Cenário Internacional

Cenários

Bernanrd Condon (AP apud Valor, 24/07/14)  acha que, no momento mesmo em que a economia dos EUA se fortalece, outros países ameaçam retardá-la.

Empresas americanas estão criando vagas no ritmo mais forte desde o fim da década de 90, e a economia do país finalmente parece pronta para crescer a um ritmo saudável. Mas a fragilidade do crescimento de França, Itália, Rússia, Brasil e China sugere que o velho chavão “quando os EUA espirram, o resto do mundo pega pneumonia” pode ter de ser mudado. Talvez o resto do mundo é que vai espirrar desta vez, e os EUA é que vão pegar pneumonia.

Essa é a opinião de David Levy, de 59 anos, diretor do boletim Levy Forecast, especializado em análise econômica, inaugurado por sua família em 1949 e com um histórico invejável. Quase dez anos atrás, o economista advertiu que o mercado americano de imóveis residenciais era uma bolha pronta para estourar, e que os prejuízos decorrentes empurrariam o país para uma recessão tão grave que o Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) não teria opção senão reduzir as taxas de juros de curto prazo para o nível mais baixo de todos os tempos, a fim de estimular a economia. Foi exatamente o que aconteceu.

Agora, Levy diz que tudo indica que os EUA entrarão, em 2015, numa recessão desencadeada pelo desaquecimento das economias de outros países, pela primeira vez na história contemporânea.

“Para o resto do mundo, a recessãoserá pior do que a última“, diz Levy, cujo avô previu o colapso da bolsa de 1929 e cujo pai foi elogiado por décadas por antever viradas do ciclo econômico, muitas vezes contra a opinião corrente.

Sinais alarmantes já se fazem sentir. Ao contrário dos bancos americanos, os bancos europeus ainda estão às voltas com um excesso de empréstimos não quitados herdados da crise financeira. O endividamento das famílias e das empresas do continente europeu está alto demais. E o nível de confiança está caindo, o que ficou evidente na venda em massa de ações, no mês de julho, puxada pelo temor com a situação do maior banco português.

Na China e em outros emergentes, o velho problema de depender dos endividados americanos para comprar seus produtos a cada ano, em vez de vendê-los, em quantidade suficiente, à sua própria população, se traduz num número excessivo de fábricas subutilizadas. “O mundo espera pegar carona na força do consumidor americano”, diz o economista Eswar Prasad, da Universidade Cornell, “mas o consumidor americano não está em condições de assumir esse fardo”. Eta povinho azarento! A autossuficiência passou, mas a arrogância ficou… 🙂

Os mercados emergentes se restabeleceram mais rapidamente da crise financeira do que os países ricos, mas Levy acha que a grande causa desse fenômeno é a mesma que piorou as coisas. As empresas no exterior injetaram dinheiro em fábricas, máquinas e prédios para fabricar coisas com base no pressuposto de que as exportações, depois de se recuperarem dos níveis recordes de baixa da recessão, continuariam a crescer ao ritmo anterior. Mas não cresceram, e isso é um grande problema, diante dos valores excessivos investidos também pelas empresas para aumentar a produção antes da crise.

Levy diz que os EUA estão mais vulneráveis a problemas externos do que as pessoas imaginam. As exportações responderam por 14% da produção da economia americana no ano passado, ante 9% de 2002. Parece uma boa variação, mas ao mesmo tempo torna o país mais dependente do crescimento mundial, que, por sua vez, depende mais dos mercados emergentes. Esses mercados geraram 50% da produção mundial no ano passado, em relação aos 38% de 2002.

Levy acha que a origem dos males econômicos do mundo é muito mais complexa e profunda do que pensam os investidores focados no colapso do mercado imobiliário. O problema não se resume ao fato de os americanos terem assumido contratos de crédito imobiliário que não tinham condições de pagar. Estaria, isso sim, no excesso de empréstimos de muitos tipos tomados em muitos países, tanto por empresas como por pessoas físicas. Esse excesso de endividamento começou há tanto tempo – Levy o atribui à década de 1980 nos EUA – que as pessoas perderam a noção de quanto é prudente assumir em termos de dívidas.

Muitos economistas, por exemplo, se impressionam com o fato de que a dívida assumida pelas famílias americanas caiu dos 130% da renda líquida anual, de antes da crise, para 104%, o que sugere que as pessoas não estão se endividando demais. Mas qual é o nível de endividamento saudável? Levy não tem certeza, mas suspeita que é muito menos. Ele observa que, em 1985, correspondia a 74% da renda da população.

[No Brasil, o endividamento total das famílias está em 44% da renda; excluindo as dívidas imobiliárias, fica em 30%.]

Se tudo isso implica uma recessão nos EUA já é outra questão.

Steven Ricchiuto, economista-chefe da Mizuho Securities, também acha que as pessoas não estão percebendo os sinais de uma nova desaceleração mundial, mas considera que a economia americana, de qualquer maneira, continuará a crescer.

Daniel Alpert, autor de um livro soturno chamado “Age of Oversupply” (A Era da Superoferta, em tradução livre) sobre o excedente de produtos de exportação de países estrangeiros que tanto preocupa Levy, também considera que os EUA não vão entrar em recessão.

Prasad, da Universidade Cornell, que vê muitos dos mesmos problemas apontados por Levy, suspeita que as economias emergentes podem já ter “alcançado o fundo do poço”, o que sugere que os investidores que estão comprando suas ações agora podem não ser tão tolos, afinal.

Sergio Lamucci (Valor, 24/07/14) informa que o Fundo Monetário Internacional (FMI) espera um crescimento de 1,7% para os EUA neste ano, abaixo dos 2% estimados em meados de junho. A revisão do desempenho do PIB americano no primeiro trimestre, de queda de 1% para uma contração anualizada de 2,9%, explica o corte da projeção em relação ao mês passado. Nos primeiros três meses do ano, um inverno rigoroso prejudicou a atividade, junto com outros fatores, como o desempenho mais fraco no mercado imobiliário, a correção de estoques e a demanda externa mais fraca, segundo o FMI.

Apesar disso, o Fundo aposta numa aceleração da economia no resto do ano, à medida que o emprego melhorar, as empresas aumentarem a produção, as vendas e encomendas de bens duráveis crescerem e a confiança voltar. O vice-diretor do Departamento para o Hemisfério Ocidental do FMI, Nigel Chalk, projeta um crescimento anualizado acima de 3% na maior parte deste ano e no próximo. Para 2015, a previsão de uma expansão de 3% foi mantida.

O FMI observa, contudo, que o crescimento potencial (aquele que não acelera a inflação) tende a ficar na casa de 2% nos próximos anos, dado o peso do envelhecimento da população e um avanço mais lento da produtividade. “Isso é bem abaixo da média do crescimento potencial de mais de 3% visto na década anterior à crise financeira.”

Para combater esse problema, o FMI recomenda mais investimento em infraestrutura, uma melhora nos resultados educacionais, aperfeiçoamento do sistema tributário e a formação de uma força de trabalho mais qualificada, incluindo aí reforma da imigração, treinamento de mão de obra e assistência a crianças de famílias de trabalhadores. No curto prazo, há espaço para crescer acima de 2% sem grandes desequilíbrios pois ainda há muita ociosidade na economia.

Essa folga faz o FMI apoiar a política monetária expansionista adotada pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano). O Fundo espera que o pleno emprego seja atingido só no fim de 2017 e que as pressões inflacionárias continuem contidas. Se isso ocorrer, os juros podem ficar próximos de zero além de meados de 2015, o momento para o qual o mercado vem projetando a primeira alta da taxa básica, nota o FMI.

O relatório destaca ainda a necessidade de os EUA enfrentarem a pobreza, observando que quase 50 milhões de americanos são considerados pobres. O FMI defende o aumento do salário mínimo, uma proposta do presidente Barack Obama que enfrenta a resistência da oposição republicana.

Além disso, o Fundo diz que deveria haver uma expansão da devolução de imposto de renda para outros segmentos da população, como famílias sem crianças, trabalhadores mais velhos e jovens com salários baixos.

Segundo Chalk, a preocupação do FMI com a pobreza não se deve apenas a uma questão social, mas também à sustentabilidade do crescimento de longo prazo. Ele lembra que uma em cada quatro crianças americanas é pobre.

Essas análises fazem parte do relatório completo sobre os EUA preparado pela equipe de economistas do FMI para as consultas ao artigo IV, o capítulo do estatuto da instituição que prevê uma revisão anual da situação dos seus países-membros. Em meados de junho, o Fundo havia divulgado as principais conclusões do estudo.

3 thoughts on “Cenário Internacional

  1. Reblogged this on engenhonetwork and commented:
    Caro Fernando,
    Gostei da análise, muito bom, mas, porém, todavia,…., o alter ego humano ocidental, ainda olha muito para seu umbigo, claro nem todos, incluindo David Levy, que diz em forma codificada:
    (…) Levy acha que a origem dos males econômicos do mundo é muito mais complexa e profunda do que pensam os investidores focados no colapso do mercado imobiliário. O problema não se resume ao fato de os americanos terem assumido contratos de crédito imobiliário que não tinham condições de pagar. Estaria, isso sim, no excesso de empréstimos de muitos tipos tomados em muitos países, tanto por empresas como por pessoas físicas. Esse excesso de endividamento começou há tanto tempo – Levy o atribui à década de 1980 nos EUA – que as pessoas perderam a noção de quanto é prudente assumir em termos de dívidas”.
    Herodotus, há 2500 anos: “O Oriente é o berço de toda a civilização e toda a sabedoria”.
    E sobre aquele pedacinho do mundo, na qual já tem hoje, mais da metade da população mundial, segundo os dados globais, diz Martin Jacques (http://www.martinjacques.com/), e também no estudo da McKinsey entre a crise no ocidente e a China:

    McKinsey Global Institute – Report: China’s digital transformation
    With more than 600 million users, China is already the world’s largest Internet market, but its economy is on the cusp of an even greater transformation as more businesses go digital. A recent report from the McKinsey Global Institute finds that new applications of the Internet in key sectors of the Chinese economy could account for up to 22 percent of the country’s GDP growth from 2013 to 2025. more:
    http://www.mckinsey.com/insights/high_tech_telecoms_internet/chinas_digital_transformation?cid=other-eml-nsl-mip-mck-oth-1408

    • Prezado Oswaldo,
      acabei justamente de agendar dois posts a respeito da transição entre modos de produção e da comparação Civilização Ocidental X Civilização Oriental. Neste, eu interpretei as séries temporais de longo prazo (milênios) que Thomas Piketty apresentou em seu livro “O Capital do Século XXI” e lancei uma provocação: o Capitalismo Liberal já era! Tem deadline para seu encerramento: em meados deste século (2050)! Viva o Capitalismo de Estado ou o Socialismo de Mercado!

      Considerando os auges e as quedas de outras civilizações, que tiveram ciclos “meio” milenares, o “determinismo histórico” (sic) mostra o seguinte: República Romana (550aC-44aC) -Império Romano Ocidental (44aC-476dC) – Império Bizantino (476-1453) – Império Chinês I (Dinastia Ming 1368-Guerras do Ópio Anglo-Chinesa: 1839-1842 e 1856-1860) – Império Euro-Americano (1492-2050) – Império Chinês II (1979-…)
      att.

  2. Caro Fernando,

    Considerando a “art of long view”, temos que citar o nosso mestre e Filósofo Social (…, economista uma ova):

    Celso Furtado e o Ocidente em ‘State of Denial’

    (…) “O interesse crescente pelos trabalhos científicos e suas aplicações tecnológicas é traço marcante da civilização ocidental. As grandes civilizações orientais haviam amealhado uma massa enorme de conhecimentos, mas não chegaram a captar as complexas relações entre conhecimento ordenado (ciência), a riqueza ordenada (bens e serviços), e a faculdade normativa de exercer o poder. Hoje, esse quadro já não é mais o mesmo: as posições de vanguarda do Ocidente na ciência e em suas aplicações, que o singularizaram até o fins do século XIX, esvaneceram-se nos últimos decênios do século XX. Com efeito, as projeções mais recentes a respeito da distribuição espacial dos frutos do desenvolvimento, tanto econômico como científico, indicam que nos próximos dois a três decênios o mundo Oriental terá alcançado, ou mesmo superado, o Ocidente.” (“A responsabilidade dos cientistas” – Discurso de Posse na ABL, 04 de julho de 2003 – Celso Furtado Essencial, 2013 p: 489).

    A minha provocação esta no texto:
    O Ocidente pode ser tornar, novamente, uma sociedade covarde?
    William Shakespeare, poderia dizer através da voz de seu personagem trágico, Othello Euro-Americano: “yes we can”.
    http://engenhonetwork.wordpress.com/2013/10/03/celso-furtado-e-o-ocidente-em-state-of-denial/

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