Empatia de Massa e Mudança Social

Empatia entre pintos

A ideia de empatia tem nítida conotação moral e muitas vezes é associada a “ser bom”. Mas a empatia experiencial sugere que é muito mais interessante expandir nossa mente fazendo intercâmbio para dentro da vida de outras pessoas – e permitindo-lhes ver a nossa. Em vez de perguntar a nós mesmos “Para onde posso ir da próxima vez?”, a pergunta adequada seria: “No lugar de quem posso me colocar da próxima vez?”

empatia entre gatosRoman Krznaric, autor do livro Sobre A Arte De Viver: Lições da História Para Uma Vida Melhor, afirma que “a empatia também é um fenômeno de massa, com o potencial de produzir mudança social básica. Muitas das mudanças mais importantes na história não ocorreram quando houve uma troca de governo, de leis ou sistemas econômicos, mas quando houve um florescimento de empatia coletiva em relação a estranhos que serviu para criar novos tipos de compreensão mútua e construir pontes sobre as divisões sociais”.

Esses momentos do passado são relevantes para a arte de viver. Por que? Porque participar de movimentos empáticos de massa nos ajuda a escapar da camisa de força de nosso individualismo e nos faz sentir conectados a algo maior que nós mesmos. Encontramos sentido e realização na vida não apenas ao perseguir ambições privadas, mas por meio de ação social em que nos juntamos a outros em busca de metas comuns.

O século XVIII viu também a emergência das primeiras organizações empenhadas em combater o abandono de crianças, a escravatura e a crueldade com os animais. Um exemplo desse tipo de movimento que ilustra como a empatia alterou os contornos da história humana, foi a luta britânica contra a escravatura e o comércio de escravos no fim do século XVIII.

No início dos anos 1780, a escravatura era uma instituição social aceita em toda a Europa. A Grã-Bretanha presidia o tráfico internacional de escravos e cerca de meio milhão de escravos africanos era obrigado a trabalhar até morrer no cultivo de cana-de-açúcar em colônias britânicas e nas Antilhas.

No período de duas décadas, porém, algo extraordinário aconteceu. Surgiu um movimento social de massa que levou amplos setores da população britânica a se voltar contra a escravatura, conduzindo à abolição do tráfico pelo Parlamento inglês, em 1807, e ao fim da própria escravidão em todo o Império Britânico, em 1838.

Roman Krznaric se pergunta: como e por que essa profunda e inesperada mudança aconteceu? No entanto, ao desejar enfatizar o papel de movimentos de empatia de massa, ele não salienta que outros fatores podem ser correlacionados. Por exemplo, o fator econômico como a mudança para o regime de assalariamento, após a Revolução Industrial inglesa, como forma de expandir os mercados interno e externo, e o fator político como a Revolução Francesa que extinguiu a escravidão antes da Inglaterra e serviu de exemplo dessa possibilidade. Houve também revoltas de escravos nas plantations, tal como a que levou à Independência do Haiti.

Pesquisas mais recentes põem a empatia no centro dessa história. O sucesso do movimento antiescravagista baseou-se no fato de que os abolicionistas depositavam sua esperança na empatia humana. Usou a empatia como principal ferramenta estratégica: eles planejaram estimular as pessoas para a ação expondo-as aos traumas e sofrimentos experimentados diariamente pelos escravos, de modo que pudessem se pôr no lugar deles e imaginar a realidade de suas vidas. Faziam descrições impactantes dos sofrimentos dos escravos.

A campanha de formação de opinião pública favorável ao abolicionismo teve resultados extraordinários. Dezenas de milhares de membros do público britânico compareceram às reuniões, formaram comitês locais, assinaram petições, boicotaram açúcar proveniente das plantations e fizeram exigências ao governo parlamentarista. Foi o mais forte movimento em prol dos direitos humanos que o mundo já vira.

Mas por que houve uma reação pública tão imensa à questão na Grã-Bretanha, enquanto nenhum movimento de massa contra a escravatura surgiu em outros países europeus? Roman Krznaric afirma que “a empatia fornece uma resposta”.

No final do século XVIII, os britânicos estavam no meio de um confronto contra o sequestro e a escravidão que representava a prática do alistamento naval compulsório. Isto representava uma contradição com tudo que as leis britânicas encerravam a respeito dos direitos dos cidadãos. A Marinha Real apoderava-se à força de todo homem robusto da classe trabalhadora que podia se ver, efetivamente, escravizado por vários anos, despojado de suas liberdades fundamentais.

Os militantes contra o tráfico escravo traçaram paralelos diretos com essa prática de alistamento compulsório: o público britânico tinha uma compreensão empática, muitas vezes baseada em experiência pessoal ou na de seus parentes, do que significava ser escravizado e ter suas liberdades básicas negadas. Por isso pôde reconhecer claramente a cruel injustiça da escravatura nas plantações coloniais.

Os operários fabris britânicos viam semelhanças entre sua própria exploração e a dos escravos. Pediam o fim da escravatura tanto em casa quanto no exterior. Os irlandeses, por sua vez, sentiam-se oprimidos pelos britânicos.

O poder da empatia ajuda a explicar a ascensão do movimento de massa, a força da opinião pública e a legislação que resultaram em abolição. Foi durante a luta contra a escravatura que a empatia amadureceu como força capaz de alterar o curso da história.

a história do abolicionismo no Brasil remonta à primeira tentativa de abolição da escravidão indígena, em 1611, e a sua abolição definitiva, pelo Marquês de Pombal, durante o reinado de D. José I, e aos movimentos emancipacionistas no período colonial, particularmente a Conjuração Baiana de 1798, em cujos planos encontrava-se a erradicação da escravidão.

Após a Independência do Brasil, as discussões a este respeito estenderam-se por todo o período do Império, tendo adquirido relevância a partir de 1850, devido à pressão britânica. O governo britânico tinha decretado, em agosto de 1845, o Bill Aberdeen. Com o nome de Lord Aberdeen, do Foreign Office (o Ministério britânico das Relações Exteriores), o Ato dava ao almirantado britânico o direito de aprisionar navios negreiros, mesmo em águas territoriais brasileiras, e julgar seus comandantes. Os capitães britânicos receberam poderes de atracar navios brasileiros em alto mar e verificar se transportava escravos — deveriam se desfazer da carga, devolvendo os escravos à África, ou transferi-la para os navios britânicos. Alguns capitães de navios negreiros, antes de serem abordados, jogavam a carga humana no oceano!

Mas um caráter verdadeiramente empático popular, o movimento abolicionista só conseguiu a partir de 1870, culminando com a assinatura da Lei Áurea de 13 de maio de 1888, que extinguiu a escravidão negra no Brasil, o último país independente a acabar com essa atrocidade no mundo ocidental.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s