Heranças e Diversidades: Identidades Verticais e Horizontais

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Andrew Solomon escreveu um livro extraordinário: Longe da Árvore: Pais, Filhos e a Busca da Identidade (tradução Donaldson M. Garschagen, Luiz A. de Araújo, Pedro Maia Soares. — 1a ed. — São Paulo: Companhia das Letras, 2013). Nele, estuda os casos de heranças e diversidades, inicialmente, indesejadas seja pelos pais seja pelos filhos. Depois, a arte de viver leva a superar essa repulsa inicial e aceitar as identidades verticais e horizontais.

Na medida em que nossos filhos se parecem conosco, eles são nossos admiradores mais preciosos, e, na medida em que são diferentes, podem ser os nossos detratores mais veementes.

Devido à transmissão de identidade de uma geração para a seguinte, a maioria dos filhos compartilha ao menos algumas características com os pais. São o que chamamos de identidades verticais. Atributos e valores são transmitidos de pai para filho através das gerações, não somente através de cadeias de DNA, mas também de normas culturais compartilhadas.

A etnia, por exemplo, é uma identidade vertical. Crianças de cor têm, em geral, pais de cor; o fato genético da pigmentação da pele é transmitido através das gerações, junto com uma autoimagem de pessoa de cor, embora a autoimagem possa estar sujeita ao fluxo geracional.

A linguagem é geralmente vertical, uma vez que a maioria das pessoas que fala grego educa os filhos para falar grego também, ainda que o entoe de forma diferente ou fale outra língua a maior parte do tempo.

A religião é moderadamente vertical: pais católicos tendem a criar filhos católicos, embora as crianças possam se transformar em irreligiosas (ateias) ou se converter a outra fé.

A nacionalidade é vertical, exceto para os imigrantes.

Cabelos loiros e miopia são muitas vezes transmitidos de pais para filhos, mas na maioria dos casos não constituem uma base importante para a identidade — o loiro porque é bastante insignificante, e a miopia porque é facilmente corrigida.

Muitas vezes, porém, alguém tem uma característica inata ou adquirida que é estranha a seus pais e, portanto, deve adquirir identidade de um grupo de iguais. É o que Solomon chama de identidade horizontal.

As identidades horizontais podem refletir genes recessivos, mutações aleatórias, influências pré-natais, ou valores e preferências que uma criança não compartilha com seus progenitores.

Ser gay é uma identidade horizontal; a maioria das crianças gays tem pais heterossexuais e, embora sua sexualidade não seja determinada por seus iguais, elas aprendem a identidade gay observando e participando de uma subcultura fora da família.

A deficiência física tende a ser horizontal, bem como a genialidade.

A psicopatia é também muitas vezes horizontal; a maioria dos criminosos não é criada por mafiosos e deve inventar sua própria insídia.

O mesmo acontece com problemas como o autismo e a deficiência intelectual.

Uma criança concebida por estupro nasce com desafios emocionais que a própria mãe desconhece, ainda que advenham de seu trauma.

Essa situação toda de diversidade parecia impressionantemente familiar a Solomon porque ele é gay. Gays em geral crescem sob a tutela de pais heterossexuais que acham que os filhos estariam melhor se fossem como eles e, às vezes, os atormentam, pressionando-os a se adequar. Com frequência, essas pessoas homossexuais descobrem a identidade gay na adolescência ou mais tarde, encontrando grande alívio nisso.

Quando Solomon começou a escrever sobre os surdos, o implante coclear, que pode proporcionar uma espécie de fac-símile da audição, era uma inovação recente. Ele foi saudado pelos progenitores como uma cura milagrosa para um defeito terrível e foi lamentado pela comunidade surda como se fosse um ataque genocida a uma comunidade vibrante.

Assim como seus pais entenderam mal quem Solomon era, outros pais devem estar constantemente entendendo mal seus filhos. Muitos pais sentem a identidade horizontal de seu filho como uma afronta.

A diferença marcante de uma criança em relação ao resto da família exige conhecimento, competência e ações que uma mãe ou um pai típicos estão desqualificados para oferecer, ao menos de início. A criança também é diferente da maioria de seus colegas e, portanto, menos compreendida ou aceita por um amplo círculo.

Pais violentos agridem menos os filhos que se assemelham a eles. Se seu pai é um espancador, reze para que você tenha os traços físicos dele!

As famílias tendem a reforçar as identidades verticais desde a primeira infância, mas muitas se opõem às horizontais. As identidades verticais em geral são respeitadas como identidade; as horizontais são muitas vezes tratadas como defeitos.

Alguém poderia argumentar que os negros enfrentam muitas desvantagens nos Estados Unidos hoje, mas há poucas pesquisas sobre como a expressão gênica poderia ser alterada para fazer com que a próxima geração de crianças nascidas de pais negros saia com cabelos lisos loiros e tez cor de creme. Na América moderna, às vezes é difícil ser asiático, judeu ou mulher, mas ninguém sugere que asiáticos, judeus ou mulheres seriam tolos de não se transformarem em homens brancos cristãos se pudessem.

Muitas identidades verticais trazem desconforto às pessoas e, contudo, não tentamos homogeneizá-las. Poder-se-ia dizer que as desvantagens de ser gay não são maiores do que as dessas identidades verticais, mas há muito tempo a maioria dos pais busca transformar seus filhos gays em heterossexuais.

Corpos anômalos são geralmente mais assustadores para aqueles que os testemunham do que para as pessoas que os têm, mas os pais se apressam a normalizar a excepcionalidade física, muitas vezes com grande custo psíquico para si e seus filhos. Rotular a mente de uma criança de doente — seja ela autista, deficiente intelectual ou transgênero — talvez reflita mais o desconforto que essa mente causa aos pais do que qualquer desconforto que cause ao filho. Em muitos casos, aquilo que foi corrigido talvez devesse ter sido deixado como estava.

Há tempos que defeituoso é um adjetivo considerado muito carregado pelo discurso liberal de esquerda, mas os termos médicos que o substituíram — “doença”, “síndrome”, “condição” — podem ser quase tão pejorativos à sua maneira discreta.

Muitas vezes usamos o termo “doença” para depreciar um modo de ser, e “identidade” para validar essa mesma maneira de ser. Trata-se de uma falsa dicotomia.

Uma dualidade atua nessa questão do eu. Muitas condições são tanto doença como identidade, mas só podemos ver uma se obscurecermos a outra. A política da identidade refuta a ideia de doença, enquanto a medicina ludibria a identidade. Ambas saem diminuídas com essa estreiteza.

Temos de examinar doença e identidade, compreender que a observação acontece geralmente em um domínio ou no outro e chegar a uma mecânica sincrética. Precisamos de um vocabulário em que os dois conceitos não sejam opostos, mas aspectos compatíveis de uma condição. Temos de mudar o modo como avaliamos o valor dos indivíduos e das vidas, para alcançar uma visão mais ecumênica sobre a saúde.

Ludwig Wittgenstein disse: “Tudo o que sei é o que tenho palavras para descrever”. A ausência de palavras é a ausência de intimidade; essas experiências estão sedentas de linguagem.

As crianças que Solomon descreve em seu imenso livro têm condições horizontais que são estranhas a seus pais. Elas são surdas ou anãs; têm síndrome de Down, autismo, esquizofrenia, ou múltiplas deficiências graves; são prodígios; são pessoas concebidas por estupro ou que cometem crimes; são transexuais.

O desgastado ditado diz que “a maçã não cai longe da árvore”, o que significa que uma criança se assemelha a seus progenitores. Essas crianças são maçãs que caíram em outro lugar — algumas, um par de pomares de distância, outras, do outro lado do mundo.

No entanto, miríades de famílias aprendem a tolerar, aceitar e, por fim, celebrar crianças que não são o que elas originalmente tinham em mente. Esse processo de transformação é com frequência facilitado e, às vezes, confundido por políticas de identidade e progressos médicos que se infiltraram nas famílias em um grau que seria inconcebível há vinte anos.

Todos os filhos são surpreendentes para seus pais. Essas situações mais dramáticas são apenas variações sobre um tema comum.

Assim como verificamos as propriedades de um medicamento estudando seu efeito em doses extremamente elevadas, ou examinamos a viabilidade de um material de construção expondo-o a temperaturas altíssimas, do mesmo modo podemos compreender o fenômeno universal da diferença dentro das famílias olhando para esses casos extremos.

O fato de ter filhos excepcionais exagera as tendências dos pais: aqueles que seriam maus pais se tornam pais péssimos, mas aqueles que seriam bons pais muitas vezes se tornam extraordinários. Solomon assume uma posição antitolstoiana e diz que as famílias infelizes que rejeitam seus filhos diferentes têm muito em comum, ao passo que as felizes que se esforçam para aceitá-los são felizes de uma infinidade de maneiras.

Uma vez que os futuros pais têm cada vez mais opções de escolher não ter filhos com desafios horizontais, as experiências de quem tem esses filhos são fundamentais para nossa maior compreensão da diferença.

As primeiras reações e interações dos pais com uma criança determinam como ela verá a si mesma. Esses pais também sofrem mudanças profundas causadas por suas experiências.

Se você tem um filho com deficiência, será para sempre o pai de um filho com deficiência. Este é um dos fatos básicos a seu respeito, fundamental para a maneira como as outras pessoas o percebem e decifram.

Esses pais tendem a ver a aberração como doença até que o hábito e o amor lhes permitam lidar com sua nova realidade estranha — muitas vezes introduzindo a linguagem da identidade. A intimidade com a diferença promove a reconciliação.

Divulgar a felicidade aprendida por esses pais é vital para sustentar identidades que hoje estão vulneráveis à erradicação. Suas histórias apontam para todos nós um caminho para expandir nossas definições de família humana.

É importante saber como pessoas autistas se sentem em relação ao autismo, ou anãs em relação ao nanismo. A aceitação de si mesmo faz parte do ideal, mas sem aceitação familiar e social ela não pode amenizar as injustiças implacáveis a que muitos grupos de identidade horizontal estão sujeitos, e não provocará uma reforma adequada.

Vivemos em tempos de xenofobia, quando a legislação, com apoio da maioria, abole os direitos das mulheres, de pessoas lgbt (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros), de imigrantes ilegais e de pobres. Apesar dessa crise de empatia, a compaixão prospera em casa, e o amor da maioria dos pais dos quais fiz o perfil atravessa linhas divisórias. Entender como eles chegaram a pensar bem de seus próprios filhos pode dar a nós motivo e discernimento para fazer o mesmo.

Olhar no fundo dos olhos de seu filho e ver nele ao mesmo tempo você mesmo e algo totalmente estranho, e então desenvolver uma ligação fervorosa com cada aspecto dele, é alcançar a desenvoltura da paternidade egocêntrica, mas altruísta.

É incrível a frequência com que essa reciprocidade é alcançada — com que frequência pais que supunham que não poderiam cuidar de uma criança excepcional descobrem que podem. A predisposição para o amor dos pais prevalece na mais penosa das circunstâncias. Há mais imaginação no mundo do que se poderia pensar.

Leia maisFilhos Indesejados

6 thoughts on “Heranças e Diversidades: Identidades Verticais e Horizontais

    • Prezado Reinaldo,
      muito grato. Eu tenho o impresso – e é um calhamaço de mais de 1.000 páginas, cujo peso da leitura me leva adiar a leitura desde que o comprei no lançamento, há mais de uma ano. Só li a Introdução. Minha mulher leu-o todo e disse-me que é excelente!

      Assisti ao vivo, jogando a transmissão da rede (site CPFL Cultural) na TV via air-play, o debate na Flip com o autor: Andrew Solomon. É gay militante e extremamente culto. Apresentou seu filho no palco.

      O epub tem uma grande vantagem para quem como eu que gosta de sublinhar: é muito mais fácil.
      abs

      • Prezado Fernando,
        estou procurando os Epup ou até mesmo livros em PDF, justamente pela praticidade e portabilidade no uso. Na minha biblioteca física (livros comprados nos últimos 20 anos), tenho 2100 volumes que ocupam 3 estantes com 6 prateleiras todas cheias, como moro em apartamento estou tendo problemas de espaço. Já consegui 80% desse acervo em livros digitais, principalmente Epup, que são pequenos e super práticos, como você mesmo disse, para fazer anotações é excelente e compartilhar esse conteúdo, mais fácil ainda. Fico feliz que tenha gostado. Abs.

  1. Reblogged this on {RCRISTO – Tecnologia e Informação} and commented:
    Heranças e Diversidades: Identidades Verticais e Horizontais – Andrew Solomon escreveu um livro extraordinário: Longe da Árvore: Pais, Filhos e a Busca da Identidade (tradução Donaldson M. Garschagen, Luiz A. de Araújo, Pedro Maia Soares. — 1a ed. — São Paulo: Companhia das Letras, 2013). Nele, estuda os casos de heranças e diversidades, inicialmente, indesejadas seja pelos pais seja pelos filhos. Depois, a arte de viver leva a superar essa repulsa inicial e aceitar as identidades verticais e horizontais.

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