Nacionalismo

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Ao lado da religião, o nacionalismo é uma de nossas mais poderosas fontes de crença. Apela-se para a intensidade do orgulho nacional para justificar a torcida para as seleções esportivas nacionais. Em geral, os patriotas acreditam que o que há de melhor no mundo em matéria de praias, clima, café, comida e “estilo de vida” em geral. Como é possível que uma pessoa queira viver em qualquer outro lugar quando o paraíso na Terra está aqui?!

Embora a lealdade à própria nação seja amplamente difundida entre as pessoas de quase todos os países, pode ser difícil definir que crenças estão envolvidas no nacionalismo como faz Roman Krznaric, autor do livro Sobre A Arte De Viver: Lições da História Para Uma Vida Melhor.

Uma primeira forma de crença é a ideia de que nossa nação é superior às outras em aspectos particulares, como realizações culturais, beleza natural ou proezas esportivas. Cada povo acredita que tem a melhor comida do mundo. Todos têm igual convicção, simplesmente, devido ao hábito alimentar.

George Bernard Shaw reconheceu o absurdo disso tudo ao observar que “patriotismo é sua convicção de que um país é superior a todos os outros porque você nasceu nele”.

Um segundo tipo de crença nacionalista é que temos o dever de proteger a Nação quando ela está sob ameaça. O nacionalismo pode encorajar pessoas a sacrificar suas próprias vidas em benefício de seus concidadãos, e também estimulá-los a matar os inimigos. Esse potencial destrutivo do nacionalismo pode ter sido uma força vital nas lutas de povos oprimidos contra o colonialismo, mas foi também causa importante das guerras do século XX.

O que o nacionalismo tem de fascinante é o fato de ser um fenômeno histórico recente. A maioria dos Estados-nação da Europa e das Américas só emergiu no curso dos últimos trezentos anos. Eles eram aglomerações de principados ou parte de impérios. Os Estados-nação não surgiram espontaneamente por obra do simples entusiasmo popular. Para forjá-los, foi necessário enorme esforço da parte de líderes políticos, que tiveram de convencer cidadãos a prestar sua lealdade não a comunidades locais, grupos étnicos ou impérios, mas à própria nação.

Uma das ferramentas poderosas à disposição dos construtores de nação foi o uso do sistema educacional, onde havia uma audiência cativa. As escolas estiveram na linha de frente da criação da comunidade imaginada do Estado-nação na instilação sistemática de ideologia nacional. Com a emergência da educação pública, no século XIX, as crianças aprenderam a falar, ler e escrever sua língua nacional, a cantar o hino nacional e a estudar a orgulhosa história de seu país.

A educação ainda desempenha esse papel hoje, e em nenhum lugar mais que nos Estados Unidos, “gendarme da ordem mundial”, que teve mais sucesso militar que a maioria das nações em instilar patriotismo na mente de seus jovens cidadãos. Um dos meios eficazes usados para isso foi o ritual diário do juramento de fidelidade.

Quais são as origens dessa prática inusitada de fazer juramento à bandeira nacional, que não existe quase em nenhum outro país? Curiosamente, a expressão “sob Deus” nesse juramento só foi acrescentada em 1954, período do macarthismo, em reação aos temores provocados pela influência do comunismo soviético ateu. O juramento foi inventado em 1892 por um socialista cristão, Francis Bellamy, que o publicou pela primeira vez em uma revista infantil como uma ferramenta de propaganda subliminar, admitindo que as crianças mais novas seriam incapazes de compreendê-lo. Mas o juramento ganhou popularidade em especial depois de ser adotado por organizações patrióticas.

No período entre as guerras, políticos norte-americanos acreditavam que o juramento ajudava a unir um país não só ameaçado pelo radicalismo dos sindicatos e divisões étnico-raciais, mas que se via diante da tarefa de integrar milhões de imigrantes, potencialmente desprovidos de lealdade pela nova pátria. Ele ajudava a mobilizar a nação em tempo de guerra.

É extraordinário que na era democrática moderna tantos alimentem a crença antidemocrática na legitimidade do poder hereditário da monarquia. Por exemplo, na Inglaterra, uma das razões alegadas para a preservação da monarquia é que ela é uma “grande tradição britânica”, símbolo venerável da unidade nacional.

A maior parte dos rituais e cerimônias reais são criações do final do século XIX e início do século XX, quando a própria monarquia estava sob ameaça. Elas são “relações públicas” que os historiadores chamam de “tradições inventadas” – esforços conscientes da parte dos que estão no poder para influenciar sutilmente nossas crenças, sugerindo um convincente, mas ilusório, senso de continuidade com o passado.

Com a ampliação do direito do voto e a ascensão de organizações de trabalhadores, a consciência de classe começava a rivalizar com a lealdade nacional. Foi então que ressuscitaram a crença na instituição da monarquia inventando tradições. A partir de 1870, a revitalização do ritualismo real foi vista como contrapeso necessário aos perigos da democracia popular. Depois de presenciar as festividades reais, os governantes britânicos sentem que se refreou o movimento socialista.

Foi por meio dessas tradições inventadas que a coroa se reafirmou como símbolo patriótico e assegurou a lealdade das classes trabalhadoras. O êxito desse programa político é evidente, hoje, no apoio esmagador à monarquia inglesa e no fato de não haver praticamente nenhum debate público sério sobre uma alternativa republicana.

Roman Krznaric não quer dar a impressão de que somos recipientes vazios prontos para ter a mente preenchida por qualquer coisa que nossas famílias, escolas ou governos escolham para nós. Mas devemos ficar vigilantes em relação às crenças que absorvemos nos campos da religião, do nacionalismo e da monarquia. O mesmo se aplica a todas as nossas crenças, da política à ética, da ecologia à igualdade. Deveríamos sempre investigar as fontes, as tendenciosidades e a veracidade de nossas crenças.

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