Transição entre Modos de Produção

 

Linha de Montagem no FordismoOs modos de produção, de acordo com a concepção marxista, são formados pela interação entre o conjunto das forças produtivas e o conjunto das relações de produção, em certo estágio de desenvolvimento. Eles designam as condições técnicas e sociais que constituem a estrutura de um processo historicamente determinado.

Alguns marxistas dizem que “os homens ao produzirem bens materiais criam um regime para a sua vida”. Uma questão-chave contemporânea é: se retiramos essa restrição – “produção de bens materiais” – e se vivemos já um estágio de desenvolvimento onde predomina a produção de serviços desmaterializados, entramos na transição para um novo modo de produção?

O modo de produção também é um determinado modo de vida. Iniciamos o processo de superação do “modo de vida norte-americano” (american way of life)? Essa expressão era usada como peça publicitária, durante a Guerra Fria (1949-1989), para mostrar as diferenças da qualidade de vida entre as populações dos blocos capitalista e socialista (“realmente existente”: SOREX).

Naquela época, a ideologia popular americana adotava a ideia de que qualquer indivíduo, independente de sua herança, poderia aumentar significativamente a qualidade de sua vida no futuro através de determinação, força da vontade e trabalho duro por conta própria. Ideologicamente, o american way of life pregava a superioridade do individualismo, da livre iniciativa e do consumismo face ao coletivismo, à estatização dos meios de produção e do comunismo.

Uma das particularidades dos modos de produção consiste na sua transformação permanente. Seu desenvolvimento (e consequente alteração) determina a modificação do regime social no seu conjunto.

Essa evolução dos modos de produção explica-se pelo desenvolvimento das forças produtivas levar a uma contradição com as relações sociais de produção, de tal forma que estas se revelam como um obstáculo ao pleno desenvolvimento daquelas. Por exemplo, considerando alguns tipos historicamente mais significativos de modos de produção, houve os seguintes. Um rural primitivo, destinado à satisfação direta das necessidades dos produtores (autossubsistência), com a venda ou troca de eventual excedente. Outros (escravista ou servil-feudal) destinados a manter uma classe dominante através da entrega regular de trabalho compulsório e tributos. Até que surgiu o modo de produção capitalista, baseado na produção urbano-industrial de mercadorias e na exploração da força de trabalho assalariada para a obtenção da mais-valia.

Pergunta-se: vislumbramos já outro modo de produção, onde predomina amplamente a produção de serviços? Esta se define pela relação direta (e presencial) entre o produtor e o consumidor. No entanto, na atual Era da Cibernética, a produção compreende a comunicação e o controle de máquinas, indivíduos e grupos sociais através de analogias com as máquinas eletrônicas.

A cibernética estuda o tratamento da informação no interior destes processos autômatos. Sob o ponto de vista da transmissão da informação, a distinção entre máquinas e seres humanos é mera questão de semântica. A introdução da ideia de retroação rompe com a causalidade linear e aponta para a ideia de círculo causal (tipo Web 2.0) onde o prestador de serviço age sobre o usuário que, em retorno, age sobre a oferta. Tal mecanismo de autorregulação permite certa autonomia de um sistema, seja um organismo, seja uma máquina ou mesmo um grupo social.

A cibernética é estudada tanto para o planejamento das economias como para o desenvolvimentos de maquinarias industriais e bélicas. Esses fenômenos são partes integrantes do novo processo produtivo via robótica industrial e serviços de controle remoto. Provocam uma mudança estrutural da economia.

A fase de formação de um novo modo de produção constituí um período de conflitos entre o “velho”, expresso no fenômeno da “desindustrialização”, e o “novo”, visualizado na larga predominância de serviços urbanos na agregação de valor. Os modos de produção rurais e industriais ainda existentes enfrentam cada vez maiores dificuldades em manter a estrutura econômica em que se baseiam, tentam reorganizar-se face à influência dos novos modos de produção via automação e controle remoto de serviços. Surgem realidades diferentes com novas formas de posse dos meios de produção, por exemplo, via:

  • arrendamento ou compartilhamento,
  • alteração dos modelos redistributivos ou de relações de trabalho,
  • mudanças na composição das classes ou grupos sociais.

Quando o novo modo de produção cibernético assume um papel preponderante em determinada sociedade, é acompanhado pelo declínio relativo dos modos antes existentes, embora estes rurais e industriais continuem a subsistir onde ainda não surgiram as condições econômicas e sociais que originaram a mudança tecnológica. As posses nos modos de produção manifestam-se de maneira diferente nas várias regiões e mesmo nas maneiras de fazer agrícola, haja visto a maquinaria moderna de altíssima produtividade por trabalhador, e industrial, tal como nas fábricas robotizadas que produzem um automóvel por minuto. O modo de produção dominante assume a determinação dos processos, das relações e das instituições fundamentais.

É possível já o reconhecimento do novo modo de produção com a análise dos dados e informações distinguindo-o quantitativa e qualitativamente? Não há outro nível de desenvolvimento das forças produtivas que altera a formação dos trabalhadores, os instrumentos e as técnicas antes adotadas? Não mudaram as relações entre os membros da sociedade e o papel de cada classe social no processo produtivo? Não está mais dispersa a propriedade acionária dos meios de produção e os direitos de cada acionista sobre eles?

O objetivo da atividade econômica, no caso predominante de prestação de serviços, se destina a satisfazer mais as necessidades e os interesses dos produtores diretos e dos consumidores. Os não produtores e os mercadores se restringem à apropriação dos excedentes gerados na produção material e em sua comercialização. Na esfera da circulação ou troca de propriedades privadas sobre os ativos, os financistas captam parte significativa do valor agregado na produção.

A ordem de grandeza, a forma, a utilização e a apropriação do produto do processo de trabalho entre os membros da sociedade se alterou no que se refere à redistribuição da renda do trabalho. Porém, a taxa de crescimento da renda do capital supera a da renda total, agravando a concentração da riqueza. Na dificuldade de obtenção de igualdade de resultados, busca-se a igualdade de oportunidades para assegurar a reprodução social. Socialismo será quando ocorrer esta e comunismo quando ocorrer aquela?

 

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5 thoughts on “Transição entre Modos de Produção

      1. Boa. 🙂

        Lógico que o seu texto vai além desta discussão do processo de desindustrizalização, mas quando observamos que a produção da industria perde importancia como fonte geradora de empregos e isto se insere num contexto de um novo desenvolvimento das forças produtivas, existe sim um processo inexoravel de desindustrialização. Os dados corroboram.

        Abraços,

  1. Caro Professor,
    Artigo muito interessante,que irá suscitar polêmicas.
    Grato.
    P.S: Segue uma conferência do sociólogo Ricardo Antunes, A atualidade de Marx -http://youtu.be/YpJ0SayJzdM
    Abs.

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