Capitalismo Liberal Já Era!

Repartição da Produção Mundial 1700-2012

Não foi à toa a repercussão mundial do livro “O Capital no Século XXI” de autoria de Thomas Piketty. Desconsiderando as costumeiras querelas, rusgas, disputas, desavenças e rixas entre intelectuais e suas escolas de pensamento econômico, a obra prima disponibilizou, inclusive via web, séries temporais em longo prazo jamais montadas através de extrapolação de tendências históricas.

Por exemplo, no gráfico com a repartição da produção mundial entre 1700 e 2012, percebe-se que o PIB europeu representava 47% do PIB mundial em 1913, antes da Primeira Guerra Mundial, e caiu para 25% em 2012. As Américas, no ano inicial dessa série, era formada por colônias britânicas, francesas, espanholas e portuguesas. Sua produção era quase toda contabilizada como matérias primas ou alimentos consumidos nas metrópoles europeias. Até a África a superava em termos relativos. Em 1700, a Ásia possuía mais de 60% da produção mundial. Daí em diante, sua participação nessa renda foi decaindo até atingir o piso de 20% no ano de 1950.

Essa data representou o ano final da Guerra Civil Chinesa. No dia 1o. de outubro de 1949, Mao Tse-tung proclamou a República Popular da China. Desde a introdução de reformas econômicas por Deng Xiao-Ping, em 1978, a China tornou-se uma das economias de mais rápido crescimento no mundo, sendo a maior exportadora e a terceira maior importadora do planeta. A industrialização via IDE (Investimento Direto Estrangeiro com contrapartida em transferência de tecnologia) reduziu a sua taxa de pobreza de 53% em 1981 para 8% em 2001. O país tem sido considerado uma superpotência emergente.

A Ásia é o maior dos continentes, tanto em área como em população. Abrange um terço das partes sólidas da superfície da Terra e é responsável por abrigar quase três quintos da população mundial. Entre os 50 países da Ásia são encontradas algumas das maiores e menores nações do mundo, tanto em área como em população. A Federação Russa, cuja parte europeia corresponde a um quarto de seu território e tem o restante na parte asiática, é duas vezes maior que os Estados Unidos e o Canadá juntos.

A Civilização Asiática teve início há mais de 4000 anos, muito antes de registro da primeira Civilização Ocidental – a do Império Romano –, em termos de atividades econômicas, manifestações culturais e desenvolvimento da ciência. Os cidadãos da Ásia foram os inventores da escrita e criaram a literatura. Os fundadores de todas as religiões mais relevantes do mundo foram asiáticos: Buda, Confúcio, Jesus Cristo e Maomé. Os asiáticos também foram os inventores do papel, da pólvora, da bússola e do tipo móvel.

Porém, durante o século XVI, a economia asiática declinou-se, enquanto o mundo ocidental, com a conquista do Novo Mundo (Américas) teve rápido progresso. As nações do Oeste da Europa foram também as conquistadoras da parte predominante da Ásia do século XVI até o século XIX. Em 2012, a Ásia já retomou cerca de 40% da geração da renda mundial.

Repartição da População Mundial 1700-2012

Quanto à repartição da população mundial, a Europa possuía 26% dela em 1913. Com as duas grandes guerras mundiais e seu declínio demográfico, em 2012, passou a ter apenas 10% dessa população. Somando-a à das Américas e da África, o Ocidente possui cerca de 40% ou 2/5 da população mundial.

Repartição do Capital Mundial 1870-2100

No que se refere à repartição do capital mundial entre 1870 e 2100, o valor do capital privado dos quatro continentes citados representava 500% da renda mundial, ou seja, a relação capital/produto era 5 vezes em 1910, ano pré-guerras. Em 1950, ano pós-guerra, com a perda de capital ou destruição de riqueza, inclusive capacidade produtiva, declinou para pouco mais de 2,5 vezes. Passa-se ½ século e no ano inicial do novo milênio (2000), essa relação já se eleva para mais de 4 vezes. A partir de então, está decaindo a participação do Ocidente no capital mundial. Na metade do século XXI, os países asiáticos deverão reter a metade desse capital. Superará todo a economia ocidental até 2100. Com relação à relação capital/renda no nível mundial, poderá se aproximar de 700% (7 vezes) no fim do século XXI!

Relação Capital-Renda no Mundo Anos 1870-2100

Taxa de Crescimento da Produção Mundial Anos Anos 0-2100A taxa de crescimento médio da produção mundial atingiu 4% de 1950 a 1990, período de reconstrução pós-guerra e industrialização nascente nos países emergentes. No entanto, a previsão é de queda para cerca de 2% de 2012 a 2050.

Taxa de Crescimento da População Mundial Anos 0-2100A taxa de crescimento médio da população mundial ultrapassou 1% de 1950 a 2012 e deverá retornar à taxa de 0% até o fim do século XXI. Aliás, do ano zero até a conquista do Novo Mundo (1500), era pouco mais do que isso: 0,2%!

Taxa de Crescimento da Produção Mundial Anos 0-2100Quanto à taxa de crescimento médio da produção mundial por habitante, desde a Antiguidade (ano zero) até 2100, observe que até as Revoluções Burguesas, no século XVIII, também era próxima de zero! Com a conquista de direitos civis, entre os quais o direito à vida (extinção da escravidão) e à propriedade privada (conquista social contra a concentração fundiária da aristocracia europeia), e após a Revolução Industrial, a taxa de crescimento médio da renda per capita elevou-se para quase 1% ao ano no século XIX e no entre-guerras. Somente no período da reconstrução pós-guerra (1950-1990) que essa taxa ultrapassou 2% aa. Com o bônus demográfico, industrialização nascente e urbanização, nos BRICs, a taxa de crescimento médio anual da renda per capita ultrapassará 2,5%, entre 2012 e 2050, e depois retornará a algo próximo de 1,5%.

Taxa de Rendimento do Capital e Taxa de Crescimento da Renda 0-2100A taxa de rendimento do capital (r: taxa de crescimento anual antes dos impostos) foi sempre superior à taxa de crescimento mundial (g), mas o hiato se fechou ao longo do século XX. Ele pode se ampliar de novo, no século XXI, com a queda desta última. O mais interessante é a curva representativa do ½ milênio de capitalismo. Do ano zero ao ano de 1500, a taxa de rendimento puro do capital (r) foi estimado em 4,5% aa. Com o capitalismo comercial, após a conquista das Américas, e o posterior capitalismo industrial, além das descolonizações e da extinção da escravidão, essa taxa ultrapassou 5% aa entre 1500 e 2012. A partir de então, retornará para a média anual de 4,5% até 2100. Em outras palavras, o capitalismo liberal já era! O sonho acabou, quem não dormiu no luxo nem sequer sonhou… 🙂

2 thoughts on “Capitalismo Liberal Já Era!

  1. Reblogged this on engenhonetwork and commented:
    Celso Furtado, o pensador, o visionário e filósofo social que no pós segunda guerra percebeu que o mundo passava um rearranjo de forças de grandes transformações e e alertou a sociedade tupiniquim, “foi um bonde chamado desejo”, meio século depois ele voltou a alertar:
    (…) Celso Furtado, olhando para frente no horizonte de duas a três décadas no final do século XX, já vislumbrava e alertava-nos. sobre o futuro, entre Ocidente e o Oriente:

    (…) “O interesse crescente pelos trabalhos científicos e suas aplicações tecnológicas é traço marcante da civilização ocidental. As grandes civilizações orientais haviam amealhado uma massa enorme de conhecimentos, mas não chegaram a captar as complexas relações entre conhecimento ordenado (ciência), a riqueza ordenada (bens e serviços), e a faculdade normativa de exercer o poder. Hoje, esse quadro já não é mais o mesmo: as posições de vanguarda do Ocidente na ciência e em suas aplicações, que o singularizaram até o fins do século XIX, esvaneceram-se nos últimos decênios do século XX. Com efeito, as projeções mais recentes a respeito da distribuição espacial dos frutos do desenvolvimento, tanto econômico como científico, indicam que nos próximos dois a três decênios o mundo Oriental terá alcançado, ou mesmo superado, o Ocidente.” (“A responsabilidade dos cientistas” – Discurso de Posse na ABL, 04 de julho de 2003 – Celso Furtado Essencial, 2013 p: 489).
    http://engenhonetwork.wordpress.com/2013/10/03/celso-furtado-e-o-ocidente-em-state-of-denial/

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