Números Torturados Confessam Qualquer Coisa

Cala-a-boca

Em uma mesma edição e na mesma página (19/08, pg. A2), o jornal Folha de São Paulo publicou esta semana duas opiniões que expressam visões diametralmente opostas sobre a crise que a USP atravessa.

No editorial, que expressa a opinião do jornal, o texto afirma que “está claro que houve expansão irresponsável do funcionalismo” e defende que é muito bem-vinda a proposta do reitor Marco Antonio Zago de apresentar um plano de demissão voluntária para o enxugamento dos quadros.

O editorial afirma: “O quadro de funcionários não docentes cresceu 13% de 2010 a 2013, e o número de alunos aumentou 5%. Há algo de errado nessas contas”.

Mas, logo abaixo, em artigo intitulado “Os números não mentem“, o professor livre-docente do Departamento de Filosofia da USP, Vladimir Safatle, apresenta um quadro diametralmente oposto. Ele mostra que entre 1989 e 2012 houve aumento de 83% de alunos na graduação, 63% no mestrado e 231% no doutorado. No mesmo período, relata ele, o número de professores cresceu apenas 4% e o de funcionários caiu 5% – estes últimos passando de 17.735 para 16.839.

Em outras palavras, se é fato que os números realmente não mentem, parece que a forma como eles são selecionados e os argumentos que os acompanham podem mudar completamente o rumo da prosa.

Leia, abaixo, a integra dos dois artigos:


Receitas de como fazer JornalO EDITORIAL

USP contra o muro

Plano de enxugamento do quadro de servidores é mais que bem-vindo em uma instituição que hoje está em grave situação administrativa

É chegado o momento de definições na Universidade de São Paulo, a mais importante instituição de pesquisa do país. Se não conseguir sair do fosso administrativo em que se meteu, mesmo recebendo R$ 5 bilhões no ano do governo estadual, continuará aprisionada num círculo vicioso.

É mais que bem-vindo, portanto, o plano de enxugamento do quadro de servidores da USP apresentado pelo reitor Marco Antonio Zago. Podem-se discutir os detalhes, mas está claro que houve expansão irresponsável do funcionalismo.

Se isso não for verdade em termos operacionais, por certo o é de um ponto de vista financeiro. A universidade compromete hoje 106% de sua receita anual com a folha de pagamentos. O descalabro gerencial dilapida seus fundos de reserva e compromete o que lhe resta da capacidade de investir.

Numa reação desligada da realidade, o sindicato dos funcionários afirma que o plano visa destruir a USP. Mas o que de fato corrói os alicerces da instituição é a subordinação de sua missão acadêmica e científica à politicagem corporativista que motiva as sucessivas greves na universidade.

Zago acredita ser factível economizar 6,5% da folha até 2016 se aderirem a seu programa de demissões voluntárias 2.800 dos 17.500 servidores que não são docentes.

Além disso, o reitor propõe entregar para a administração direta do Estado unidades como o Hospital Universitário, em São Paulo, e o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, em Bauru.

Será necessário, porém, convencer o Conselho Universitário do imperativo de agir o quanto antes. Se o colegiado até aqui se omitiu no dever de repor a USP nos trilhos, por que se moveria agora? Por instinto de sobrevivência, talvez.

Os vencimentos dos servidores subiram 80% nos últimos anos. O quadro de funcionários não docentes cresceu 13% de 2010 a 2013, e o número de alunos aumentou 5%. Há algo de errado nessas contas.

Hoje, a proporção é de pouco mais de cinco estudantes por servidor. Um número semelhante ao da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que não é bem um exemplo de eficiência, e muito aquém do que se pratica nas conceituadas universidades britânicas (15:1).

Trata-se de relação abstrata, por certo, mas que deveria ser debatida no Conselho Universitário à luz do que a USP, como instituição, considera factível e se compromete a devolver para a sociedade em retribuição pelos recursos do contribuinte –se a universidade tivesse alguma clareza quanto a isso.

Não tem, pelo visto. Nada a estranhar numa comunidade acadêmica em que muitos parecem acreditar que o dinheiro nasce das árvores que ornamentam o campus da Cidade Universitária.

O ARTIGO

Números não mentem

Por Vladimir Safatle

Todo brasileiro reconhece que educação e pesquisa são nossos problemas mais decisivos. Por isso, a sociedade tem o direito de formar sua opinião a respeito do que acontece em seu mais importante centro de pesquisas e formação a partir do maior número de dados possíveis. A solução da crise pela qual passa a Universidade de São Paulo exige um debate público e aberto a respeito das responsabilidades do estado brasileiro e de seus entes federados.

No entanto, há de se reconhecer que a sociedade não tem recebido as informações necessárias para criar um quadro claro a respeito das causas da situação difícil pela qual a USP passa atualmente. Como se costuma dizer, números não mentem.

Nos idos de 1989, a USP tinha 31.897 alunos de graduação, além de 8.486 mestrandos e 4.428 doutorandos.

Em 2012 este número era 58.303 alunos na graduação (aumento de 83%), além de 13.836 mestrandos (aumento de 63%) e 14.662 doutorandos (aumento de 231%). Só entre 1995 a 2012, a universidade passou de 132 cursos oferecidos a 249, contabilizando um aumento de 88,6%, com toda a necessidade de investimento em infraestrutura para tais cursos novos. O que não deveria nos estranhar, já que, neste período, a universidade incorporou ou criou campi como os de Lorena, Santos e a USP Zona Leste.

Agora, e isto deve ser realmente sublinhado, mesmo com tal ampliação substantiva, o número de professores no mesmo período cresceu apenas 4%, passando de 5.626 a 5.860, ou seja, praticamente nada. Mas o mais impressionante é que o número de funcionários simplesmente caiu (sim, caiu) 5%, passando por sua vez de 17.735 a 16.839.

Dessa forma, a relação aluno/professor aumentou de 8 por 1 para 15 por 1 neste período, o que está longe de configurar uma instituição “inchada”, como nos foi sugerido.

Só a título de comparação a relação aluno/professor em Harvard é 7 por 1. A Universidade Católica do Chile teria passado a USP em certos rankings internacionais exatamente por ela ter uma relação aluno/professor menor. Com o congelamento da contratação de novos professores, a situação será ainda pior.

O que se tira disto é que os professores e funcionários da universidade precisam responder por mais atividades com um salário que, comparado ao recebido em 1989 por um docente, teve o seu poder de compra reduzido em 9,5%.

Estes números demonstram que a USP tornou-se uma universidade de massa em plena expansão sem ter recebido do Estado as condições para tanto. Ela é apenas um capítulo a mais da demissão do Estado em relação à educação pública.

Fonte: Adunicamp – Notícias

3 thoughts on “Números Torturados Confessam Qualquer Coisa

  1. Prezado Fernando,
    ao ler o excelente resumo feito pelo professor João Sette Whitake, percebe-se que o estado crítico da USP é uma tremenda má administração da coisa pública. Infelizmente é um drama sofrido por quase todas as instituições públicas no país, ao que parece, os próprios reitores apenas empurram o problema com a barriga e não tomam iniciativa para tentar resolver com o apoio da própria comunidade. Abs.

    • Prezado Reinaldo
      o ponto interessante para a reflexão é que, no caso, supostamente seria uma carreira meritocrática: na USP só professores titulares e os com cargos e/ou representações podem votar e ser votados para Reitor. Esta eleição determina uma lista tríplice – e o governador tucano de plantão, que adora o discurso da competência (mas não o pratica) não escolheu o mais votado!

      Escolheu o mais direitista, Rodas, ex-diretor da Faculdade de Direito, onde já tinha dado mostras do que faria.

      Então, nem sempre uma suposta “meritocracia” resolve o problema de gestão. Pelo viés heurístico da autovalidação, “tem mérito quem pensa como eu, ou melhor, quem não discorda de mim”…
      att.

      • Prezado Fernando,
        quando as decisões são políticas, nem sempre as escolhas são as mais adequadas, vemos isso o tempo todo nas instituições públicas, aí os que não são partidários de determinadas ideias, mesmo sendo mais aptos para o cargo, ficam de fora. Lamentável. Abs.

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