culpa em relação ao sexo e afirmava que o sexo podia ser divertido.

A ideia de que devemos ser bons no sexo – um amante apaixonado e brincalhão – deu origem a acessos de ansiedade quanto ao desempenho. Associou-se o sexo à ansiedade, ao medo do fracasso, de ser objeto de riso, comparado, abandonado. Hoje, homens e mulheres temem que, se não puderem oferecer a seu parceiro uma poderosa combinação de eros e hudus na hora do sexo, podem sofrer rejeição e ser jogados à volta no poço da solidão que tanto tememos.

Passamos pouco a pouco a acreditar que uma única pessoa – uma alma gêmea – pode fornecer todos os diversos amores de que precisamos em nossa vida. Hoje procuramos um parceiro que possa não só satisfazer nossos desejos sexuais, mas também proporcionar:

  1. a profunda amizade de philia,
  2. a disposição brincalhona do amor lúdico,
  3. a segurança de pragma, e
  4. fazer os sacrifícios altruísticos de ágape em nosso benefício,
  5. coisas que deveriam ser sustentadas por uma dose substancial de philautia, ou amor-próprio.

O problema é que essas exigências suscitam expectativas que sao quase impossíveis satisfazer!

O mito do amor romântico deixou não apenas milhões de pessoas alimentando fantasias que a realidade não foi capaz de realizar, mas também desempenhou importante papel como causa da epidemia de divórcios que atingiu o mundo ocidental no último meio século e do inexorável aumento de relações pouco duradouras e insatisfatórias.

Temos uma alternativa: as variedades de amor inventadas pelos gregos antigos. Deveríamos nos esforçar por cultivá-las, e com uma série de pessoas, não com uma só.

Poucos podem tolerar relacionamentos abertos, pois o ciúme sexual é parte de nossas naturezas. Só nos realizamos no amor se cultivarmos uma multiplicidade de formas e tirarmos proveitos de suas muitas fontes. Assim, deveríamos fomentar nossa philia com amizades profundas, fora de nosso relacionamento principal, e abrir espaço para que nosso amado faça o mesmo, sem nos ressentir do tempo que ele passa longe de nós.

Podemos procurar as alegrias de ludus não apenas no sexo, mas em outras formas de divertimento. Nos deixar tomar demais pelo amor-próprio, ou limitar nosso amor apenas a um pequeno círculo de pessoas, não será suficiente para satisfazer a necessidade interna de nos sentir parte de um todo mais amplo.

Como buscar um parceiro sexual e como podemos fazer o relacionamento florescer e durar?

A primeira lição da história é mudar nossas expectativas. Temos de abandonar a ideia de perfeição – de encontrar alguém que preencha todos os critérios de nossa lista de desejos amorosos. É demais pedir que alguém satisfaça não só nosso desejo de eros e philia, mas de todas as outras dimensões do amor também!

Podemos forjar uma união com quem compartilhamos a intimidade de uma amizade e os prazeres serenos de envelhecer juntos.

A segunda lição da história é compreender que o amor tem cronologia própria, com suas diferentes variedades, surgindo e desaparecendo no decurso de um relacionamento. Tudo pode começar com a excitação sexual de eros e o flerte de ludus. Mas, depois que a euforia do enamoramento desaparece aos poucos, há espaço para a emergência de philia e do amor maduro do pragma. Por fim, o amor se expressa como ágape, uma forma de se dar à outra pessoa ou de se dar conjuntamente aos que nos cercam, em que suas alegrias parecem ser as nossas.

Não há nenhum padrão fixo para a maneira como esses vários amores se manifestam. Mas seria sábio de nossa parte entrar em sintonia com sua presença cambiante, deixando que aqueles que já tiveram seu tempo desapareçam e cultivando os que ainda estão por florescer.

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