Crença

Tracos_crença

Segundo Roman Krznaric, autor do livro Sobre A Arte De Viver: Lições da História Para Uma Vida Melhor, “nossas crenças são parte essencial do que somos. Poucas pessoas irão abrir mão de suas vidas por elas, mas a maioria tem os valores e princípios segundo os quais aspiramos a viver e que ajudam a definir nossa identidade. Essas crenças são muitas vezes expressões de ensinamentos religiosos ou credos políticos”.

Nossas crenças são uma lente através da qual vemos não só o mundo, como também a nós mesmos. Elas guiam as escolhas que fazemos, mas são, ao mesmo tempo, um padrão contra o qual julgamos nossas ações.

No entanto, poucos de nós praticam a auto subversão das próprias crenças. Só as questionamos muito raramente. Einstein comentou: “o senso comum é a coleção de preconceitos que adquirimos antes dos dezoito anos”…

Não submetemos nossas crenças a exame sistemático. Sócrates nos exortou a não a viver a vida sem questioná-la.

Roman Krznaric indica que podemos buscar na história uma perspectiva iluminadora sobre as crenças que alimentamos.

Primeiro, devemos revelar os meios sutis pelos quais nossas famílias, sistemas educacionais e governos moldam nossos valores, muitas vezes sem perceber.

Segundo, precisamos pesquisar o que é necessário para mudar nossas crenças.

Por fim, é possível relembrar as lições esquecidas do passado para eliminar a lacuna entre nossas supostas crenças e nossas ações cotidianas.

O valor da História está não tanto em sugerir qual deveria ser o conteúdo de nossas crenças, mas em nos estimular a ser crentes mais perspicazes e informados, de modo a praticar a arte de viver com integridade pessoal.

Em geral, não gostamos da ideia de que as escolhas que fazemos ou as crenças que alimentamos são pré-fabricadas. Elas foram moldadas por forças externas a nós, e muitas vezes sem nosso conhecimento. Esse é o caso quando se trata de crenças associadas a religião, nacionalismo e monarquia.

De onde vêm nossas crenças? Embora se recorra à explicação de que o “projeto (design) inteligente” só poderia ser realizado por um deus sobrenatural, poucas pessoas são de fato impelidas a acreditar em um deus por argumentos intelectuais. A mais provável explicação para a crença religiosa, seja qual for a religião, é ter sido a que se herdou da família e da comunidade em que se cresceu.

A crença religiosa, portanto, é em grande parte um acidente de nascimento, geografia e história. Se você tivesse nascido em uma típica família do Teerã contemporâneo, seria quase certamente muçulmano e acreditaria nas verdades do Corão, assim como, se tivesse nascido na Itália rural no século XX, teria sido católico. Se nasceu em uma família constituída por intelectuais cultos, provavelmente é bem informado a respeito das diversas religiões e opta por ser ateu. A aquisição de religião parece semelhante à aprendizagem da língua materna.

Nossos pais nos transmitiram não apenas seus genes, mas também sua religião ou sua falta de fé em religiões, ao nos levar à igreja, à mesquita, ao templo ou à biblioteca e aos museus. Se obrigaram-nos a rezar preces, observar rituais em casa e talvez frequentar catecismos, e não nos deram liberdade de escolher a própria leitura, instruindo-nos para buscar uma cultura geral e científica, será difícil romper com essa domesticação por desconhecermos alternativas.

Pesquisa norte-americana mostrou que 90% dos protestantes, 82% dos católicos e 87% dos judeus seguem a religião em que foram criados. Se seus pais eram praticantes regulares, há apenas uma chance em dez de que você tenha abandonado a religião deles. Cerca de 1/3 das pessoas abandona a religião em algum ponto, muitas vezes durante um período de dúvidas e questionamentos na juventude, mas a maioria retorna a ela ou se converte a uma fé correlata.

Em outras palavras, se você cresce acreditando que há um deus, é improvável que abandone essa crença, considerada acriticamente como um suporte pessoal imprescindível, e se torne ateuo que não crê em deus(es) – ou agnóstico – seguidor da doutrina que reputa inacessível ou incognoscível ao entendimento humano a compreensão dos problemas propostos pela metafísica ou religião (a existência de deus(es), o sentido da vida e do universo, etc.), na medida em que ultrapassam o método empírico de comprovação científica.

A herdada visão religiosa do mundo não permitirá, facilmente, uma escolha fora da variedade de seitas que consideram a existência de deus(es) ponto pacífico, já que recorrem ao sobrenatural para explicar o que desconhecem. De modo geral, os pais têm muito mais sucesso ao transmitir suas crenças religiosas para os filhos do que ao lhes passar suas ideias políticas, paixões clubistas ou hábitos alimentares. Talvez por esses últimos costumes serem mais submetidos a escrutínios dentro da sociedade.

Os pais, porém, não têm o monopólio da determinação de nossa crença religiosa. Quase tão importante quanto a família é a comunidade em que vivemos.

Essa cultura religiosa pode também ter fortes efeitos psicológicos, em especial no tocante a experiências místicas. Muçulmanos ou taoistas, por exemplo, não têm visões da Virgem Maria, curiosamente, só aqueles cercados por ideias católicas têm essa propensão…

Uma consequência de herdarmos a religião particular de nossa família ou cultura é que também tendemos a herdar uma crença incondicional nas histórias e tradições em que ela se fundamenta, cujas verdades aceitamos sem maiores questionamentos.

Um exemplo clássico diz respeito ao Natal, suposto como sendo a comemoração da data de nascimento de Jesus. Na verdade, os romanos realizavam rituais para assinalar o nascimento do Deus Sol, Sol Invictus, que tinha lugar na data do solstício de inverno, 25 de dezembro. As evidências sugerem que após a conversão do imperador romano Constantino (306-337) ao cristianismo, ele – ou um de seus sucessores imediatos – permitiu aos cristãos celebrar o nascimento de Jesus, contanto que a data do festejo coincidisse com os festivais existentes, possivelmente para apaziguar a população, em grande parte pagã, ou para aumentar a popularidade potencial do Império. “O aniversário do Deus Sol foi transformado no aniversário do Deus Filho”…

Devemos abordar as histórias de fundação de todas as religiões antigas com cautela, pois quaisquer verdades que contenham estarão quase certamente misturadas com camadas de mitologia folclórica. A religião é, de maneira esmagadora, uma herança de gerações passadas. Por isso, para a maioria de nós, as crenças religiosas que temos como adultos poderiam ser previstas com sucesso no momento em que nascemos.

4 thoughts on “Crença

  1. Prezado Fernando,

    comecei a duvidar das crenças religiosas antes dos 10 anos de idade. O principal motivo foi a descoberta de que existe um cosmos do qual fazemos parte e não há razões para algo interferir com a ordem natural das coisas.

    O filósofo Nietzsche acertou em cheio quando afirmou que Deus está morto em: A Gaia Ciência, §125.

    “Deus foi apenas uma enorme bolha inflada pela crença e, principalmente pelo ego nu e cru do ser humano, quando essa bolha atingiu um limite operacional por volta de 1900, não resistiu mais aos avanços do pensamento humano e estourou na forma de uma ilusão autoinduzida pela própria crença nessa prerrogativa.”

    O que os religiosos têm feito perante essa verdade inegável é continuar induzindo seus fieis numa moral baseada nos restos dessa bolha de crença estourada. Então, como consequência, vemos surgir cada vez mais templos que nada mais são do que bodes expiatórios para sanguessugas do pouco que o pobre tem.

    A grande moral dessa historia é: os pobres de espírito estão garantindo um lugar no céu, e nós ateus preferimos garantir o nosso lugar na terra – vivos, porque mortos sobrará apenas as cinzas, pelo menos para adubo – não acha? Abs.

    • Prezado Reinaldo,
      a crença em qualquer religião é “herdada” dos pais e/ou comunidade. Assim, filhos de católicos, católicos serão; judeus darão sequência ao judaísmo; muçulmanos ao islamismo, etc. Pais intelectuais ou os com mente aberta, dão informações sobre todas as religiões e o ateísmo, acompanhadas de liberdade de escolha aos filhos.

      O curioso é que o infeliz passa toda a vida religiosa com dificuldade, situação aflitiva ou sofrimento muito grandes, que põem à prova a força moral, a fé religiosa e as convicções de um indivíduo. Passa por duras penas para provar algo que seus pais lhes impuseram. Pior, justifica-se com o lugar-comum que “Deus lhe enviou uma pena para testar a sua fé”!

      Religião significa provação e submissão, ou seja, falta de liberdade de escolha.
      abs

      • Prezado Fernando,
        a religião é uma anestesia no cérebro impedindo que as pessoas sigam suas vidas de modo natural. Também gosto do que Sartre disse: “O homem é condenado a ser livre, porque depois de atirado neste mundo torna-se responsável por tudo o que faz”. Significa que é a vida é de nossa inteira responsabilidade do começo ao fim e nada pode interferir com essa prerrogativa. Abs.

      • Prezado Reinaldo,
        cada vez mais eu me convenço que as próprias pessoas criam problemas para si sem sequer ter consciência disso — e dos problemas externos. E não se responsabilizam por isso!
        abs.

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