Produto Potencial e Produtividade

PIB Potencial

Alex Ribeiro (Valor, 24/07/14) apresenta o gráfico acima, mostrando a evolução, desde 2001, das projeções do mercado financeiro para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) quatro anos a frente, colhidas pelo boletim Focus. Os números refletem basicamente a expectativa de economistas-chefe, consultados pelo BCB, sobre o PIB potencial.

Este é um número mítico se for especulado ex-ante, com base no “achômetro”. Na realidade, só ex-post se constata qual teria sido o “PIB de equilíbrio (ou potencial)”, isto é, o produto que equilibraria a demanda agregada e a capacidade produtiva total, não provocando pressão inflacionária. Como “experiência é um farol que ilumina para trás”, o PIB potencial é como a experiência, quando há mudança estrutural, quebrando a regularidade do passado, pouco serve para advertir quanto ao que vem adiante

Em 2010, o PIB avançava numa velocidade de 7,5%, e as projeções de mercado para o PIB potencial subiram para 4,5%. Agora, com a economia ladeira baixo, recuaram para 2,93%. O resumo é que, quando a economia caminha bem no curto prazo, os analistas estão mais otimistas; quando vai mal, ficam pessimistas — e cegos quanto ao que vem adiante!

A expansão média da economia brasileira entre 2011 e 2014 deve ficar em 1,8%, caso se confirme a projeção do mercado para o PIB deste ano (0,97%). Surgiu no debate a hipotese de que, mais do que fatores cíclicos, parece haver, sim, o esgotamento do modelo em que a economia é puxada pela formalização do trabalho e pela queda do desemprego.

O Banco Central, sensatamente, defende a tese de que a economia está passando por uma transformação estrutural. Em vez do consumo e da incorporação de largos contingentes de brasileiros ao mercado de trabalho, agora os motores da economia seriam o investimento, as exportações e os ganhos de produtividade.

Fatores que levam à expansão da oferta agregada podem ampliar o PIB potencial. Entre eles:

  1. as concessões na área de logistica (rodovias, hidrovias, ferrovias, portos e aeroportos),
  2. os investimentos em petróleo e
  3. os novos marcos regulatórios, como o dos portos e da mineração.

O pressuposto é que investimentos em infraestrutura trazem retornos mais elevados em países que ainda estão em estágio menos avançado de desenvolvimento, como o Brasil. O resultado desses investimentos demora um pouco, mas vai aparecer quando os investimentos maturarem.

Outra aposta do Banco Central é que os trabalhadores brasileiros estão ficando mais produtivos porque passam mais tempo na escola e frequentam cursos de qualificação profissional, como o Pronatec. ” O país está investindo um dinheirão em educação. Isso terá efeito.”

A produtividade da economia também seria puxada por uma mudança na composição da demanda agregada. O consumo das famílias já perde força (avançou 2,5% nos quatro trimestres até março), e se espera que o mesmo ocorra com o consumo do governo. Investimentos ganhariam corpo e, com eles, novas tecnologias, que aumentam a produtividade. A recente desvalorização cambial puxaria a demanda externa e o segmento de bens comercializáveis, que é mais produtivo que os demais.

A argumentação do Banco Central tem sido recebida com ceticismo por analistas econômicos míopes que só enxergam perto (curto prazo), mas não longe (longo prazo). Para muitos, cegados pela ideologia neoliberal, seria mais um exercício de futurologia abrigado sob o manto “do horizonte relevante de política monetária”. Erram nessa avaliação por não fazerem uma abordagem estruturalista, percebendo as mudanças que estão ocorrendo sob a aparência conjuntural de estagnação econômica.

Até agora, o Banco Central ainda não publicou um estudo formal para embasar a sua visão. Quem fez isso no ano passado foi o corpo técnico do Fundo Monetário Internacional (FMI), nos documentos que deram base ao chamado relatório do artigo IV, que avalia a situação da economia de cada um de seus membros. O organismo calculou o PIB potencial brasileiro em 3,5% até 2020 e, para chegar lá, foi a fundo em cada um dos fatores citados pelo Banco Central.

No caso do aumento da educação, o FMI calculou que poderá contribuir em 0,9 ponto percentual (pp.) no PIB potencial. É um fator importante, mas não muito acima da contribuição dada por ele mesmo entre 2005 e 2009 (também 0,9 pp.) e entre 2010 e 2014 (0,6 pp.). Como bem nota o relatório do FMI, a escolaridade média dos brasileiros vem crescendo desde a década de 1970.

O grande fator que poderá puxar o PIB potencial – com uma contribuição positiva de 1,7 pp. -, diz o documento do FMI, são os ganhos de produtividade, sobretudo os ligados a projetos de infraestrutura e uma esperada reforma tributária. A grande incerteza, diz o FMI, é se o Brasil vai conseguir puxar a produtividade acima de sua média histórica, que avançou cerca de 1% entre 2000 e 2010. Se muito bem-sucedido, o PIB potencial pode chegar a 4% até 2020, mas, se falhar, pode deslizar a apenas 2,5%.

PIB e produtividade

Flávia Lima (Valor, 24/07/14) informa que diversos estudos têm apontado as baixas taxas de crescimento da produtividade do trabalho no Brasil como um dos principais fatores a explicar o baixo crescimento da economia, especialmente em períodos mais recentes. Em trabalho sobre os principais determinantes da produtividade, os economistas André Nassif, Carmem Feijó e Eliane Araújo ampliam a discussão ao mostrar que a recíproca também pode ser verdadeira: baixa produtividade pode ser consequência de baixo crescimento. E vão além ao mostrar que outros fatores – como taxa de investimento por setor e inovações tecnológicas – também têm impacto importante sobre a eficiência na indústria.

As duas variáveis nem sempre andam juntas. A produtividade do trabalho na indústria caiu 0,95% ao ano enquanto o PIB cresceu 3,72% no período englobado pela pesquisa (entre 2000 e 2008). A despeito da variação positiva da atividade econômica no período, o estudo indica que a produtividade ligada à indústria derrapou, porque os investimentos foram concentrados em setores de baixa tecnologia e capacidade de inovação.

Segundo os autores, o PIB é a variável mais significativa para explicar os ganhos de produtividade, mas sozinho ele não explica tudo. Por meio de diversos modelos econométricos, eles associam as taxas de crescimento da produtividade de 21 setores da indústria de transformação local como dependentes não só do PIB real, como também da taxa de investimento e de inovações tecnológicas.

O estudo apresenta a decomposição do investimento em cinco segmentos: infraestrutura, habitação, recursos naturais, bens de consumo de massa e bens de capital, segundo divisão feita por outros pesquisadores, Ricardo Bielschowski, Gabriel Squeff e Lucas Vasconcelos. Entre 2000 e 2008, os investimentos em setores de maior produtividade – como bens de capital (máquinas e equipamentos) e bens de consumo – cresceram a uma taxa de 3,5% e 3,1%, respectivamente, bem abaixo da taxa de investimento da economia como um todo, de 4,8% ao ano no período. Já os investimentos em infraestrutura foram os que mais cresceram entre 2000 e 2008, com alta de 7,8%, justamente um setor que registra baixa produtividade e baixa capacidade de disseminá-la para outros segmentos da economia (conhecido como ‘spill-over’).

Para Nassif, professor de economia internacional da Universidade Federal Fluminense (UFF) e economista da área de planejamento do BNDES, as conclusões do estudo – que não foi além de 2008 em razão da indisponibilidade de alguns dados – podem ser jogadas para frente. Diante de taxas pífias de expansão da economia, e da não reação da taxa de investimento agregada, é possível suspeitar que o crescimento atual é mais forte em setores de mais baixa produtividade e capacidade de inovação, como serviços, em detrimento da indústria. E, dentro do setor de serviços, o avanço se dá em segmentos que são, por natureza, considerados de baixa produtividade, como comércio e varejo.

Diferentemente do que muitos imaginam, diz Nassif, a retomada do crescimento não vai ser suficiente para alavancar as taxas de produtividade da economia. Para ele, é pouco provável que o PIB volte a crescer a taxas mais robustas – assim como a produtividade do trabalho – se a retomada do investimento for liderada por setores com baixa capacidade de gerar e difundir inovações, como infraestrutura e habitação, em oposição ao setor de bens de capital.

O estudo, diz Nassif, não está dizendo que o investimento em geral não seja capaz de estimular a produtividade, mas que, no caso brasileiro, esse investimento ficou confinado a segmentos de baixa produtividade – daí a queda da produtividade do trabalho da indústria. “O modelo sugere que, se a taxa de crescimento do investimento se originar em setores de média, média alta e alta tecnologia, a economia cresce mais e a produtividade acompanha”, diz.

Segundo o economista, só assim o país vai se aproximar de países como a China e Índia, em que a produtividade cresce a uma taxa anual em torno de 6%, ou do próprio Brasil na década de 70, quando a produtividade da economia como um todo crescia a taxas de 5% ao ano.

O que fazer, então, se boa parte do investimento previsto para o país nos próximos anos vem justamente da infraestrutura, setor menos conectado a inovações? Segundo Nassif, o fluxo gigante de investimento em infraestrutura só conseguirá alavancar o PIB e a produtividade do trabalho se aumentar seus vínculos com os setores de maior produtividade, em especial segmentos de maior capacidade de inovação, como máquinas e equipamentos de variados tipos, eletrônica e setor automotivo.

Para tanto, diz Nassif, não bastam políticas industriais específicas. Segundo ele, o Brasil tem feito esforços enormes para implementar políticas industriais e tecnológicas no período recente, como, por exemplo, o Plano Brasil Maior, adotando inclusive instrumentos de fomento à inovação. “Mas o problema principal é macroeconômico. Com juros elevados e câmbio apreciado, os frutos da política industrial não são colhidos.”

“Se o país não conseguir operar com taxas de juros reais próximas ao padrão internacional e não conseguir eliminar a tendência cíclica de apreciação da moeda brasileira não adianta”, afirma Nassif. “Nenhuma economia em desenvolvimento consegue ser competitiva com moeda apreciada.”

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